Macedo de Cavaleiros: Cortiços, Salselas e Morais
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Do arquivo do trasosmontes.com. Este texto é dos primeiros anos do site (fichas dos concelhos); a cópia mais antiga que se conhece é de fevereiro de 2001. É reproduzido como saiu, só com correcções de ortografia; números, contactos e obras referem-se a essa época. Para informação actual, veja a página de Macedo de Cavaleiros.
O concelho
O concelho de Macedo de Cavaleiros tem 38 freguesias com 18.074 habitantes, dos quais 20.000 eleitores. O seu feriado municipal é dia 29 de Junho.
Monumentos
São sem dúvida monumentos a visitar a Igreja Matriz, a Igreja de Vale Benfeito (construída no século XVII), a Lamalonga e Vilarinho de Agrochão, o Pelourinho de Chacim, Pinhovelo, Vale Prados e Nozelos, o Largo Maria da Fonte e os vários Solares. Não deixe de visitar o Santuário de Balsemão, a Barragem do Azibo, a Serra de Bornes e o Parque Florestal.
A visitar
Santuário de Balsemão, Barragem do Azibo, Serra de Bornes e Parque Florestal.
Romarias
Festa de S. Pedro (29 de Junho - Macedo de Cavaleiros), Santo Ambrósio (último domingo de Agosto - Vale da Porca), Romaria em honra de Nossa Senhora de Balsamão, Festa de Senhora do Campo (25 de Março - Podence), Festa de Nossa Senhora do Freixo (4º domingo de Agosto - Vale Benfeito), Santa Catarina (último domingo de Novembro - Vale Prados) e S. Francisco de Assis (último domingo de Agosto - Lamalonga).
Gastronomia
Enchidos, folares, bacalhau assado, caça e vinho da região.
Artesanato
Tecelagem, linho e lã, colchas de renda, cestaria de vime, castanho e de palha, carpintaria e forja.
Cortiços
Cortiços, freguesia do concelho de Macedo de Cavaleiros, situa-se a sudoeste da sua sede concelhia e espraia-se por um vasto vale irrigado pela ribeira, assim lhe chamam nos Cortiços, em quantidade suficiente durante todo o ano.
Apesar dos Cortiços, etimologicamente, ser terra de abundantes colmeias, é hoje, sem sombra de dúvida, terra de vasto e moderno olival.
Falar ou escrever sobre os Cortiços, é sem dúvida, dar visibilidade às figuras ilustres que ao longo dos tempos fizeram para o bem ou mal, o historial de tão sui géneris povoação.
Alcoforados, Farias, Passanhas, Charulas e Morais Sarmento, são sem dúvida famílias que atestam da longevidade desta freguesia.
As famílias e os mitos
Se é verdade que um dos reitores do Liceu de Bragança, foi António Alberto Charula Pessanha, Dr. em direito, não é menos verdade que foi sempre em torno dos Alcoforados que se teceram os maiores mitos, destacando-se destes o que se prende com Mariana Alcoforado, (a freira das cartas amorosas).
Mariana, é dada como oriunda desta povoação, pelo que a tradição aponta uma capelinha contígua ao povoado, encimada por brasão da família Alcoforado onde o brutamontes do Chamilly, ou o seu intermediário, ia buscar as cartas depositadas às ocultas, pela sublime louca de amores que haveria de deixar farta descendência, diz-se ter tido dezoito filhos.
As sepulturas dos fidalgos
Na capela-mor da igreja paroquial, há uma sepultura, em granito brasonada, sobre cuja lápide se pode ler, "aqui jazem os Drs. Gaspar Dias e seu filho Francisco Borges de Faria".
Enquanto isto, no cemitério público, ainda se podem ver as sepulturas de Martinho Sarmento, (rico fidalgo e senhor de sete capelas e morgadios) que segundo se diz, haveria de morrer na miséria num palheiro de Cernadela, e a dos Alcoforados, ambas com os respectivos brasões e inscrições nas lápides.
A igreja dos Cortiços
Esta bonita e majestosa igreja, deve datar do ano de 1574, já que na porta lateral da dita, que é um arco de volta redonda, se pode ler tal data inscrita.
É bom referir que esta igreja foi pertença do Colégio dos Jesuítas de Bragança, no que respeita a actos administrativos.
