Porquê manifestos?
É dos livros e da história que toda a evolução é marcada por grandes convulsões e correspondente alarido. As tertúlias de onde saíam as ideias e se destacavam os homens não eram propriamente comparáveis ao chá das tias. Discutia-se acerrimamente e o confronto de argumentações era inevitável. Avançava-se. Com o "Manifesto Anti-Dantas" Almada Negreiros não tecia, de modo algum, loas à atitude que Dantas personificava. Enquanto demolia o homem, anunciava o modernismo. Não ousamos tanto.
A insanidade que preside à existência do Eito Fora, incurável, tem por vezes consequências não muito estimáveis. Ingenuamente, acreditamos no debate como propulsor das mudanças. Procuramos que o Eito Fora seja o isco onde todos podem morder o alvo a abater com grande ruído. Não queremos ter razão. Não temos razão.
E quem a tem? Os carismáticos lideres políticos que se esgotam nos cafés? Os histéricos opositores profissionais que se opõem a tudo excepto ao que importa? Os críticos do clientelismo que só o são enquanto não chegam à panela? Os defensores dos bons costumes que não percebem que não há costumes bons? Os iluminados que chamam progresso às ideias estafadas e asneiras comprovadas que outros gostariam de ter evitado? A "maioria esmagadora" que instituiu em todos os aspectos da vivência social uma inacreditável sublimação do Pimba, deus omnipresente venerado pelas massas indistintas continuamente alargadas a todo o espectro social (intelectuais de barba e bigode incluídos). Tudo isto com o beneplácito cómodo dos dois ou três ex-revolucionários que sobrevivem no zapping dos canais eróticos, da meia dúzia de pensadores que se estafam no rescaldo dos "donos da bola" (com as suas variantes locais) e do número considerável dos intelectuais de pantufa que temem o dia em que sejam chamados a levar a opinião além da sala de estar.
Alguém disse que era chegado o fim das ideologias. Alguém que passou (com distinção) na mesma escola de Ediberto Lima, rei incontestado da SIC e arredores, que é como quem diz Portugal. Provavelmente o Apocalipse é mais vasto. Para além das ideologias também as ideias não parecem proliferar. Tudo está como dantes no Reino da Alegre Utopia.
Entretanto, no Eito Fora o Verão deixa as suas marcas. A vaga de calor excitou os corpos e os sentidos, mas também os discursos. Felizmente há sempre alguém disposto a manifestar-se. E Trás-os-Montes é mesmo um reino maravilhoso!