A brisa matinal revela um odor especial propício
à satisfação da alma. As fragilidades da natureza humana, mormente o
entretenimento das pernas, diluem-se perante a expectativa criada. Observar. A outra natureza...
paisagística.
A propósito de um trilho pedestre organizado pelo Grupo de Caminheiros
de Vila Pouca de Aguiar surgiu a ideia de (re)descobrir as terras raianas do noroeste aguiarense.
Confluem nelas os concelhos de Boticas e Ribeira de Pena. O princípio desta caminhada
nasce na localidade de Monteiros, passa por Veral e termina em Seirós. Três
aldeias pertencentes respectivamente a outros tantos concelhos. Pelo meio surge o ponto de
fuga ao stress rotineiro, ou seja, o motivo primordial da iniciativa: a Ponte de
Arame sobre o rio Tâmega.
Partimos de Monteiros, uma das localidades do concelho aguiarense mais
aprazíveis e deslumbrantes. As adegas subterrâneas anunciam a resistência
aos materiais nascidos com o progresso desenfreado. Apesar de estar afastado dos centros
nevrálgicos da selva urbana, Monteiros (freguesia de Bragado) respira história
eivada das referências contidas no foral de Aguiar da Pena, dado por D. Manuel, em
Lisboa, a 22 de Junho de 1515. A partir de agora, experimentamos a sensação
peculiar de descer até à margem do Tâmega. Uma frescura invade a pele
derivada do verde florestal (azinheiras, giestas, pinheiros, alguns sobreiros e carqueja).
Neste trajecto inicial apreciamos uma vista panorâmica do Minhéu bem como o
fantástico serpenteado do rio a evitar os obstáculos que a mãe natureza
pariu em quantidades proletárias. Na altitude mais baixa do nosso percurso encontramos
a Ponte de Arame que liga as localidades de Veral com Monteiros (não confundir com a
de Santo Aleixo, em Ribeira de Pena, feita com o mesmo material). Inaugurada em 1936, com o
auxílio de ambas as populações, houve uma grande festa. O gado, a fruta,
o vinho, a madeira, as festas religiosas, o namoro...passaram a ser vivências usadas
em troca (in)directa. Por exemplo, em Veral festeja-se o S. Martinho no mês de Novembro.
«Agora já só há missa cantada...». Dizem os populares mais idosos.
Paradoxalmente uma ponte que faz lembrar e, ao mesmo tempo, esquecer o tempo.
O rio Tâmega delimita a fronteira entre os concelhos de Vila Pouca
de Aguiar e de Boticas. O próprio acto de passar a ponte faz aumentar ligeiramente a
adrenalina, devido à tremedeira dos fios aramizados e à fragilidade da madeira
velha. A partir daqui surge o troço de maior dificuldade. A subida pela encosta
até Veral. Para "suar as estopinhas". A floresta começa paulatinamente a dar
lugar à terra cultivada. Sente-se o cheiro intenso da vinha "morangueira". Da fruta
e do milho. O afastamento da aldeia conduz ao regresso à floresta. Parte II. A saga
(quer dizer, subida) continua pela Estrada Municipal. Até à Casa Florestal.
Mais uma que esta abandonada. Urge dar vida a estes "elefantes" brancos erguidos nas clareiras
das matas portuguesas.
Cortando à esquerda voltamos a entrar em caminhos de terra batida e
linhas d’água, em direcção a sul, no limiar da freguesia de Fiães
do Tâmega ( à qual pertence Veral). O cenário muda, até atingir o
destino, para uma mistura de pinheirais, florestas jovens de eucaliptos e restos de terras
queimadas. Se percorrer esta levada de antigos incêndios, ficará maravilhado
com os jogos de luz e sombra que se filtram entre os troncos carbonizados e ramagem verde
de urzes que nascem do solo. Após ser agredida, eis uma reacção
estranhamente bela da natureza.
Já em pleno concelho ribeirapenense, aproxima-se Seirós o
nosso derradeiro destino. Surgem as soalheiras terras de pasto e as baixas paredes de pedra
a indicar as culturas quase de subsistência. E pensar que esta terra da freguesia de
Canedo, em 1940, tinha 328 habitantes! Hoje, a sua arquitectura disforme recebe a escassas
centenas de metros um Parque de Lazer. O repouso final do caminheiro.
Este trilho pedestre não vem no " Guia de Portugal " da
Fundação Calouste Gulbenkian nem sequer nos roteiros turísticos, mais
actualizados, do jornal " Expresso ". No desenvolvimento do percurso não há
monumentos classificados como imóveis de interesse público. Todavia, estas
circunstâncias reforçam ainda mais a importância destas terras quase
virgens! De que maneira?! As imagens valem por si...Além disso, podemos ainda
referenciar o passado histórico, por exemplo de Veral. Se o topónimo é
de origem antroponímica ( Berarius, na forma alatinada ), como parece,
então esta terra é anterior à Nacionalidade!
Por outro lado, começamos a assistir à desertificação,
também nestas paragens, devido aos fenómenos.
de (e)migração. Só assim se compreende a
existência de casas semiabandonadas com os seus belos varandins de madeira a resistir
ao tempo. Felizmente a invasão das habitações tipo "Maison Française"
ainda não surgiu de forma maciça. No entanto, os restos das coberturas de
colmo são tão escassas que a sua morte é já uma realidade.
Enfim, a classificação de um percurso destes (roteiro da
natureza, rota turística, passeio de férias, caminhada orientada, etc. )
não reveste de maior importância se pensarmos na relação
despreocupada com a natureza. Camilo Castelo Branco, que contemplou estas paisagens há
cerca de 150 anos atrás, também se deixou seduzir pelos encantos da terra
virgem. Tal como a jovem mulher, também a natureza reage à perda da virgindade.
Nada é como antes.