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edição n.º 9 entrevista manuel guimarães e paula pestana  
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Colaboradores neste número: Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, Carla Santos, Dina Cruz, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Gil Silva, Luísa Costa, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves, Manuel Guimarães, O. Moscardov, Paula Pestana, Paulo de Carvalho, Paulo Mourão, Pedro Martins Colaço, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós

Abel Neves

Abel Neves nasceu em Montalegre, em 1956. Publicou as seguintes obras de teatro: "Amadis", "Anákis", "Touro", "Terra", "Medusa". Em 1997, publicou, num só volume, as peças: "Atlântico", "Finisterrae" e "Arbor Mater". A sua última peça, também editada, foi "Inter Rail". "Corações Piegas" foi o seu primeiro romance, que veio a integrar, em 1998, a colecção de novíssimos autores portugueses editada pelo Círculo de Leitores. "Asas para que vos quero" foi o segundo, editado por "Livros Cotovia". O seu último romance, "Sentimental", foi publicado por "Edições Asa". É autor, também, de um livro de poemas, "Eis o Amor a Fome e a Morte" editado por "Livros Cotovia".

Após alguns desencontros, durante mês e meio, foi possível, finalmente ter a tal conversa assaz agendada e adiada. Este jovem, mas já consagrado escritor (como se depreende pela vasta obra publicada), acedeu, desde o inicio, (que foi no fim dum concerto magnífico onde se ouviu Bério), a ter a "tal conversa" para o Eito Fora, jornal que conheceu nesse momento. A entrevista, o tal mês e meio depois, decorreu no Miradouro da Graça, donde se tem uma panorâmica luminosa de Lisboa. Há lá umas mesinhas de ferro, com as respectivas cadeiras, ao pé de uma romãzeira. Pouco depois do meio-dia, e após o Abel ter insistido em pagar os cafés, retirámo-nos para uma das tais mesinhas, e começou a conversa. O gravador desligou passada uma hora, não houve mais fita. Eram três menos um quarto da tarde, quando nos separámos para ir almoçar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Abel Neves

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Abel Neves

Abel Neves


Nasceste em Montalegre?

Em 56, num dia de nevão.

No Inverno?

Não. Foi na Primavera. Na altura não havia barragens e os nevões caiam com mais frequência. Isto é o que me dizem, claro está.

Lembras-te mal?

(Risos)

Digo eu, não estiveste lá na infância?

Estive, algum tempo. Eu vim para Lisboa tinha 11, 12 anos, mas até essa altura, embora tivesse saído de Montalegre mais cedo, praticamente estava sempre lá. Tenho memórias de infância de Montalegre mas também da zona ribeirinha de V. N. Gaia, porque também passei parte da infância em Gaia. Matosinhos, também passei por ali. Mas são fragmentos de acontecimentos, pequenas coisas dessas zonas. É evidente que tenho a minha terra sempre presente.

E a tua ligação a Montalegre? Vais lá regularmente?

Sim. Não tanto com a regularidade que gostava. Para onde eu vou, ou onde fico mais tempo, quando vou lá para cima, é para uma aldeia que se chama Pitões de Júnias, que é a do mosteiro. Essa sim, é a minha terra de eleição.

Tens lá casa?

Tenho agora um palheiro. Estou à espera de pôr a porta e a janela para dormir com o meu belo saco-cama lá dentro.

Ai é?

Sim. Não vou ter água, nem luz, nem nada disso.

É mesmo rústico...

Sim, é um palheiro. Enfim, tive que tirar a camada de colmo (não há já ninguém que faça o colmo) que tinha por cima e substitui-la por umas telhas que trouxe da casa da minha avó de Montalegre. Um tio meu comprou a casa e cedeu-me o telhado. E portanto tenho essas belas telhas que já têm quase cem anos. Pelo menos não estalam com o gelo e com a neve, o que é uma vantagem. É um abrigo. Não está ainda a funcionar, mas espero que comece no Verão. É para aí que eu vou, e pronto.

Começaste por escrever os poemas, as peças ou os romances?

A minha projecção íntima em relação à escrita nasce com a poesia. Depois comecei a aproximar-me da ideia do teatro, isto é, a possibilidade de aplicar ou ter junto do teatro ideias que me acompanhavam ou diziam respeito aos universos próprios da poesia quando escrita. Poder saber se seria possível ou não que esses mesmos universos pudessem tocar os universos do teatro.

