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«Deslumbrar crianças não é fácil»
Sabrosa Escritor Alexandre Parafita respondeu ao Transmontanos de Gema Já foi jornalista, ainda é professor, mas é na literatura infantil que se tem notabilizado. O duriense Alexandre Parafita já publicou mais de uma vintena de livros. A maioria relata lendas transmontanas. Não admira.
O autor nasceu a ouvi-las da boca dos avós, que o impediam de ir para a mina na vinha, dizendo-lhe que viviam lá mouros. Mas se na escrita é transmontano quanto baste, no prato e na pinga, só o “essencial”. E escrever para crianças é fácil? Nada disso. Porquê? Porque “a criança não lê livros para fazer favores a ninguém”.
Semanário TRANSMONTANO (ST): A primeira pergunta é da praxe, considera-se um transmontano de gema?Alexandre Parafita (AP): Sim, e reforçadamente, na medida em que sou duriense, sou do coração do Douro, do vinho do Porto, de Sabrosa e, portanto, tenho toda a minha família aqui radicada, em Trás-os-Montes, e, portanto, sinto-me perfeitamente identificado com as minhas raízes e presumo que essas características servem para me qualificar dessa forma.
ST: Estudou no Porto, passou também por Coimbra, quando estava fora como é que fazia para matar saudades de Trás-os-Montes?AP: Sim é um desconforto imenso, ainda hoje e quando estudava, de facto quando estou fora de Trás-os-Montes só sossego quando regresso, porque as grandes cidades incomodam-me muito, o bulício, as pessoas não se conhecerem, não se cumprimentarem com à vontade. De facto, quando eu estudei, tinha mesmo de frequentar essas instituições de ensino, para poder fazer o percurso académico que escolhi, mas só sossegava quando chegava a Trás-os-Montes.
ST: Parte da sua obra são lendas transmontanas é de alguma forma um tributo à região?AP: De certa forma é, no entanto, esta vontade que eu tenho de trabalhar com as lendas e de tudo o que tem a ver com o património imaterial tem muito a ver com a devoção que eu desde muito novo fui sentindo em relação à região. Eu, de facto, criei-me quase que diria num conto de fadas, porque fui deixado pelos meus pais entregue aos meus avós muito novo e, portanto, recebi as influências todas daquele nicho de cultura popular, de vivência tradicional, rural e isso marcou-me muito. Senti-me quase impelido naturalmente a enveredar por este caminho, portanto, as lendas, no fundo, é um pouco do corolário de todo o percurso que eu fiz desde a minha infância.
ST: Tem memória da primeira lenda que lhe foi contada, a primeira história, tem alguma na memória, que lhe tenha ficado gravada?AP: Sim, tenho, de facto, embora nessa altura estava muito longe de imaginar que um dia as minhas inquietações académicas e profissionais iriam recair aí. Lembro-me, perfeitamente, de o meu avô, quando eu o acompanhava nas enxertias, numas vinhas que ele tinha nos subúrbios de Sabrosa, de ele não me deixar ir para junto de uma mina - claro que a preocupação dele era que eu me metesse para dentro da mina e ficasse nalgum açude por lá e ele depois não sabia onde é que eu estava - mas ele amedrontava-me a dizer que ali estavam os Mouros.
ST: Foi jornalista durante vários anos, também nesta profissão acha que deve haver algum bairrismo, já alguma vez o praticou?AP: Sim, julgo que sim, embora as pessoas não devam estar obce-cadas pelos sentimentos bairristas, porque um jornalista tem de se convencer que tem de ser isento, e se ele é excessivamente bairrista, não é isento. Mas enquanto jornalista eu procurei sempre não me desvincular da realidade em que estava emergido e eu trabalhei essencialmente em Trás-os-Montes e procurava não me deixar dominar pelas preocupações e inquietações do meio, mas tenho que reconhecer que em muitas circunstancias o sentimento bairrista estava presente.
ST: Acha que os transmontanos ainda são olhados com algum desdém?AP: Presumo que actualmente está-se a esvair muito esse estigma que recaía sobre os transmontanos, hoje, um transmontano é muito reconhecido, vejo que o presidente do PSD é vila-realense, conheci-o na infância dele, convivi, inclusivamente, com ele, vi-o nascer, vi-o crescer. Hoje é normal um transmontano ser professor catedrático, ser actor, ser músico. Antigamente, isso era mais difícil, não havia acessibilidade a determinados cargos, a determinados estatutos e, quando se olhava para um transmontano, estava-se sempre à espera de ver alguém diferente, com uma grande samarra, ou com um aspecto mais campestre, serrano, hoje em dia penso que não, eu pessoalmente não tenho razão de queixa e presumo que a circunstância de ser transmontano para mim é uma mais valia.
