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Bragança

Parada e o ciclo das festas de Inverno

Publicado em · 9 min de leitura

Do arquivo do trasosmontes.com. Este texto foi publicado em dezembro de 1998 (secção Braganç@Net). É reproduzido como saiu, só com correcções de ortografia; números, contactos e obras referem-se a essa época. Para informação actual, veja a página de Bragança.

A antiga freguesia de S. Genésio de Parada, era reitoria da apresentação da Casa de Bragança, no termo desta cidade. Tem um bom estatuto económico, com base nos cereais e castanha. Também o subsolo é rico, com várias minas agora extintas. A igreja matriz, barroca, tem bons altares, há pouco restaurados e dourados. No adro está um berrão, figura zoomórfica vulgar na região. O seu orago é S. Gens.

Mas mais importante ainda é pelas suas "lendas usanças tradições ethenológicas com ressaibo phálico e pelos vestígios e documentos archaicos, heráldicos e históricos que ainda conserva". O seu nome vem do português medieval, segundo Abade de Baçal, e resulta da combinação do foro de parada e do distintivo de infanções, altamente honorífico e que usavam, durante a primeira monarquia, apenas os netos dos reis. É assim que aparece mencionada a aldeia desde as Inquirições de D. Afonso III em diante. Esquecida e arquivada a história, natural seria que também se esquecesse o nome. E assim se fez.

Feitas as apresentações, vou dar uma perspectiva geral do ciclo das festas de Inverno – o Natal, o ramo, o carro, a rosca, os reis, o entrudo e a serra das velhas.

Na apresentação das festas procurei, por um lado, mostrar como ainda se vivem e, por outro, recordar o que delas ainda se lembra.

Ciclo de festas

Chega Novembro, chegam os Santos e os Fiéis. Chega o S. Martinho, chegam as castanhas e o vinho novo. Chegam o frio e as geadas, chegam as matanças. Avança o Inverno, a nostalgia e as recordações… os serões que eram à lareira, à luz mortiça das candeias e candeeiros de azeite e de petróleo, que enchiam todo o lar de uma luz trémula e amarelada que projectava nas paredes as sombras imensas da fantasia, animada pelo tremer da luz devorada sofregamente pelos olhos esbugalhados da ranchada de irmãos e primos, todos netos do mesmo contar, e as sombras dos medos guardados debaixo da roupa agasalhadora da cama, nas noites longas e geladas de Inverno…

Chegam também as festas. Mas, apesar de haver muitas mais ao longo de todo o Inverno, as festas eram as do Natal. Eram o careto que escondia uma pessoa da terra, os capotes que resguardavam do frio, o gaiteiro que tocava uns paus que já pareciam relíquias e vinha de outras terras. Já os houvera na aldeia, mas agora… Eram o jantar do Santo Estêvão no meio da rua para os mordomos e as autoridades, com sardinhas, iscas de bacalhau e polvo frito para toda a gente… Eram o carro de bois engalanado para o Santo Estêvão, seus mordomos e autoridades, puxado a braços por rapazes fortes como touros, de pernas enterradas nos atoleiros… eram as paragens em casa dos mordomos e demais devotos do Santo e da festa para animar a corrida e dar mais espírito às forças dos puxadores e alegria a toda a gente, grandes e pequenos. Festas eram as corridas da rosca em pelota, pois só as cuecas ou celouras eram permitidas, pés descalços na lama, no gelo e na neve, tentando vencer o campeão do ano anterior ou, se o campeão era o mesmo, fazer melhor ainda do que no ano anterior. Eram a galhofa com as mamotas e o vinho, em curral estrumado de fresco, aquecido pelo bafo da cria ali ao lado e aberto só aos homens. Eram o presépio da igreja, as prendas em casa e as loas ao Menino… eram o charolo das roscas reluzentes de mel com que estavam barradas e de farinha com que estavam salpicadas.

Existiam mais festas para suceder e dar continuidade a estas. E algumas bem interessantes que eram! Os Reis que vinham de mesmo longe às vezes, e debaixo de neve até, e que ficavam até os olhos se fecharem e a cabeça se encostar ao braço do escano e a mente adormecer até ao ano seguinte. O entrudo das caqueiradas, das surpresas dos disfarces e dos cortejos e papeladas que contavam em gargalhadas as peripécias do ano. A serra das velhas que fazia da nóbel-avó a autora do milagre da vida, festejando o neto recém-nascido, e o fermento de mais no simbolismo da sua morte. A aleluia dos ramos de oliveira enfeitados e dos sinos a tocar por alto toda a noite, no sábado seguinte. O folar da Páscoa e do compasso que vai de casa em casa e salta paredes de quintais e pomares para atalhar caminho entre os bairros dispersos da aldeia. O Corpo de Deus a visitar os altares erguidos pelos quatro cantos da aldeia, com ruas enfeitadas com arcos de ramagens e atapetadas de flores. Ou, então, eram as talanqueiras aos acompanhamentos em dias de boda, com canjatos, tremoços e vinho para toda a gente.

Destas festas vou apenas falar de duas: da festa do ramo e da serra das velhas, talvez por me parecerem as mais interessantes.

A festa do Ramo

Nas celebrações do nascimento pontifica o ramo. Esta festa tem quatro mordomos solteiros, dois de cada sexo, que promovem as loas ao Menino Jesus, cantadas por quatro meninas de voz cristalina, e cinco noites de baile para comer cada um dos ramos do charolo.

