Um dos quelhos a percorrer no assumir de uma personalidade é o da ousadia. Esta característica, diga-se com toda a frontalidade, anda há muito arredada da nossa vivência transmontana.
Habituados à lamentação e à costumeira pedinchice saloia, esquecemo-nos por sistema que fomos criados à imagem e semelhança, senão de um qualquer deus, pelo menos dos restantes cidadãos do mundo e seus subúrbios.
Contrariamente ao bairrismo ridículo e dépassé que ostentamos quais paus-de-bandeira, devia interessar-nos a iniciativa e a originalidade dignificantes da nossa amada (porque não?) interioridade. Se faltassem palavras para definir o seguidismo imbecil em que embarcamos, a "abstenção" constaria de certeza no dicionário de sinónimos a consultar. Abstenção de fazer, de participar, de questionar. Abstenção de ousar. Olhamos com boçalidade o mundo afastar-se de nós e achamos sempre que a culpa é dos outros, que não nos deram boleia na caravana da história. E nem ladramos, como impõe a metáfora. Ganimos.
Nos livros dos escritores conterrâneos e contemporâneos que não lemos repetem-se histórias camilianas; na imprensa regional, aqui e ali assombrada por espíritos que não denotaram a própria morte, vemos sem espanto espelhar-se o nosso provincianismo, quando não um cultivado analfabetismo; aos acontecimentos "culturais" só vamos quando é o nosso partido político a promovê-los (o que leva a que além de alternância política exista também um público que "alterna"). Quando por breves momentos despertamos do letargo, é apenas para dar expressão regional ao nacional "apimbalhamento". Mas, por vezes vamos ao teatro, confirmar a farsa. Não a habitual de Inês Pereira. A nossa, de cidadãos interessados.
Na análise crítica dos factos, em que nos empenhamos, fica-nos central o Café onde a nossa verborreia ganha forma para a perder logo que a hora seja de novela. Somos afoitos na critica mordaz, mas achamos sempre que a construção é com os outros. Eles é que têm o dever de fazer as coisas. Por compreensível lapso, esquecemo-nos de definir quem são "eles".
Defendemos acerrimamente a tradição — sobretudo quando esta é de passividade — e é-nos tradicional a falta de meios quando a sua defesa exige dinamismo. Mesmo quando os "meios" somos nós. A perplexidade própria dos provincianos que orgulhosamente somos leva a que nos empenhemos laconicamente na obtenção de "infra-estruturas essenciais para o progresso da nossa região". Por hábitos ancestrais de grande parcimónia de reflexão, ficamos alheios a etimologia e acreditamos piamente que a palavra só tem sentido positivo.
Por múltiplas e sustentadas razões, somos provincianos, sim senhor.