ST: Agora passando para outra área, para o prato, come pratos transmontanos?AP: Também aí não sou muito bairrista. Os pratos transmontanos são pratos muito fortes, muito pesados e eu não gosto de refeições pesadas, mas provo sempre. Em Sabrosa, por exemplo, fazem-se enchidos espectaculares, e eu gosto de comer, mas como sempre pouco, o mínimo possível, porque a gente sabe que se come muito, depois, a saúde também acusa....
ST: Transmontano, mas pouco, no prato....AP: Sim, no prato, sou o essencial e também na pinga, também gosto de beber vinho, sobretudo da minha região, do Douro. Bebo, naturalmente, com moderação.
ST: Já foi jornalista, já foi professor e porque é que decidiu ser escritor? AP: Foi acontecendo aos bocadinhos, desde muito novo tive sempre o gosto pela escrita, já no ensino primário eu gostava muito de escrever, de fazer quadras, fazer rimas, portanto, brincar com as palavras e procurar tirar efeitos estéticos do uso das palavras já me vem desde a origem. A minha avó cantava muito, cantava lengalengas e eu fixava-as, tentava reproduzi-las, às vezes, procurava reproduzi-las, acrescentando sempre alguma coisa, portanto, eu era menino para aí com 8, 9 anos e, no fundo, já estava a fazer poesia. Depois, quando fiz o curso de professor de 1º ciclo de ensino básico, lidava muito com as crianças. No mês de estágio, lembro-me que eu escrevia contos infantis para as crianças, abdicava muitas vezes dos textos dos manuais e levava-lhes sempre, às segundas feiras, as minhas histórias e eles gostavam e fui percebendo que era capaz de ter jeito para escrever literatura infantil. Mais tarde, quando senti um vazio muito grande por não desempenhar a profissão de professor primário, que foi a profissão que os meus pais me deram, senti necessidade de comunicar com as crianças através dos livros, através da literatura infantil e foi aí que eu fui descobrindo que tinha uma linguagem acessível às crianças e que conseguia deslumbrar as crianças.
ST: Acha que é reconhecido por cá? Por Trás-os-Montes?AP: Minimamente, também não sou muito exigente. Eu sei perfeitamente que no nosso meio, os nossos companheiros normalmente não são os nossos fãs, eu não cultivo muito popularidade, deixo correr, através do que vou escrevendo e vou vendo, mas tenho de reconhecer que é fora de portas que os meus livros mais são reconhecidos, repare, eu sou transmontano e a maior parte dos meus livros faz parte do Plano Nacional de Leitura, eu nem conheço as pessoas que escolheram os meus livros, que os seleccionaram, são pessoas de Lisboa, nunca os vi, nem sei quem são e não sei se aconteceria o mesmo se as pes-soas que escolhessem os livros fossem por exemplo do meu meio.
ST: Acha que a Literatura infantil ainda é considerada um género menor ou não?AP: Actualmente não, noutros tempos era, era porque quando se escrevia para crianças - também se escrevia pouco para crianças - mas, quando se escrevia, não se pensava muito nas crianças tal qual elas são, não se pensava muito em deslumbrar as crianças. Muitas vezes, as pessoas escreviam para se libertarem a elas próprias, para reelaborarem as suas raízes, a sua infância e faziam-no de uma forma fácil e pensavam que, fazendo de uma forma fácil, servia para as crianças. Mas hoje não, hoje tem-se a noção que escrever para as crianças não é fácil, é subir para um patamar que não está ao alcance de todos, porque comunicar com a criança é fácil, mas deslumbrar a criança não é tão fácil assim. Se o autor não a deslumbrar, ela deixa-o pelo caminho, a criança não lê livros para fazer favores a ninguém, enquanto que um adulto lê um livro porque está na moda esse autor, porque a televisão fala muito nesse autor, a criança não vai por aí, uma criança lê se o texto a deslumbra e isso não está ao alcance de qualquer autor.
ST: Para rematar gostaríamos de ouvir da sua boca uma definição de transmontanos de gema.AP: Um transmontano de gema, presumo que seja alguém que se sente deslumbrado com as suas raízes e que procura que as suas raízes sejam a catapulta para o seu crescimento, para a sua vida social e para ajudar também os seus parceiros, os seus conterrâneos a sentirem-se felizes. Um transmontano tem que se deslumbrar com as suas raízes, mas tem também que contagiar os outros transmontanos nesse deslumbramento.
Margarida Luzio, Semanário Transmontano, 2010-05-07
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