As loas são quadras em louvor de Deus Menino para serem cantadas antes de se iniciar a Missa do Galo. Quatro meninas, menores de dez anos, entram na igreja duas a duas, ladeadas pelas mordomas e seguidas pelos mordomos que levam o charolo, e avançam cantando pelo centro da igreja até ao presépio, enorme, construído pelos mordomos à entrada da capela do altar-mor. É noite de igreja cheia!

Neste momento subsistem duas versões das loas que são cantadas indistintamente ao gosto dos mordomos e da pessoa que as ensaia. A mais antiga de que não se conhece o autor, mas tem características verdadeiramente populares, parece ter tido uma preocupação didática. É uma versão dialogada que apela ao ambiente dos romeiros e pastores que caracterizam a literatura natalícia. Narra o nascimento do Menino Jesus, começando na Anunciação e terminando com a presente adoração e entrega das oferendas ao Menino na pessoa do Pároco e votos de boas festas para todos. Segue-se a missa que termina com o beijar do Menino, para o que se dispõem as pessoas em duas alas no centro da igreja e pelo meio das quais passa o Padre dando o menino a beijar, enquanto um dos mordomos segue à frente com uma tocha e uma salva para recolher as ofertas ao Menino. Ficam as pessoas em paz consigo mesmas e com o mundo e regressam felizes a casa.

No dia seguinte há missa matinal, e lá estão de novo os quatro mordomos para no fim arrastarem o charolo para a rua e procederem à arrematação das roscas. O charolo é uma espécie de andor em estrutura de madeira e em forma de paralelepípedo rectangular encimado por uma pirâmide. Esta estrutura é toda coberta de roscas e cinco bolos enormes, um em cada vértice superior do paralelepípedo e o último na ponta da pirâmide. Do centro de cada bolo sai um ramo de oliveira que está decorado com frutas, chocolates, bolachas e garrafas de vinho do Porto. São estes ramos que dão o nome à festa. As roscas são feitas de pão de trigo e cobertas de um molho à base de mel e ovo, que as deixa amareladas e brilhantes, e polvilhadas de farinha. Podem ter formas diversas mas são normalmente arredondadas, com enfeites que lhes diversificam as formas e algumas transformam-se em estatuetas e imitam as formas humanas, animais e outras. Enquanto as roscas são arrematadas uma a uma, no fim das missas da quadra, e posteriormente oferecidas pelos compradores aos mordomos novos de Santo Estêvão, a quem compete organizar a corrida da rosca e a galhofa no dia dos Santos Inocentes, aos ramos é reservada uma finalidade mais comunitária.

Cada ramo justifica sua noite de baile, os bailes da rosca. Chama-se-lhe comer a rosca, o que pode acontecer em casa dos pais ou familiares ou em sala pública. Para o efeito, o bolo que é grande, e tem a forma de um pão, é partido em fatias, a que se juntam os enfeites. Fazem-se assim os quinhões (porções obtidas) que são expostos numa mesa grande, onde as pessoas os vão levantar a troco da importância em dinheiro previamente fixada. A isso chama-se ajudar à rosca, que é dever de todos. Não se dispensa a presença de ninguém, mas de forma alguma a das moças solteiras e por isso em cada dia os mordomos correm as casas todas a participar que nessa noite se come a rosca, a convidar toda a gente e a lembrar de forma especial, sobretudo às mães, a necessidade de estas estarem presentes. Cada ramo tem seu mordomo, ou cada mordomo seu ramo, e sobeja um que era antigamente sorteado, através de rifa que os quatro mordomos vendiam durante a quadra, obrigando cada pessoa a tirar seu papelinho bem enrolado de dentro de uma cestinha de verga fina e colorida que percorria as ruas e as casas da aldeia.

Ultimamente têm sido introduzidas algumas alterações, mas que no fundo têm respeitado a tradição e o espírito de celebração colectiva. O ramo da ponta, por exemplo, deixou de ser sorteado e é comido como os outros em noite própria, a última; cada mordomo procura enriquecer a sua rosca com bolos de pastelaria ou de fabrico caseiro e bebidas finas, que são arrematadas durante o baile; a casa do povo tem servido para comer as roscas todas nos últimos anos. O dinheiro, que as festas rendem, reverte para a igreja e é entregue imediatamente à comissão fabriqueira.

A Serra das Velhas, serra da velha ou serração da velha, inscreve-se nas populares loas, testamentos e julgamentos e tem um pouco de tudo. Começa pelo louvor da mulher como mãe, para mais adiante lhe lembrar que, apesar de estar na origem da vida, também morrerá e passa na parte final ao testamento, normalmente no aproveitamento do corpo para obra a condizer com o carácter e a constituição do corpo da avó:

Estamos no meio da quaresma,
sem provarmos o café.
Vamos serrar esta velha
para o altar de S. José.

ou

Estamos no meio da quaresma,
sem vermos nado do teu amor.
Vamos serrar esta velha
para o altar de Nosso Senhor.

No caso de, no fim, não servir nada de comer e beber aos oficiantes, despedem-se estes com uma reprimenda:

Digo-te adeus, minha avozinha,
nesta noite tão lembrada.
Não tens nada que nos dar,
damos-te uma boa chocalhada.

Não me parece demais salientar o carácter de celebração e de festa que enforma todas estas manifestações populares tradicionais, porque efectivamente se trata de festejar e celebrar a vida. Repare-se que a serra das velhas se concretiza num cumprimento e homenagem às mulheres que foram pela primeira vez avós no período de um ano que não se contempla então. Essa é a forma de que a tradição ainda se reveste em Parada e reveste ou revestia em outras localidades.

Veja também o guia actual das festas de Inverno em Trás-os-Montes.