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| um jornal? uma revista? | |||
| edição n.º 9 | poesia | vários | |
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editorial poesia
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ilustração de Anabela Ribeiro
NÃO
Hoje disseste-me que não
Mas a verdade é só uma,
O. Moscardov |
ENTRE O PÓ E A PALAVRA – ensaio de afastamento I Um emaranhado de fios de névoa aprisiona a luz do fogo longínquo, repete no ar o lento e múrmuro silêncio da água sussurrante, infiltra-se através da superfície rugosa dos penhascos e da terra. Dormi tranquilos, gnomos, ondinas, silfos, salamandras, dormi o sono hiemal da abdicação cósmica! Sede plagiários da matéria do mesmo sonho, da forma inédita da mesma letargia. E que do leito genesíaco e auroral vos acorde o nume que convosco se levante, tolhido pelo pasmo instintivo de quem criasse e não soubesse, ou pela exacta surpresa de quem existisse e não desesperasse. II A Lua prolonga o Sol, e o corpo é sombra. O sangue percorre as encruzilhadas do vento, e o espelho em que o universo se revê é o sorriso crispado dos deuses vivos e mortos. O coração irradia em sete níveis que o degeneram, flutua em ondas invertidas, numa jangada que sangra. Por que razão começa a plenitude nos afluentes do nada? Porque se demora a neblina entre copas de árvores, e nenhuma semente é promessa de redenção no húmus da morte e da ignorância? Com que moeda astral se compra a imortalidade e a visão clara? III A emoção primitiva é um término ilusório. O lugar do errado pleroma transforma-se no instante sem duração, e no ouro incendiado não há mais que a memória essencial da treva inesperada. Falsa é a gratidão que ao sal quer devolver o que é do sal, e anseia impunemente colher as primícias dos vergéis imaginados. Se desterramos as flores, a aridez da ideia separa a haste da raiz, e aponta uma náusea ancestral, até à exaustão do paradoxo. Fragmentou-se a ética dos muros; mas a alegria da terra detém-se nos umbrais da aniquilação. IV Eu canto o círculo quadrado do injustificável existir. Canto a perfeição desmentida, a hesitação de ser outra figura, a totalidade inerte, a monotonia reencontrada. Não são as almas veículos do divino sortilégio, e a poesia falha no momento em que pretende elevá-las. Porque o fora é o dentro em sucessivos rostos, ninguém vê sem primeiro se ver vendo, tempo sem história, unidade sem espessura. O círculo tergiversa, por saber-se a suprema impossibilidade. Absurdas são as vias em que as palavras negrejam. Sonoras. V Mergulharam-te na noite dos símbolos, mendicante espírito; deram-te a sugestão fiel de outro real, mas ocultaram-te o modo de o achares em inteireza. Só o mistério unifica, alvo preferido de todas as setas, foco para onde convergem os raios, depois de terem passeado um espaço de secura. E trasborda de tudo, como um grande baú, uma bocarra imensa, vórtice devorador de mundos e não-mundos. O símbolo não tem a consistência do átomo, a opacidade que até o vácuo inclui. Permanece aí, desiste de arquitectar penedos. VI Juntas o eterno ao infinito, e queres que a levedura dessa massa te redima. Na junção, todavia, operas o milagre inconveniente de converteres em pedra o pão que ainda é teu, para ingerires por pão a pedra enganadora. Foge das rochas contra as quais intentam arremessar-te, e conquista a simpatia dos opostos engendrados mutuamente. Na vigília incessante, nada te coagula o ímpeto do nascimento nem sustém a paixão do abismo. Da noite dos símbolos acordas para os cenários vagos da manhã, o paradoxo faz parte de ti — és tu. Se o afirmas, ele foge, fumo inapreensível, substância a esboroar-se em mãos de mago. Se o negas, vês de repente o infinito implausível à tua volta e regressas à contingência que dissuade o teu desejo de absoluto. VII ............................................................................................... Troglodýtes Trogloditikós |
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Nos bares de silêncio atascados
Auscultam-se aplausos de fantasmas assistindo Ao chorrilho do artista que tossindo Escarra larvas sobre as cordas de poeirenta guitarra Entra-se nos meandros do espectáculo mais sombrio
Escuta-se um clamor que não é de vozes nem de nada
Manuel Chaves |
CRISTALIZAÇÃO VERDE
Hoje, sentado numa mesa
Os sorrisos brincam
O verde, hoje, sabe-me
Agora, que acabei de jantar,
Translucidamente penso.
Ke-Kê-Kê... Kê...
Lá fora, a noite é tanta
O. Moscardov |
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transmontano sem preconceitos |
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