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Bragança

Rio de Onor, a aldeia comunitária que Portugal partilha com Espanha

· 9 min de leitura

Rio de Onor é uma aldeia do concelho de Bragança, no extremo nordeste de Portugal, dentro do Parque Natural de Montesinho. É conhecida por duas razões que raramente se encontram juntas: a fronteira entre Portugal e Espanha passa pelo meio do povo, e durante séculos os seus habitantes geriram em comum o forno, o moinho, o rebanho e boa parte da terra. Do lado espanhol, a mesma aldeia chama-se Rihonor de Castilla. Em 2017 foi eleita uma das 7 Maravilhas de Portugal – Aldeias, na categoria de aldeias em áreas protegidas.

Fica a cerca de 25 km da cidade de Bragança, o que faz dela um passeio de meio dia a partir da cidade, ou uma base tranquila para quem quer conhecer o Parque de Montesinho com calma.

Uma aldeia, dois países

Quem chega a Rio de Onor vê um vale estreito, um rio que o atravessa e casas de pedra que sobem pelas duas encostas. Nada no traçado das ruas indica que se está a mudar de país: a fronteira passa pelo meio do povo e atravessa-se sem dar por isso.

Os próprios habitantes nunca olharam para a aldeia como duas terras distintas. Falam do "povo de cima", o lado espanhol, e do "povo de baixo", o lado português, como duas metades do mesmo lugar. Partilharam durante gerações a mesma fala, as mesmas águas e o mesmo comércio de um lado para o outro.

Administrativamente, porém, são realidades separadas. Rihonor de Castilla pertence ao município de Pedralba de la Pradería, na comarca de Sanabria, província de Zamora. Rio de Onor foi freguesia própria, juntamente com a aldeia vizinha de Guadramil, até à reorganização administrativa de 2013; desde então faz parte da União das Freguesias de Aveleda e Rio de Onor, com sede em Aveleda e que inclui também a aldeia de Varge.

O comunitarismo: como a aldeia se governava

O que tornou Rio de Onor famosa entre antropólogos foi a forma como a vida colectiva se organizava. O etnólogo Jorge Dias estudou a aldeia no início dos anos 50 e publicou em 1953 Rio de Onor: Comunitarismo Agro-Pastoril, ainda hoje a obra de referência sobre o tema. Décadas depois, Joaquim Pais de Brito voltou à aldeia para a sua tese de doutoramento, publicada em 1996 como Retrato de Aldeia com Espelho: Ensaio sobre Rio de Onor.

O conselho e a vara

As decisões que diziam respeito a todos eram tomadas pelo conselho, a assembleia dos vizinhos, que escolhia dois mordomos para fazer cumprir o que se acordava. Os trabalhos comunitários eram obrigatórios, e quem faltasse pagava uma multa, muitas vezes em vinho. Essas multas ficavam registadas na chamada vara da justiça, uma vara de madeira que funcionava como livro de contas da aldeia.

Forno, moinho, forja e rebanho

O forno do povo, o moinho e a forja eram de uso comum. O rebanho da aldeia pastava junto nos terrenos comuns, e a aldeia tinha também o seu touro do povo, que vivia numa casa própria. Cerca de metade das terras do termo era propriedade comunitária, sobretudo monte e pastagem.

Hoje, com uma população pequena e envelhecida, muito disto é memória. Mas a memória está bem guardada: a antiga Casa do Touro foi recuperada pela Câmara Municipal de Bragança e abriu em Novembro de 2018 como espaço museológico. No piso de cima conta-se o funcionamento do conselho e mostra-se a vara da justiça; há fotografias, peças etnográficas, testemunhos dos habitantes e uma experiência de realidade virtual que recria o curral tal como era quando lá vivia o touro.

Casa tradicional de xisto com varanda de madeira e flores à porta
Casa tradicional de xisto em Rio de Onor · Foto: Pedro from Maia (Porto), Portugal · CC BY 2.0

A fala de Rio de Onor

Além do português e do castelhano, a aldeia teve uma fala própria, o rionorês, uma variedade do asturo-leonês aparentada com o mirandês. Com o tempo, o lado português foi ganhando traços do português e o lado espanhol do castelhano e do galego. Hoje é considerado quase extinto e restam muito poucos falantes. Se tiver oportunidade de conversar com os mais velhos, é possível que ainda ouça uma ou outra palavra que não encontra em nenhum dicionário.

O que ver em Rio de Onor

A ponte de pedra sobre o rio Onor, coberta de hera
A ponte de pedra sobre o rio Onor · Foto: Pedro from Maia (Porto), Portugal · CC BY 2.0

A aldeia visita-se a pé, sem pressa. Vale a pena reservar pelo menos duas ou três horas.

  • As casas tradicionais. Construídas em pedra de xisto, com coberturas de lousa e varandas de madeira, seguem o modelo da Terra Fria transmontana: dois pisos, com a família em cima e os animais, o grão e as alfaias em baixo. Algumas estão recuperadas, outras mostram o peso do tempo.
  • A ponte e o rio. A ponte de pedra liga as duas margens e é o ponto de onde se tiram as fotografias mais conhecidas da aldeia.
  • A Casa do Touro. O espaço museológico é a melhor forma de perceber o comunitarismo antes de percorrer as ruas.
  • A fronteira. Atravesse para Rihonor de Castilla, o "povo de cima". É a mesma aldeia, do outro lado de uma linha que só existe no mapa.
  • Moinhos e forja comunitária. Fazem parte do património que a freguesia tem vindo a recuperar.
  • Os carabelhos. Repare nas fechaduras de madeira em portas de lojas e currais, um sistema simples que diz muito sobre a confiança entre vizinhos.

