edição n.º 8 vai para o index das edições de 1999
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editorial
rui ângelo araújo


capa desta edição
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Há em Portugal uma estranha e colectiva aversão ao conhecimento. Cá, o termo intelectual é insulto. Os que o são costumam melindrar-se. Por isso se vê Pacheco Pereira, lançado nas europeias como o último dos intelectuais, feirar votos juntamente com o ridículo Valentim Loureiro. A bela e o monstro. Pacheco gostou e Valentim pontificou.

De Saramago, o brando e boçal povo lusitano gosta sobretudo de lembrar a inexistência de diplomas universitários. Como se o homem não tivesse lido mais nada desde o manual da primeira classe. A exemplo do bom povo.

Nas universidades, para obstar a que estas sejam uma espécie de antecâmara das torturas que aguardam os intelectuais, evita-se a todo o custo formá-los. As TV’s, cumprindo um desígnio nacional, esforçam-se o mais que podem para entorpecer os espíritos e impedir veleidades para lá do primarismo sensorial.

Os intelectuais da comarca transmontana, tão amigos que são do povo e das suas tradições, dedicam-se com tal ênfase ao estudo etnográfico e antropológico das raízes, que ignoram a demissão deste povo de tudo o que não seja isso mesmo: tradição cultural. Se a identidade de um povo é necessária como garante da diversidade impulsionadora do progresso da humanidade, também é verdade que nenhuma cultura vive só de identidade. Ou de tradição.

À força de tanto jornal desportivo e de tanto big show (as únicas alternativas culturais à tradição), a opinião pública é apenas uma manifestação instintiva. O espírito crítico das populações não é um exercício mental, é uma reacção conservadora. Mesmo quando julgam defender o progresso.

Não admira que os eventos culturais tenham, aqui, um carácter quase exclusivamente pedagógico. A música e o teatro surgem-nos sempre com o embrulho da pedagogia, do incentivo, da formação. Raramente com a intenção de desfrute intelectual (salvo raras excepções, como os "Encontros de Música da Casa de Mateus"). De tanto quererem educar o povo, as instituições vão esquecendo a minoria apta a dispensar o tom didáctico e a admirar as tentativas de originalidade, de inovação, de qualidade.

Aos intelectuais pede-se-lhes que, ao invés de se remeterem para o limbo de tédio onde regra geral se refugiam da barbárie popular, saiam à luz do dia com manifestos, reivindicações, exigências. Do debate deles esperar-se-iam as pistas para a evolução da sociedade.

Mais deprimente do que assistir à caça às bruxas intelectuais é vê-las renegarem as suas convicções diabólicas diante do primeiro fósforo aceso. E as bruxas, como de resto todas as peças de caça, rareiam a uma velocidade inversamente proporcional à velocidade do pensamento. Mas a caça, obsessiva, não pára. O homem sempre teve dificuldade de se libertar do seu lado bestial (não é elogio).

Afinal, quem pretende insultar alguém com o epíteto intelectual só constata a sua inépcia. Ainda que, claro, não o saiba.

 


ruiaaraujo@periferica.org

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

transmontano sem preconceitos

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