Entre Lamego e o vale do Douro, num recanto verde ao abrigo da Serra de Leomil, esconde-se um dos monumentos mais importantes da história religiosa de Portugal. O Mosteiro de São João de Tarouca foi o primeiro mosteiro cisterciense fundado em território português, numa região a que muitos chamam, com propriedade, o "berço de Cister". Visitar Tarouca é percorrer um pequeno território onde se concentram, a poucos quilómetros uns dos outros, um mosteiro fundador, um segundo grande cenóbio em Salzedas e uma das mais belas pontes medievais fortificadas do país, em Ucanha. Neste guia reunimos o essencial para planear a visita, sem perder o rigor histórico.
Mosteiro de São João de Tarouca: história e o que ver
A construção do mosteiro iniciou-se por volta de meados do século XII — as fontes apontam a década de 1150 — e a sua fundação está ligada à própria génese do reino. Os monges de Cister apoiaram a afirmação de D. Afonso Henriques, e o primeiro rei recompensou a ordem ajudando a sua expansão por esta faixa do Douro Sul. É este o motivo pelo qual São João de Tarouca é recordado como o primeiro mosteiro masculino da ordem cisterciense em Portugal.
O conjunto cresceu muito ao longo dos séculos, com grandes ampliações nos séculos XVII e XVIII, incluindo um colossal dormitório de dois pisos. Em 1834, com a extinção das ordens religiosas, iniciou-se o declínio: a igreja passou a paroquial e as dependências monásticas foram vendidas e, durante décadas, exploradas como pedreira. O que hoje se visita é, por isso, um diálogo entre a igreja viva e as ruínas em processo de estudo e valorização.
Na igreja vale a pena demorar-se. Guarda o magnífico túmulo de D. Pedro Afonso, Conde de Barcelos — filho de D. Dinis e autor do Livro de Linhagens —, um túmulo gótico em granito com a estátua jacente do defunto, um cão aos pés (símbolo de fidelidade) e uma cena de caça ao javali esculpida em relevo numa das faces. Outro tesouro é a tábua de São Pedro, do início do século XVI, atribuída a Gaspar Vaz e associada, na tradição local, ao círculo de Grão Vasco, da escola de pintura de Viseu. No exterior e envolvente podem observar-se as escavações arqueológicas que, nas últimas décadas, trouxeram à luz as antigas dependências do mosteiro e ajudam a compreender a dimensão do complexo.
Horários e bilhetes podem variar ao longo do ano; confirme antes de ir.
Mosteiro de Santa Maria de Salzedas
A poucos quilómetros ergue-se o Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, outro grande cenóbio cisterciense do concelho. A sua construção iniciou-se em meados do século XII, na sequência da doação de terras à ordem por Teresa Afonso, viúva de Egas Moniz, o célebre aio de D. Afonso Henriques — um mosteiro masculino que deve a sua origem a uma fundadora. Foi, no seu tempo, um dos maiores e mais ricos mosteiros cistercienses portugueses, senhor de vastas terras em redor e detentor de uma biblioteca notável.
A igreja foi profundamente remodelada entre os séculos XVI e XVIII, e a imponente fachada barroca que hoje se vê — que permaneceu inacabada — data já do século XVIII. O contraste entre a monumentalidade do templo e a quietude da pequena aldeia que o rodeia é uma das imagens mais marcantes de Tarouca. Também aqui convém confirmar horários antes da visita.
Ponte e Torre de Ucanha
Se há imagem que resume o fascínio medieval desta região, é a Ponte e Torre de Ucanha, Monumento Nacional sobre o rio Varosa. A ponte, de arcos quebrados, remonta às suas origens medievais e liga as duas margens; junto dela ergue-se uma torre fortificada, mandada construir em 1465 por D. Fernando, abade do Mosteiro de Salzedas.