Grande desordem em acto eleitoral
Pelo ano de 1865, dias 26 e 27, quer em Guide, quer nos Cortiços, tiveram lugar barulhos célebres, pelo que e, em relação ao dos Cortiços, a Gazeta de Portugal, tenha dado conta dum telegrama dirigido pelas autoridades, a 27 de Novembro do mesmo ano que a seguir transcrevemos:
- "Grande desordem na assembleia dos Cortiços. Preso o Abade de Vale Benfeito; depois solto, foi perseguido com vozes de (morra); houve mais prisões, reina a anarquia; a segurança pública está em perigo".
Enquanto isto, o Abade de Vale Benfeito dirigia carta ao amigo deputado Júlio de Carvalhal Sousa Teles, onde dava a sua versão dos acontecimentos, citamos:
- "Fui insultado e preso pelo presidente da Assembleia dentro da Igreja, porque reclamava pacificamente o direito de um cidadão freguês. Por esta ocasião, houve grande tumulto, (trancas de portas, tocheiras e outros objectos destinados ao culto religioso) que serviram de armas aos desordeiros dos Cortiços.
Fui arrastado para fora da igreja até ao adro pelo presidente e ainda outro freguês foi, e muito, insultado, só porque não queria votar na lista do Administrador. À vista desta desordem fugiram os eleitores aterrados, enquanto eu segui o caminho da minha freguesia. A pouca distância da vila, fui novamente acometido por mais de 40 desordeiros que correndo para mim, gritavam (morra, morra)! Nós somos Pessanhas! Parei atónito e novamente preso fui conduzido até à praça, à ordem do delegado do Administrador, Pe. João Pessanha".
Por último
Acresce dizer que os Cortiços receberam o seu 1.º foral, conjuntamente com Cernadela e semelhante ao de Bragança, pelo ano de 1368, por Afonso III, vindo a ser confirmado mais tarde por D. Pedro a 4 de Agosto de 1517 e 21 de Julho de 1682, que por ser extenso, nos escusamos de reproduzir.
Salselas: Amadeu Pereira e a cultura popular
Amadeu do Nascimento Pereira nasceu em Salselas - Macedo de Cavaleiros, no ano de 1921. Tendo feito um percurso simples mas exemplar para muita gente, começa já a sentir o peso dos seus 78 anos de idade. Conheceu e praticou com gosto todas as tarefas do lavrador da nossa aldeia. Desde lavrar a terra com amor; ceifar as searas com coragem à torreira do sol no pino do verão; compor com a habilidade graciosa dum escultor as medas de centeio ou de trigo nas eiras; puxar com força e jeito pelo mangual que o impertigava bem às ordens ritmadas do "capitão" da malha; e desde as cantilenas durante o coanhar do grão até aos actos culturais da nossa aldeia em que participava, é justo que em nome do mundo rural e da cultura popular lhe prestemos esta homenagem no jornal regional que ele assina e lê, com agrado, na sua pacata vida de emigrante reformado.
