Começaríamos por lhe perguntar onde adquiriu
a sua formação, quer a nível filológico, quer a nível
musical?
A minha formação, a nível filológico,
começou no Seminário, com um tio meu, que por acaso tinha o meu nome, Mons.
Ângelo Minhava. Foi com ele que dei os primeiros passos no latim. Sempre tive muita
curiosidade em saber a origem das palavras. O meu pai tinha um dicionário de Adolfo
Coelho que me despertou desde cedo a curiosidade. Muito do que aprendi, foi igualmente por
minha iniciativa e curiosidade.
A nível musical posso dizer que fui um autodidacta. Tive um professor
no Seminário, só que no 2º ano já sabia mais do que ele. Metia-me uma
certa confusão como se podia escrever sons, e sempre me cativaram as coisas
difíceis. Empenhei-me a aprender a ler e escrever música. Confesso que fui um
pouco reprimido no Seminário pois na altura era difícil consentirem a
música. Ainda guardo alguns cadernos de músicas que escrevi as escondidas.
Houve pessoas, factos, que lhe despertaram o amor pelas artes, ou
será esse amor inato?
Para as letras, houve o meu pai e meus irmãos. Meu pai, pois sempre
se interessou pela origem das palavras e provavelmente incutiu-me o mesmo espirito. Os meus
irmãos, porque sendo mais velhos, e andando a estudar, era frequente, em casa, haver
confronto de ideias e de opiniões sobre a origem das palavras.
A nível musical, julgo ser inato. Já desde tenra idade,
aquando da festa da minha aldeia, eu acompanhava os músicos, batendo num tambor, e
pelos vistos não desafinava. O ritmo nasce connosco, é preciso é
explorá-lo.
Como se define, como homem, escritor, músico?
Não me considero nem escritor, nem músico, simplesmente me
interesso por estas coisas. Não me considero escritor porque não chego aos
calcanhares dos grandes vultos nacionais, posso afirmar que escrevo português, ao
contrário de muitos.
Como músico, sou mais um etnógrafo, escrevi vários
cancioneiros como sejam o de Mondim, Montalegre e de outras terras transmontanas. Tento dar
o meu singelo contributo para o enriquecimento da nossa cultura.
Da sua vasta obra qual a que mais o fascina? E porquê?
A obra que mais me fascina é a "Cabrilíada", obra escrita em
1947, que mereceu os mais rasgados elogios do poeta Teixeira de Pascoais. É um poema
heroi-cómico-lírico, que me deu muito prazer escrever, e no qual falo das
bonitas Fisgas do Ermelo. É para mim a minha obra prima.
Posso igualmente afirmar que me encanta a marcha de Vila Real, não
só pela espontaneidade com que a fiz, mas também devido à sua simplicidade.
É no simples que está o belo.
Sente-se mais músico ou homem de letras?
Sinto-me mais músico. Considero que a música está em
tudo. O grande desafio que me coloco neste momento é verificar a musicalidade das
frases, dos poemas, das palavras.
Não se sente imortalizado pelas numerosas marchas e hinos
devotados a região e aos altares?
Ninguém é imortal neste vale de lágrimas. Sem
dúvida que a Marcha de Vila Real constitui um "ex-libris" da nossa cidade. Já
conta mais de meio século, e o povo ainda a canta com a mesma vibração
com que a recebeu. Até no Extremo Oriente é cantada e tocada. Há
porém quem julgue que o seu autor está rico. Puro engano. Ela foi feita a
pedido da Câmara Municipal de Vila Real, foi oficializada como hino de Vila Real no
tempo do professor Grilo, meu irmão, nunca recebi um tostão por isso. Tive
inclusive algumas despesas. Tem havido gravações piratas, nomeadamente no
Brasil, Canadá, EUA, etc., desta e doutras composições minhas.
A canção da bola, que editei e ofereci ao Sport Clube de Vila
Real, até mesmo essa canção hino, entre nós mal conhecida e pouco
agradecida, é cantada no Sudão com letra indígena, assim me disse um
missionário que hoje é Bispo.
Eu vivo para a música e não da música. Da maior parte
das pessoas que me encomendaram, desde o Algarve ao Minho, e até às Ilhas,
raramente recebi um simples postal de agradecimento.
A Academia Sueca redimiu-se em Saramago do esquecimento de grandes
embaixadores da língua portuguesa, nomeadamente Torga e Vergílio Ferreira?
Os grandes prémios, como o Nobel, são quase sempre
internacionais. Exigem apresentação e promoção, uma
máquina suprema que alçaprema os candidatos. Tudo isto de critérios
ideológicos, afinidades e diligências. Nem sempre os melhores são contemplados.
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / Todo o mundo é feito
de mudanças...". A mudança protagonizada por Saramago constitui uma mais
valia para a nossa língua?
