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apartado 51

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Colaboradores neste número: Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, Carla Santos, Dina Cruz, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Gil Silva, Luísa Costa, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves, Manuel Guimarães, O. Moscardov, Paula Pestana, Paulo de Carvalho, Paulo Mourão, Pedro Martins Colaço, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós

ilustração de Anabela Ribeiro
ilustração de Anabela Ribeiro

NÃO

Hoje disseste-me que não
e nunca saberás os rios
de orquídeas que perdeste.

Mas a verdade é só uma,
jamais saberei
se gostavas de orquídeas.

O. Moscardov

ENTRE O PÓ E A PALAVRA
– ensaio de afastamento


I

Um emaranhado de fios de névoa aprisiona a luz do fogo longínquo, repete no ar o lento e múrmuro silêncio da água sussurrante, infiltra-se através da superfície rugosa dos penhascos e da terra. Dormi tranquilos, gnomos, ondinas, silfos, salamandras, dormi o sono hiemal da abdicação cósmica! Sede plagiários da matéria do mesmo sonho, da forma inédita da mesma letargia. E que do leito genesíaco e auroral vos acorde o nume que convosco se levante, tolhido pelo pasmo instintivo de quem criasse e não soubesse, ou pela exacta surpresa de quem existisse e não desesperasse.

II

A Lua prolonga o Sol, e o corpo é sombra. O sangue percorre as encruzilhadas do vento, e o espelho em que o universo se revê é o sorriso crispado dos deuses vivos e mortos. O coração irradia em sete níveis que o degeneram, flutua em ondas invertidas, numa jangada que sangra. Por que razão começa a plenitude nos afluentes do nada? Porque se demora a neblina entre copas de árvores, e nenhuma semente é promessa de redenção no húmus da morte e da ignorância? Com que moeda astral se compra a imortalidade e a visão clara?

III

A emoção primitiva é um término ilusório. O lugar do errado pleroma transforma-se no instante sem duração, e no ouro incendiado não há mais que a memória essencial da treva inesperada. Falsa é a gratidão que ao sal quer devolver o que é do sal, e anseia impunemente colher as primícias dos vergéis imaginados. Se desterramos as flores, a aridez da ideia separa a haste da raiz, e aponta uma náusea ancestral, até à exaustão do paradoxo. Fragmentou-se a ética dos muros; mas a alegria da terra detém-se nos umbrais da aniquilação.

IV

Eu canto o círculo quadrado do injustificável existir. Canto a perfeição desmentida, a hesitação de ser outra figura, a totalidade inerte, a monotonia reencontrada. Não são as almas veículos do divino sortilégio, e a poesia falha no momento em que pretende elevá-las. Porque o fora é o dentro em sucessivos rostos, ninguém vê sem primeiro se ver vendo, tempo sem história, unidade sem espessura. O círculo tergiversa, por saber-se a suprema impossibilidade. Absurdas são as vias em que as palavras negrejam. Sonoras.

V

Mergulharam-te na noite dos símbolos, mendicante espírito; deram-te a sugestão fiel de outro real, mas ocultaram-te o modo de o achares em inteireza. Só o mistério unifica, alvo preferido de todas as setas, foco para onde convergem os raios, depois de terem passeado um espaço de secura. E trasborda de tudo, como um grande baú, uma bocarra imensa, vórtice devorador de mundos e não-mundos. O símbolo não tem a consistência do átomo, a opacidade que até o vácuo inclui. Permanece aí, desiste de arquitectar penedos.

VI

Juntas o eterno ao infinito, e queres que a levedura dessa massa te redima. Na junção, todavia, operas o milagre inconveniente de converteres em pedra o pão que ainda é teu, para ingerires por pão a pedra enganadora. Foge das rochas contra as quais intentam arremessar-te, e conquista a simpatia dos opostos engendrados mutuamente. Na vigília incessante, nada te coagula o ímpeto do nascimento nem sustém a paixão do abismo. Da noite dos símbolos acordas para os cenários vagos da manhã, o paradoxo faz parte de ti — és tu. Se o afirmas, ele foge, fumo inapreensível, substância a esboroar-se em mãos de mago. Se o negas, vês de repente o infinito implausível à tua volta e regressas à contingência que dissuade o teu desejo de absoluto.

VII

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Troglodýtes Trogloditikós

 
       
  Nos bares de silêncio atascados
Auscultam-se aplausos de fantasmas assistindo
Ao chorrilho do artista que tossindo
Escarra larvas sobre as cordas de poeirenta guitarra

Entra-se nos meandros do espectáculo mais sombrio
Ocupa-se lugar entre os que já lá não estão
Reserva-se espaço para os que nunca aqui virão
Absorve-se o calor de um espectáculo que nos mata ao frio

Escuta-se um clamor que não é de vozes nem de nada
Para receber em apoteose bailarinas esfarrapadas
Que transportam em bandejas sobre as falanges descarnadas
Cocktails de azar que se bebem de uma assentada

Manuel Chaves

CRISTALIZAÇÃO VERDE

Hoje, sentado numa mesa
ligeiramente tresmalhada,
mando vir uma dose
de um verde-água.
No chão, existem sorrisos
dispersos pelo verdum da sala
e as cadeiras rodopiam
numa alienação compacta.
O relógio martela — tácteis
as três horas animalescas
e os passos da empregada
alongam-se ritmicamente — num eco carnal
até não se suportar
a sua ausência...

Os sorrisos brincam
de uma forma pueril
caçando grilos verdentos
que se espraiam
pelas folhas de alface — que eu não quis

O verde, hoje, sabe-me
a um magma distante
e a Van-girassóis
plantados no arco-iris.

Agora, que acabei de jantar,
os sorrisos desapareceram.
Julgo que cansados
deste verdor minimal
que se projecta incrivelmente
no infinito marmóreo da sala
em vergônteas ligeiramente fracturadas
por hiatos mansos.

Translucidamente penso.
Como são insuportáveis
os hiatos verdes...
ffffffffffffffffff............

Ke-Kê-Kê... Kê...
Cristalizo-me no contínuo
de um hiato qualquer
e fecho o meu restaurante
que nunca teve ninguém.

Lá fora, a noite é tanta
que julgo falar da ausência...
..............................................
— mas não tenho bem a certeza —

O. Moscardov
(moscardov@portugalmail.pt)

 
 


 

transmontano sem preconceitos