Percursos pedestres

Rio de Onor está no meio de uma das zonas do Parque Natural de Montesinho onde é mais fácil avistar veados. Dois percursos sinalizados partem ou passam pela aldeia:

  • PR11 BGC – O lado português de Rio de Onor. Percurso circular de cerca de 7 km, com início junto ao parque de campismo da aldeia. Passa por um carvalho-negral centenário.
  • Grande Rota dos Moinhos e Lameiros. Inaugurada em 2022, tem mais de 30 km e liga Aveleda, Varge, Rio de Onor e Guadramil, seguindo os antigos moinhos ao longo da ribeira de Baçal e do rio Onor. Num dos troços atravessa para o lado espanhol.

Leve calçado de caminhada, água e, se for no Outono, binóculos.

Nas redondezas

Guadramil fica a poucos quilómetros e partilha com Rio de Onor a história de aldeia comunitária, com lagar, moinho e forja de uso colectivo. Tem hoje algumas dezenas de habitantes e uma fala própria, também quase perdida.

Varge e Aveleda, as outras duas aldeias da freguesia, ficam no caminho para Bragança e são pontos de partida da Grande Rota dos Moinhos e Lameiros.

O resto do Parque Natural de Montesinho, criado em 1979, estende-se por cerca de 75 mil hectares entre os concelhos de Bragança e Vinhais, com perto de uma centena de aldeias. A aldeia de Montesinho, que dá nome ao parque, e a aldeia de França são boas escolhas para um segundo dia. Para completar a visita, a cidadela de Bragança merece pelo menos uma tarde. Veja mais sugestões na nossa página do concelho de Bragança.

Como chegar a Rio de Onor

Rio de Onor fica a cerca de 25 km de Bragança, no canto nordeste do concelho. A partir da cidade, a estrada segue para norte até Varge e daí até Rio de Onor e Guadramil. É uma estrada de montanha, estreita em alguns troços, que pede condução calma.

Para quem vem do Porto ou do litoral, o acesso a Bragança faz-se pela A4. Não há transporte público regular que sirva a aldeia com horários práticos para visitantes, por isso o carro é a opção mais realista.

Em dias de neve forte, a estrada entre Varge e Rio de Onor já ficou cortada ao trânsito normal. No Inverno, convém confirmar o estado das estradas antes de sair.

Quando ir

  • Outono (Setembro a Novembro). Provavelmente a melhor altura. A época de brama dos veados, em Setembro e Outubro, aumenta as hipóteses de os avistar, e os soutos e carvalhais ganham cor.
  • Inverno. A aldeia com neve é muito fotogénica, mas os dias são curtos e o acesso pode complicar-se. É também a época das festas de Inverno na região.
  • Primavera e Verão. Lameiros verdes, dias longos e melhores condições para os percursos pedestres. No Verão há mais movimento, sobretudo aos fins-de-semana.

Seja qual for a estação, lembre-se de que Rio de Onor é uma aldeia habitada, não um museu ao ar livre. Cumprimente quem encontrar, não entre em propriedades privadas e deixe os portões como os encontrou.

Onde dormir perto de Rio de Onor

Dormir na aldeia ou nas vizinhas permite ver Rio de Onor ao fim da tarde e de manhã cedo, quando há menos visitantes. Algumas sugestões:

  • Casa do Rio, casa de campo com dois quartos na própria aldeia de Rio de Onor.
  • Casa do Arado, apartamento de turismo rural em Guadramil, a poucos quilómetros.
  • Casa da Edra, casa de campo na aldeia de Montesinho, boa base para explorar o parque.
  • Casa da Aldeia de França, junto ao rio Sabor, na aldeia de França.
  • O Abel Hotel Rural, em Gimonde, perto de Bragança, para quem prefere um hotel.

Veja todas as opções de turismo rural em Bragança e os hotéis em Bragança, se preferir ficar na cidade.

Perguntas frequentes

Onde fica Rio de Onor?

Rio de Onor fica no concelho de Bragança, no distrito de Bragança, a cerca de 25 km da cidade, dentro do Parque Natural de Montesinho. A fronteira com Espanha atravessa a aldeia, cuja parte espanhola se chama Rihonor de Castilla (província de Zamora).

O que é uma aldeia comunitária?

É uma aldeia onde parte dos bens e do trabalho é gerida em comum pelos vizinhos. Em Rio de Onor, o conselho dos vizinhos decidia os trabalhos colectivos, o forno, o moinho e a forja eram partilhados, o gado pastava junto e cerca de metade das terras era comunitária. Hoje essa organização é sobretudo memória, que pode conhecer na Casa do Touro.

Posso atravessar a pé para Rihonor de Castilla?

Sim. Portugal e Espanha fazem parte do espaço Schengen e não há controlo na fronteira. Dentro da aldeia, passa-se de um país para o outro a pé, sem formalidades.

Quanto tempo é preciso para visitar Rio de Onor?

Duas a três horas chegam para ver a aldeia, a Casa do Touro e o lado espanhol. Se quiser fazer o PR11 ou um troço da Grande Rota dos Moinhos e Lameiros, reserve o dia inteiro, ou fique a dormir numa das aldeias vizinhas.