Mas tu fizeste teatro também?

Mais tarde fiz. Fiz a escolha, ou melhor, procurei uma companhia de teatro onde eu pensava que podia trabalhar com esse gosto e, felizmente, isso aconteceu durante alguns anos na Comuna, Teatro de Pesquisa. Fiz de tudo. E só se pode fazer tudo no teatro.

Mas antes já tinhas escrito algumas peças?

No início do meu trabalho com a Comuna tinha escrito apenas uma pequenina peça de teatro, nada que eu hoje considere que possa ser representado. Enfim, não tem as características que eu acho que o teatro deve ter. Tudo o que eu escrevi para teatro nasce da minha iniciação no teatro numa companhia como a Comuna. Claro que as coisas vão-se alterando, como é bom que aconteça. Nunca fiz depender a minha escrita teatral do facto de estar a trabalhar numa companhia. Iniciei os meus percursos no teatro ali e fui, obviamente, procurando aplicar alguns trabalhos que fiz ao universo físico da companhia onde estava, mas depois disso para outros universos

E os romances aparecem mais tarde então?

Sim, os romances aparecem bastante mais tarde. Aparecem agora, há coisa de cinco anos, talvez.

O "Corações Piegas" tem alguma coisa de autobiográfico?

Tudo tem, não é? Tem algumas coisas. Coisas que sejam expressão, ou registo de acontecimentos biográficos, praticamente não. É como se tudo fosse verdade e ao mesmo tempo não.

Aquela época descrita no romance, que é o período do 25 de abril, antes e depois, coincide, mais ou menos, com a tua vida aqui?

Sim, sim.

Fizeste o liceu aqui em Lisboa...

Há pequenos acontecimentos que são da ordem da história. Alguns deles poderei tê-los ficcionado um pouco, mas outros aconteceram, sem dúvida.

Alguns personagens, se calhar, são reais?

Não, não são. Nenhum deles é. Faço questão de nunca serem. O que há, sim, são referências de factos acontecidos. Eu gosto destes atravessamentos de várias fatias desta dimensão na qual vivemos, porque de facto, muitas vezes não sabemos o que sonhamos; se o que sonhamos faz parte da dimensão da consciência dos dias; que dias são estes que estão a ser atravessados por memórias de coisas que não vivemos. Enfim, eu gosto, nos romances e provavelmente também nos textos para teatro, de fazer atravessamentos. Dimensões de coisas acontecidas, coisas que não aconteceram, coisas que provavelmente vão acontecer, e deixar que isso corra livremente. Há uma personagem que passa só ao correr da história, que é realmente uma personagem de Pitões, mas é a única pessoa que até hoje entrou ali.

Que é identificável...

Sim, é identificável. Não tem o mesmo nome, mas é uma pessoa que está lá em Pitões e que eu fiz questão de meter.

No "Asas para que vos quero", a parte da varinha tem a ver com um conto de fadas, um feitiço, uma magia. É quase a história da fada que bate com varinha e muda a cena. Como é que te surgiu essa ideia? Cada vez que o personagem bate a varinha há um recuo no tempo.

Bate a vara sete vezes... Tem a ver com a relação, conhecimento, amizade, morte, renovação, e isso está expresso numa frase logo no início de um dos capítulos, salvo erro no último. A questão das magias temos nós que admitir que existem ou não existem em função dos nossos interesses, dos nossos gostos. Sempre tive uma mania: quando chego à minha terra e vou para qualquer lado, dez minutos depois tenho um pauzinho na mão. E esse pauzinho acompanha-me o tempo todo. Tanto é que a Dona Maria (a senhora de Pitões, dos quartinhos onde eu fico, que é uma das personagens que aparece lá no romance) me deu há uns tempos um bordão. (Pareço S. João Baptista). Já gerou imensa discussões aquele bordão porque não se sabe exactamente de que madeira é. Dizem que será pau de marmeleiro, não sei... A varinha tem para mim essa simbologia do toque. É claro que não estamos à espera, em principio, que uma romãzeira se transforme em pinheiro...

Será algum desejo de ver o Mosteiro de Pitões a funcionar?

