A escolha — originalíssima — do número zero para iniciar a publicação de "Eito Fora" tem (inconscientemente?) um substrato de verdade que define da melhor maneira este prelúdio de alguma coisa ou continuação do vácuo. Zero como início de contagem ou como tradução numérica do valor de um trabalho? É esta interrogação que marcará o princípio dos tempos e para a qual a resposta surgirá inevitavelmente demasiado tarde. Não sendo outra coisa, há-de ser a atracção do abismo que nos norteará nestes caminhos de incerteza e que nos concederá a loucura suficiente para ludibriar a evidência, seja ela qual for.
Eito Fora: percurso linear. A eito e esperneando, será a maneira atabalhoada que encontraremos para dar forma a uma publicação cuja razão de existir ainda não descortinamos completamente mas cuja ausência nos atazanava mais do que o tédio dos dias.
"Eito Fora" publica-se em Vilarelho pela necessária frescura, só aqui alcançável, pelo carácter asceta da paisagem, propício a um labor árduo, e pela sensação universalista indutora de uma fluência discursiva que se quer cosmopolita ainda que marcadamente enraizada no húmus da nossa existência.
Espectadores do mundo, com todos os hábitos de passividade que acompanham essa postura, fazemos agora este jornal para que a comodidade não mais seja a mesma. A nossa, está bem de ver. Impele-nos a alternativa ao modus faciendi sensaborão que espalha posturas politicamente correctas, cujos trejeitos mais arrebatadores têm o seu "pico" na politiquice maneirista, macaqueada de horizontes pouco vastos.
Não seremos independentes porque há vícios dos quais fazemos questão de depender. (Pausa para um gole.)
A "grande angular" que pretendemos seja a visão a imprimir nas páginas de "Eito Fora" será o outro lado do panorama editorial do burgo (eufemismo para definir terrenos pouco movediços e acções que vagueiam levemente entre a propaganda do statu quo, a crítica mesquinha e inconsequente e a lisonja de sabor revivalista).
No intenso fluxo intercomunicacional que define este fim de século, "Eito Fora" percorre os quelhos menos recomendáveis na demanda de um "graal" que ainda está por definir. Acompanha-nos a (in)certeza de que haverá, por detrás dos rostos que se deformam na mesma carranca pretensamente iluminada ainda que viciadamente provinciana, uma apetência para danças de roda na eira do nosso contentamento.
"Eito Fora" está aqui. Deitem-no abaixo. Já!