A torre tinha tripla função: defesa à entrada do couto monástico de Salzedas, ostentação senhorial e, sobretudo, cobrança de portagem. Era aqui que viajantes e mercadorias pagavam para atravessar — uma das mais conhecidas portagens do Portugal medieval. A cobrança terá cessado no início do século XVI. Atravessar a pé esta ponte fortificada, com a torre a projectar-se sobre a água, é uma das experiências imperdíveis de quem visita Tarouca.
Paisagem e Serra de Leomil
Tarouca estende-se num vale fértil, protegido a sul pela Serra de Leomil, com os seus horizontes de socalcos, pinhais e aldeias de granito. É uma terra de transição entre o planalto beirão e o Douro vinhateiro, de ribeiras e caminhos antigos que seguiam o traçado das rotas monásticas. Quem gosta de caminhar encontra percursos tranquilos entre os mosteiros, com a vantagem de serem curtas as distâncias. A proximidade de Lamego e do Douro faz de Tarouca uma base discreta mas estratégica para explorar toda esta região.
O que comer
A mesa transmontana e duriense está bem representada. Procure a carne de qualidade da região, os enchidos de fumeiro, o cabrito assado e os pratos de forno. Nos doces, a vizinha Lamego oferece referências como a célebre bola, que pode recriar em casa com a nossa receita da bola de Lamego. Acompanhe com os vinhos da região do Douro. Como sempre, a oferta de cada restaurante muda; confirme antes de ir.
Como visitar: roteiro
Um dia dá para o essencial. Comece de manhã pelo Mosteiro de São João de Tarouca, com tempo para a igreja, o túmulo e as escavações. Siga depois para Salzedas e termine o dia na Ponte e Torre de Ucanha, idealmente ao fim da tarde, com a luz rasante sobre o Varosa. Se quiser prolongar, Tarouca encaixa bem num roteiro pelo Douro de 2 a 3 dias, combinando os mosteiros com Lamego e as quintas vinhateiras. Consulte a agenda para eventos e visitas guiadas.
Como chegar
Tarouca fica a sul do Douro, perto de Lamego. De carro, chega-se facilmente a partir de Lamego por estrada regional, e a ligação à rede de autoestradas do interior norte torna a região acessível tanto de Viseu como do Porto. Os três monumentos — São João de Tarouca, Salzedas e Ucanha — distam poucos quilómetros entre si, pelo que o carro é a forma mais prática de os percorrer.
Onde dormir
A região oferece soluções para diferentes gostos, de casas de campo a unidades mais completas. Para começar a planear a estadia, veja os hotéis em Tarouca, as opções de turismo rural em Tarouca e o concelho de Tarouca com toda a informação para a sua visita.
Perguntas frequentes
Qual foi o primeiro mosteiro cisterciense de Portugal?
O Mosteiro de São João de Tarouca é recordado como o primeiro mosteiro masculino da ordem de Cister fundado em território português, na região do Douro Sul por vezes chamada o "berço de Cister".
Quem está sepultado no Mosteiro de São João de Tarouca?
A igreja guarda o túmulo gótico de D. Pedro Afonso, Conde de Barcelos, filho de D. Dinis e autor do Livro de Linhagens, com estátua jacente e uma cena de caça ao javali esculpida.
O que é a Ponte e Torre de Ucanha?
É uma ponte medieval sobre o rio Varosa com uma torre fortificada do século XV, construída por ordem do abade de Salzedas, que servia de defesa, ostentação e ponto de cobrança de portagem. É Monumento Nacional.
Fica longe o Mosteiro de Salzedas do de São João de Tarouca?
Não. Os dois mosteiros e a Ponte de Ucanha ficam a poucos quilómetros uns dos outros, no concelho de Tarouca, o que permite visitar os três no mesmo dia.
Quais são os horários de visita dos mosteiros?
Os horários e preços podem variar ao longo do ano. Recomendamos confirmar junto dos monumentos antes de se deslocar.
