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um jornal? uma revista? |
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edição n.º 9 |
opinião [1] |
fernando gouveia |
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editorial opinião 1
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cartoon de Ferreira dos Santos |
O não-beijo de Judas «Sou, por acaso, guardião de meu irmão?» Escrevo isto na véspera de mais um dia 13. Embora não sendo um dos dois mais importantes, espero que, amanhã, Fátima esteja vestida de branco, clamando em uníssono por Timor LoroSae. O "altar do mundo" e porta-bandeira da cruzada contra o "horror vermelho" deveria agora apostar-se em ser, simplesmente, vanguarda da luta contra o horror, sem distinção de cor política ou confissão religiosa. Há minutos, na TVI, começou uma missa em favor da paz em Timor Leste, presidida por D. Ximenes Belo. À entrada, personalidades diversas comentavam a situação. Pelo menos dois deles salientaram o papel determinante da Igreja Católica na luta pela autodeterminação do Povo Maubere. É este papel que, correndo o risco de ser mal interpretado, venho aqui comentar. Em primeiro lugar é preciso estabelecer: qual é a voz oficial da Igreja Católica? Se a voz oficial da Igreja Católica é a Igreja Católica Portuguesa, então a Igreja Católica tem lutado, dentro das suas possibilidades, pelo povo de Timor Leste. Se a voz oficial da Igreja Católica é a Igreja Católica de Timor Leste, em especial D. Ximenes Belo, então a Igreja Católica tem lutado, literalmente até ao último crente, pela autodeterminação do Povo Maubere. Se a Igreja Católica é o que resta — o que não foi morto a tiro, à catanada, perseguido, queimado — da Igreja Católica de Timor Leste, então a Igreja Católica tem sido verdadeiramente heróica. Mas... não é a voz oficial da Igreja Católica a voz do Papa? Se assim é, a Igreja Católica, ao seu mais alto nível, tem sido um cúmplice silencioso do massacre do Povo de Timor Leste. Não digo agora, em que o genocídio em curso se tornou tema de abertura de quase todas as televisões mundiais. — Agora que a condenação é global, Carol Woytila, o mais mediático dos ocupantes do Trono de São Pedro, juntou a sua voz à dos outros, fingindo ter feito sempre parte do coro... Antes que seja apedrejado em praça pública, vamos aos factos: recuemos dez anos no tempo. Outubro de 1989. O Papa João Paulo II visita a Indonésia. À chegada a Jakarta, como sempre faz, o Papa beija o chão — com esse gesto abençoa todo o território e todo o povo indonésio. Dias depois, ao aterrar em Díli, João Paulo II não beija o chão de Timor Leste — porque o tinha incluído no beijo em Jakarta. Com o beijo ausente, o Papa traiu o Povo Maubere, que depositara nele tantas esperanças. Recordo aqui as palavras de Miguel Sousa Tavares, ao tempo Director da entretanto extinta revista Sábado1: «É difícil esquecer a indignação que a visita de João Paulo II a Timor suscita. […] ouvidas todas as judiciosas argumentações dos círculos diplomáticos do Vaticano, o que permanece, indisfarçável e insustentável, é o silêncio cúmplice do Papa. »[...] Como não há uma palavra ou um gesto do Papa que possa ser arrolado em defesa do povo de Timor, procurou-se que o silêncio e as omissões pudessem ser interpretados no mesmo sentido. »[O Papa] apoia a igreja conservadora e tradicional, mas não apoia a Igreja dos pobres da América Latina2; é um inimigo declarado do AntiCristo marxista nos Países de Leste, mas um cordato diplomata com os ditadores de direita que, como Pinochet ou Suharto, promovem ou consentem as actividades da Igreja Católica nas suas fronteiras3. »Onze anos da papado de Carol Woytila destruíram o que não havia ainda sido revisto da Igreja deixada por João XXIII. »Neste infeliz episódio de Timor, o que causa maior indignação é o abandono a que o Papa votou os católicos timorenses. [...] longe de garantir o fim do arbítrio e da violência, veio ainda agravar as coisas, deixando atrás de si mais umas dezenas de timorenses presos e torturados porque ousaram o gesto de coragem que o Papa se não permitiu. »[...] não podemos deixar de pensar que, na sua solidão imensa e cruel [D. Ximenes Belo] pode fazer suas as palavras do Cristo na cruz: "Pai, porque me abandonaste?"» Pedro negou Jesus três vezes. Depois o galo cantou, e o apóstolo arrependeu-se. Foi preciso tanto grito timorense para que o herdeiro de Pedro ouvisse o galo cantar? Resta saber se também ele se arrependeu... Notas: 1 Editorial da revista Sábado n.º 71, de 21 a 28 de Outubro de 1989. O sublinhado é meu.2 Veja-se a verdadeira guerra movida no Brasil contra os bispos e padres apoiantes da Teologia da Libertação. 3 Recorde-se que, até aos acontecimentos pós-referendo, nunca as estruturas da Igreja Católica timorense tinham sido incomodadas pelo ocupante indonésio. |
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Leia este texto (e muitos outros) também na Secret’Área, o refúgio literário de Fernando Gouveia. |
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transmontano sem preconceitos |
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