Só li dois livros do autor em causa: "O Evangelho segundo..." e
"Memorial do Convento". São, no aspecto puramente linguístico, um desastre.
Se dúvidas houver pode desfaze-las com o estudo e leitura dos grandes e
indiscutíveis filólogos seguintes: Adolfo Coelho, Cândido de Figueiredo,
Vasco Botelho de Amaral, Xavier Fernandes, Raul Machado, Pedro Machado, Augusto Moreno, e
afinal todos os que saibam português.
Nas críticas esboçadas num semanário regional,
fala-nos regularmente de Camilo Castelo Branco. Permita-nos que lhe recordemos o facto de
Camilo ter sido um contestatário, um boémio mulherengo e de difícil
trato com o seu semelhante. Não existem dois pesos e duas medidas quando confronta
Camilo com Saramago?
Quando faço a análise critica de qualquer obra, não
me interessa a vida do autor. Houve escritores, como Byron, Safo, para só citar dois
estrangeiros, que não primaram pela pureza de costumes e no entanto foram notáveis
cultores das letras...
Camilo foi citado por mim, para provar o ridículo espectacular dos
"cujos" saramagueses . Não há linguista português, espanhol, francês,
alemão, etc., que possa traduzir para os seus idiomas esse e outros solecismos. Sei
até que aparecem em escritores de bom nível, mas não deixam de ser
erros, erros crassos. Não são progressos nem retrocessos da Língua,
são apenas ignorância.
Comparar o génio verbalista de Camilo com o citado "Nobel" é
como comparar a águia com a carriça... Repito isto no aspecto puramente
linguístico, pois, no aspecto ideológico, não conheço em toda a
história universal quem ousasse ser tão infame e sacrílego ao falar da
figura de Jesus Cristo.
Posso apresentar um testemunho insuspeito: um dia. o Padre Avelino foi
visitar Miguel Torga a Coimbra e perguntou-lhe o que achava da obra "O Evangelho Segundo...".
Torga tomou um ar solene e disse: "Quanto a ideias é uma afronta à fé
de noventa e tal por cento dos portugueses. Quanto a gramática leia o que o Padre
Minhava escreveu na crítica que lhe fez...".
A língua portuguesa tem futuro? A ideia de Pessoa de a Pátria
se confinar com a língua é um mito, uma figura de retórica ou algo mais
transcendente?
O futuro ninguém o adivinha; muito menos eu. Uma coisa é
certa: a vivência do idioma pátrio condiciona a sobrevivência nacional.
Já na antiguidade, com o esplendor da língua latina, muitos idiomas como o
Etrusco, o Sabélio, o Osco, etc., se eclipsaram e os respectivos povos desapareceram.
Também pode acontecer o contrário, sobrarem os povos e desaparecerem os seus
falares!
Fala-se melhor ou pior português de há 25 anos para
cá?
Cada vez se esfarrapa mais o nosso idioma, sobretudo desde que foi banido
o latim, que se pode considerar a matemática das letras. Isto já vem do tempo
do Estado Novo... Mas ultimamente multiplicou-se em progressão geométrica.
Nem os universitários, (muitos, a maior parte), nem esses sabem português. Se
os próprios escritores o ignoram!... E até o respectivo Ministério da
Educação!...
O que tem a dizer sobre Pires Cabral, A. Cabral, Modesto Navarro e
Barroso da Fonte?
Embora discorde, por vezes, de certas efabulações do escritor
Pires Cabral, reconheço nele um escritor de muito mérito, fluente, sóbrio,
conhecedor da língua em que se exprime. O dr. António Cabral é
desde jovem vocacionado para as letras. Barroso da Fonte, idem, por vezes bastante conflituoso,
mas frontal e grande patriota. De Modesto Navarro, nada posso afirmar, pois nunca li nada,
ainda não tive ocasião. Mas muitos outros transmontanos há dignos de
atenção. Não cito ninguém pois seria deselegante para com os
omissos.
Gostaria realmente de receber o Prémio Nobel?
É jocosa a pergunta, mas vou responder-lhe. Felizmente nunca tive
ambições de espécie alguma. Julgo-me até um troglodita, um
homem das cavernas. Já tive prémios de âmbito regional e até
nacional, os quais recusei receber pessoalmente. Isto de concursos e prémios é
muito aleatório. Femando Pessoa foi preterido num concurso nacional de poesia. O autor
da "Mensagem" foi vencido pelo autor do poema "A Romaria"!?...
Ainda que me dessem o brevet de aviador ou o bastão de
marechal, garanto-lhe que não aceitava. Sempre gostei mais do meu pequenino ser do
que o muito parecer.
O que se lhe oferece dizer sobre o celibato dos sacerdotes católicos?