Para além daquelas actividades laborais, comuns a muitos aldeãos da sua época, lembramos a sua participação como bom actor do teatro popular que se foi representando em Salselas, ao longo de décadas, e que se liga ao teatro que vinha já da Idade Média, com o "Acto da Paixão" ou o "Nascimento de Jesus". Ainda nos fins do século passado se representou "O Natal" em frente da igreja da nossa aldeia, onde foi actor também José Carlos Valente, que fazia o papel de "Lavrador". Amadeu Pereira foi também um daqueles lavradores que participou em peças teatrais com outra temática, como "Os Filhos da Miséria" em 1946; "A Bandeira Roubada" em 1950; "O Soldado da Roliça", em 1953; e "Os Fidalgos da Casa Mourisca", extraída das obras de Júlio Dinis e representada em 1958. Contudo, não podemos esquecer que Amadeu Pereira prestou uma grande colaboração à dança e à animação dos Pauliteiros de Salselas, através do grupo em que participou na mocidade dos anos quarenta e os grupos que ele próprio criou e animou até à década de noventa. Foi este salselense que deu continuidade à herança que recebeu de Félix Ventura Tiago, ensaiador dos Pauliteiros na década quarenta. Dizia-nos Amadeu Pereira que "o homem já estava velhote e não se aguentava muito tempo connosco, quando fazíamos saídas pelas aldeias vizinhas. Foi-me pedindo que o substituísse, começando quando fomos pela primeira vez à aldeia de Veigas-Bragança, nos fins dos anos quarenta". Continuando a recordar a sua paixão pelos Pauliteiros, disse-nos ainda: "Eu gostava muito daquelas danças e desde pequenino que as via dançar e ia atrás do grupo daquele tempo, às "carrichas" dum criado dos meus pais". Graças a esta familiaridade que teve com os Pauliteiros, desde a sua infância, decidiu então participar no grupo criado por Félix Ventura Tiago e depois, em consequência disso, criou nos anos cinquenta o seu primeiro grupo, composto por oito elementos e um suplente. Eram os jovens de menos de vinte anos que se seguem: Valeriano Escaleira; João Jerónimo Ochoa; José Cunha; João Prada; Belarmino Pires; Augusto Rodrigues; Fernando Rodrigues; João Dias e Nuno Anes. Do grupo musical de acompanhamento, faziam parte, Manuel Alberto Gonçalves, tocador da gaita-de-foles; Armindo Dias, tocador de violão; Armelim Ochoa, tocador de guitarra; Luís Baptista, tocador de bandolim; António Prada, tocador do bombo; e Tiago Lito, tocador dos ferrinhos. Virgílio Almendra era o porta-bandeira. Estes dois grupos tocaram e dançaram para o ensaiador no dia do seu casamento em 1956, como que a dizer-lhe obrigado. Quando, mais tarde, Amadeu Pereira se encontrou em França, na Região Parisiense, também criou com outros salselenses e ensaiou o primeiro grupo de Pauliteiros naquele país de acolhimento dos nossos emigrantes, que muito contribuiu para a divulgação da cultura mirandesa em França, e que foi bastante apreciado pelos franceses, como tivemos ocasião de observar durante a exibição na cidade de Clichy, nos arredores de Paris. Depois do seu regresso à terra natal, voltou a organizar outro grupo em 1986, que durou até princípio da década de noventa. É também justo salientar que foi graças ao seu constante empenhamento por esta dança especial da nossa terra que os Pauliteiros tiveram continuidade até ao bom grupo que existe actualmente, agora com outras iniciativas. Por isso, Salselas em particular e a cultura mirandesa em geral podem prestar o seu reconhecimento a este Pauliteiro que tudo fez pela sua preservação, dentro da cultura popular da nossa aldeia. Amadeu do Nascimento Pereira merece bem a estima de todos nós.
Etnografia em Morais
Dessa bonita freguesia, chegou-nos o eco de que um punhado de jovens, filhos da terra, tinham metido mãos à obra e, com mais ou menos dificuldade, tinham conseguido concretizar o objectivo a que se tinham proposto.
Com a mudança da secção da GNR para o novo quartel, moderno e funcional, deu-se a vagatura do bonito edifício, embora degradado, em que a dita tinha funcionado durante muitos anos.
É assim, que um dia alguns jovens ao olharem para tal edifício, se questionaram no sentido do que poderiam fazer para dar vida àquele casarão, numa terra em que tudo parece morrer lentamente.
Desta reflexão resultou a ideia de recolherem, de casa em casa, todos os utensílios em desuso e com ele promover uma exposição.
Se bem o pensaram, melhor o fizeram; meteram mãos à obra e, pese embora a falta de apoios, a exposição "etnográfica" lá está para quem a queira visitar.
Não é nobre, mas na sua simplicidade toca certamente muito mais, todos quantos a visitarem.
Ali pode encontrar, desde o quarto transmontano à tradicional cozinha, ao tear, aos utensílios agrícolas, à arte sacra e à completa cadeira de barbeiro, onde tantas confidências certamente foram partilhadas, assim como às dores de muitos dentes arrancados.
A exposição encontra-se aberta ao público todos os domingos, embora durante a semana não seja difícil conseguir a chave, bastará para tal dirigir-se ao café próximo.
Ao nosso interlocutor, o nosso bem haja, enquanto ao povo de Morais e à sua Associação, lhes auguramos dias prósperos para os objectivos que lhes falta realizar.