edição n.º 6 vai para o index das edições de 1999
um jornal? uma revista?
editorial
rui ângelo araújo


capa desta edição
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Cumpre-se neste mês de Fevereiro um ano de publicação do Eito Fora. Não fossem as tradições o que são e este facto nada teria de extraordinário. Acontece que, o jornal que tem nas mãos, durante um ano de vida fez tudo o que pôde para tornar a sua publicação insustentável. Não acredita? Siga-nos numa breve viagem ao reino do masoquismo.

Portugal tem níveis de iliteracia que nos envergonhariam se não ignorássemos militantemente o que isso significa. A militância é óbvia e alarvemente promovida pelos principais media. Referimo-nos à televisão, mas também a alguns jornais histriónicos e a toda a panóplia de publicações-lixo, facilmente identificáveis pelas novelas que mostram. As da TV, as do Jet7 e as do, aparentemente menos aristocrata, admirável mundo pimba. Os máximos indicadores de leitura por aqui têm nomes tragicómicos como "A Bola", "Record" e "O Jogo". Consoante a preferência clubística.

O ano de 1998 foi profícuo em novas publicações periódicas transmontanas. Para lá do menor ou maior colorido, pontificou uma "evolução na continuidade". Nenhuma revolução, portanto. Em Vila Real, cidade maior, com uma universidade dita pioneira, impera, anacrónica, "A Voz de Trás-os-Montes", amorosamente beliscada pelo seu sucedâneo "Notícias de Vila Real". Diz-se à boca pequena que este está para aquela como Marcelo Caetano esteve para Salazar. Noutros locais, outros novos títulos, talvez distraídos, optaram pelo vulgar. Atitude que seria autofágica num país atento e exigente.

Com este cenário prometedor, o Eito Fora resolveu insultar a lógica e, com insuficiente humildade, trilhou a rota dos marginais. Fracasso garantido, se as regras não tivessem excepções.

Manda a lógica de mercado que, à falta de uma máquina de promoção, o produto a comercializar vá de encontro às aspirações dos compradores. Como não gostamos do insulto que seria comparar este jornal a um produto de mercado, e só por isso, por birra, fizemos as sete edições procurando ignorar a definição que nos davam do leitor regional. Foi assim que tentámos evitar encher as páginas com aquilo que é apanágio do provincianismo: irrelevâncias, bairrismos ridículos, crispações insensatas, sentimentalismos avulsos, pungências várias, saudosismos bacocos, historietas de adro de igreja ou balcão de taberna, clichés e neo-modernismos parolos. E dizemos tentámos.

Não, o Eito não é um jornal de notícias. Se calhar nem é um jornal. Mas é o "Jornal de Vilarelho". Vindo da Serra da Padrela, ao lado da vida dita urbana. Daí que nas páginas do Eito Fora, bimestralmente sem pressas, tenha havido a preocupação pelo que fica paralelo ao suceder dos dias, para lá da rotina, para lá do momento e do flash noticioso. Interessa-nos o intemporal. Não negamos a ambição.

Alguém dizia que um jornal é um povo a falar consigo próprio; nós, modestamente, ficámo-nos pela tentativa de despertar o espirito crítico, a vontade de questionar, a capacidade de fazer humor com os dogmas — na maior parte das vezes hipócritas —, a vontade de construir sem medo de obstáculos ou incapacidades auto-impostas. Nem sempre conseguimos.

Para felicidade dos nossos patrocinadores, o Eito Fora desde cedo encontrou simpatizantes que, não obedecendo às nossas indicações de segredo, insistiam em comprar o jornal com o ruído que acompanha as grandes efemérides. Poucos serão os cidadãos interessados que possam neste momento negar em consciência o pequeno pecado que é o vicio da leitura do Eito Fora. O Padre Sebastião o diria, não fosse o sigilo a que está obrigado pelas leis divinas do confessionário.

(...)

Em nome daquilo que desde o início definimos como eticamente correcto, nunca publicámos qualquer carta elogiosa do jornal. Preferimos desde sempre contar com a sensibilidade dos leitores e que o juízo que cada um haveria de fazer fosse verdadeiramente isento e pessoal.

Não ignorámos as manifestações públicas de desagrado pelo que foi dito no Eito: fizemos questão de as incluir com destaque nas páginas do jornal. E sempre disponibilizámos espaço para esse fim. Pena é que não o tenham querido usar com a assiduidade que nós desejaríamos e que ao debate traria consistência.

Mas houve quem não tivesse qualquer relutância em utilizar este jornal para publicar ideias e opiniões. E foram muitos. Pluralista por princípio, aqui participaram pessoas de várias idades, sexos e afinidades. Sem limitações geográficas. Nem outras. Procurámos desde o início as mais diversas colaborações, nas mais diversas áreas. (...)

Um jornal irreverente, inquietante, blasfemo, mal-criado, inovador, jovem, bota-abaixo, difícil, intelectual, conspirador, engraçado, importante, necessário, pretensioso, ousado, incompreensível, intragável, ridículo, infantil... Assim foi definido o Eito Fora pelas mais diversas pessoas, com intenções mais ou menos simpáticas, mais ou menos sinceras, mais ou menos críticas, mais ou menos redutoras...

Na verdade, Eito Fora, para além da cantiga de Né Ladeiras na Brigada Vítor Jara, significa apenas andar em frente sem contornar nem inventar obstáculos. Uma obsessão de Andarilho. Ou um Andarilho com obsessão...

"E em lá chegando ao cabo descansai..."

 


ruiaaraujo@periferica.org

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

transmontano sem preconceitos

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