Eu gostaria muito que o mosteiro continuasse como está para sempre, que continuasse aquela ruína, e aliás neste romance quase que faço uma defesa muito óbvia disso. Por que é exactamente assim que ele produz o efeito de beleza que tem. Já fizeram um pequeno estradão quase até lá com a justificação que as pessoas mais velhas não se podem deslocar e assim os carros podem ir até mais perto. E portanto aquilo fica ali com aquele carros todos... Pronto, está bem que as pessoas mais velhas têm o direito de querer ainda visitar o mosteiro, mas antigamente também se era velho e ia-se lá à mesma. Custa-me ter que aceitar isso como argumento para se abrir uma estrada. Agora espero é que não seja mais do que isto... Já ouvi dizer que se queria fazer daquilo uma estalagem. Aquela ruína, eu acho, é o que faz o prazer de quem ali chega. Quem vai visitar Pitões visitará sempre aquele mosteiro com um prazer de alma. Se for uma coisa mais restaurada, uma estalagem, vai perder um bocado.

Tu achas que em Montalegre, em Trás-os-Montes alguém já terá lido o "Asas para que vos quero"?

Não faço a mínima ideia. Não tenho hipóteses de saber. Nesse romance formulei do seguinte modo, digamos assim, aquilo que poderia ser para mim a própria impressão de toda esta história, que era a de ter a cabeça no norte, os pés no sul e o coração em toda a parte. Com esta formulação o romance começa com uma situação geográfica sul, mas muito do essencial do romance não se passa ao sul, aquilo que para mim é crucial no romance, o que tem a ver com a minha relação com o norte. Por essa razão eu quis ocultar o nome da terra, Pítões nunca surge. É possível que haja pessoas que sabendo que há um romance que se passa em Pitões tenham interesse em ler. Eu estive todo o tempo com uma vontade de revelar o nome da terra mas ao mesmo tempo achei que não devia fazê-lo. Provavelmente numa qualquer história que eu venha a escrever mais tarde hei-de referir isso.

Já leste Bento da Cruz?

Sim, sim. Ele foi meu dentista quando eu era miúdo. Mas nunca mais o vi, nunca mais falámos, nem nada disso, Eu era miúdo... Li os contos de Gostofrio... Os mais recentes eu não conheço. Bento da Cruz passa por ser um romancista com impacto no que diz respeito às conotações duma certa literatura regional, entre aspas. Ele assume mesmo muito a sua literatura por ali. Eu pela minha parte não gosto nada de...

...Estar conotado a uma determinada coisa?

...Nem de correntes literárias, nem de teatro... Enfim, solto de tudo. Acaba por ser uma necessidade. Mas parece-me que há de facto autores que mantêm uma linha discursiva, durante a sua vida escrevem sempre da mesma maneira. Têm uma linha, reconhece-se o autor ali. Eu não sei se no meu caso se reconhece isso. Nem estou preocupado com isso.

A tua ideia é exactamente: "vão-se ver à rasca para me catalogar!"?

Acho que sim, não sei. Às tantas isto também passa por ser já um jogo. Depois já começo a ouvir pessoas a dizer: "não ele no teatro não tem graça nenhuma, ele tem piada é na ficção". Acho graça. Eu tenho é que me sentir mais ou menos bem disposto com isso. Se isso tiver eco, tem o interesse de uma certa utilidade. Há quem produza vinho, portanto, faz sentido, a gente bebe. Há um prazer físico nas coisas. Mas na literatura isto é sempre muito virtual, sabe-se lá se interessa a alguém.

Escrever um romance obriga-te a uma disciplina especial? Tu já referiste que quando acabaste o "Corações Piegas" estavas esgotado.

Esse foi o primeiro, portanto é natural. Eu acho que as coisas primeiras têm sempre mais desgaste. Mas na verdade há uma intensidade em qualquer das coisas. Hoje poderá haver uma coisa ou outra que eu possa fazer com algum descanso. Outras que faço são talvez mais problemáticas. A disciplina acaba por ser sempre a mesma. A verdade é que quando eu parto para a escrita já vou com um tempo de preparação forte. Não me sento e começo agora a pensar o que vou escrever. Não. No dia exacto em que começo a escrever já antes preparei uma atmosfera especial para esse momento. Há um conjunto de coisas que me pairam e que apenas tenho que sentir que me servem, que vou usar...

Tomas notas?

Tomo, coisas avulsas, as mais disparatadas...