O celibato, meu caro amigo, é tradicional na Igreja Católica
Romana... Mas até os povos pagãos o apreciavam. É ler a história
das vestais que alimentavam o fogo sagrado, e se quiser, veja o apreço que os budistas
lhe dão assim como outros credos religiosos, inclusive nos sacrifícios humanos,
onde os imolados eram regra geral as virgens.
Quando se abraça o sacerdócio, nunca antes de atingir os
vinte e tal anos, já se sabe as condições exigidas, aceitam-se ou
não. O casamento prende mais, restringe mais, particulariza e individualiza mais a
actividade do "pregador do Evangelho". Quem cuida bem da sua casa e da sua prole pouco
tempo lhe sobra para se dar aos outros. Mas Cristo não impôs o celibato,
louvou-o.
Qual o papel da mulher na igreja actual?
Todos podem e devem, homens, mulheres e crianças, viver a sua
fé de modo contemplativo e activo. Não faltam tarefas para todos, de harmonia
com a sua aptidão e as necessidades locais diocesanas e universais. Deus quando criou
a mulher não a criou nem dos pés do homem nem da cabeça, mas sim do
lado, cada um tem as suas responsabilidades.
O Ecumenismo esta cada vez mais presente na igreja, obra deste Santo
Padre, que algumas vozes dizem que atraiçoou o Concilio Vaticano II. Que tem a dizer
sobre isto?
O Ecumenismo está em franco progresso, com resultados prometedores.
O próximo milénio é uma esperança fundamentada. É certo
que há fluxos e refluxos no mar da vida, mas a "barca de Pedro" no dizer de Lacordaire
"navegou sempre no sangue dos seus mártires", e continuará a navegar!
O Papa João Paulo II, o Bispo de Timor e tantos outros passados e presentes têm sido vítimas de calunias, vexames e de um ódio mortal que os rodeou e os rodeia: "menti, menti, que da mentira alguma coisa há-de ficar", esta máxima é bem actual. Não há desacordo entre o Papa e o Concílio, pode haver e sempre haverá vozes particulares discordantes. Sempre assim foi, desde os tempos apostólicos... É humano.
Cada vez mais se verifica um afastamento das pessoas em relação
a igreja, que opina acerca disto?
As ideias negativistas, sobretudo do século passado, sofreram
grande descrédito, mesmo cientificamente. Estou a lembrar-me do Positivismo e
Ateísmo teórico. No entanto o Materialismo e o Hedonismo são
praticamente um ateísmo ainda mais perigoso. Aquele combatia Deus porque não
o conhecia, este combate Deus porque o conhece e aborrece, visto Deus lhe reprovar a conduta
egocêntrica, injusta e sanguinolenta.
Diga-nos como se encontra o panorama cultural nacional e particularmente
em Trás-os-Montes e Alto Douro?
O panorama cultural tem evoluído, nem sempre da maneira mais
correcta, mas tem evoluído.
Trás-os-Montes sempre foi uma terra isolada e um pouco abandonada.
Nem o próprio nome foi por nós instituído, mas sim por outros que
sempre nos olharam como seres pitorescos que viviam por detrás das serras sem acesso
a civilização, a cultura, a educação, etc..
Considera que Trás-os-Montes ainda é um reino maravilhoso
onde "Prá cá do Marão mandam os que cá estão"?
Trás-os-Montes, como todo o povo português, tem as suas
características que urge estimular e aproveitar. Mas nem sempre isso acontece. Apesar
de tudo, o ritmo de desenvolvimento material tem sido evidente. Pena é que a
educação cívica, moral e até intelectual se tenha degradado de
maneira lastimosa e perigosa! Estamos à margem do abismo e a tal "flexibilidade" a
que chamo "cobardia" e "conivência" arrasta-nos para o caos e para a morte. Aumenta a
insegurança, multiplicam-se os crimes, corrompe-se a flor da juventude, surpreendem-nos
os homicídios e os suicídios, favorecem-se e aprovam-se as mais desumanas,
infames e antinaturais aberrações! Gozar a vida sem limitações!
Conquistar a qualquer preço um lugar cimeiro! Ter, ter, ter! E cada qual que se
defenda! E o nosso povinho, bondoso, mas de fraca memória, bate palmas e recebe
outras tantas no costado, para eleger aquele ou aqueles que lhe deram mais abraços
ou se parecem mais com o "Pai Natal".
Qual a sua perspectiva futura para una melhor evolução?
Temos, sobretudo, de apostar nos nossos valores, quer morais, quer
educacionais e tradicionais. Cada dia que passa perdemos um pouco da nossa identidade como
pátria, como portugueses.
Senão assentarmos nestes valores, a nossa sociedade caminhará
a passos largos para a sua própria destruição. Devemos manter o de que
mais belo temos e abolir práticas de homens cavernais (touradas, certos jogos populares,
etc.). Devemos acima de tudo manter e fomentar a família, base de toda a
educação, moralidade e até da própria tradição.