Mas vais guardando?

Vou guardando os papéis, muito mal escritos. Mas são sempre coisas que eu sei que depois fazem as tais interligações. Sei lá, se estou a ver um ratinho ali ao fundo ao pé duma romãzeira e num momento qualquer me interessar associá-lo à romãzeira, provavelmente posso escrever "romãzeira com rato..."

Ou uma pinha que cai na cabeça de um gajo, como o teu personagem do "Sentimental".

Olha, que cai exactamente aqui neste jardim...

Lá está! Não sei se viste uma pinha a cair?...

Não, não (risos)... Mas, repara, estes pequenos acontecimentos que registo podem sempre ser trabalhados mais tarde. Acho que não devemos acreditar absolutamente na memória. Eu preocupo-me muito... Isto é, gosto muito de pensar estas coisas da memória, o que é que isto possa ser, ou não ser. A tendência é nós ficarmos cada vez com menos memória. É curioso o uso que eu vou fazendo das memórias do computador (como simples utilizador, porque eu não percebo nada de computadores), como me sinto, naturalmente, a não usar a memória de uma forma em que culturalmente ela devia ser assumida, isto é, ter presente tudo o que li, ter presente todas as boas relações que os livros têm, todas as situações que a vida vai tendo. Isto pode ser herético, pode ser até absurdo, disparatado, visto que nós vivemos numa cultura que se faz de projecções de memória. É eu saber muito bem o que li, saber muito bem as articulações de tudo que li, para poder em qualquer momento despejar um conjunto de coisas que eu sei que li, e é isso que vai fazendo culturalmente este nosso tecido social. Mas como eu acho que a vida tem outras coisas que não estas e, provavelmente, os relacionamentos na vida são mais interessantes se tivermos a memória disponível, eu, quase naturalmente (não me obrigo a isto), sinto que gosto de ter a memória disponível. Há pessoas que têm essa memória, catalogam e sabem muito bem aquilo tudo e acho muito bem que o façam. Eu é que não tenho que me obrigar a ter um trabalho de memória semelhante ao que os outros todos têm. O único direito que eu exijo é que me deixem ser um bocado como eu acho que gosto de ser. E ter a minha memória disponível para um pássaro que passa, para uma lâmpada que eu vejo acender e apagar. E estas são as coisas que eu gosto na vida, estar atento a tudo o mais. Há coisas que ficam naturalmente presas na memória, estas são as tais que ficam por um gosto afectivo. Por isso é que eu nunca poderia ter estudado medicina, ou direito...

...E podias representar?

Fiz coisas como actor, na Comuna.

O actor tem que ter uma grande memória...

Para mim, antes de representar, isso também era um terror. Como é que eu vou meter um texto todo?... Depende muito, de facto, dos processos de criação. Eu acho que todos os actores são confrontados com isso. No fundo é um pouco como se pode dizer dum maestro perante uma orquestra: um bom director musical, do meu ponto de vista, não deve ter a cabeça na partitura, mas a partitura na cabeça. Com um bom actor acontece um bocado o mesmo. Em vez de ter a cabeça no texto e estar preocupado com aquilo que vai fazer, se primeiro fizer o seu trabalho como actor, encontrar o seu personagem no processo de ensaios, o texto naturalmente vai chegando. A verdade é que isso nunca falhou! Lá surge uma ou outra branca, mas isso é natural. Ninguém morre por isso.

Estiveste no teatro quanto tempo?

Estive 12 anos na Comuna. Estive vários anos em que diariamente trabalhava também como actor, e fazendo outras coisas mais diversas. Fazia de tudo. Isso foi sempre muito bom. Essa iniciação eu formulo-a como tendo estado durante aqueles anos todos na Comuna como provavelmente um aprendiz de ferreiro está junto à forja. Tentando perceber muito bem como é que tudo é feito, sem deixar de estar presente na forja, trabalhar naquilo, pegando nos materiais, vendo o fogo, trabalhando tudo isso... Portanto, um princípio quase metalúrgico na vida. Com certeza que tudo isso é muitíssimo alimentador de tudo o mais.

Pelo menos quando se vai depois escrever uma peça de teatro vai-se com contacto, conhecendo como é que funciona o teatro, não é?

Pelo menos talvez seja mais justo. Que eu seja depois melhor, depende muito. Por mim, gosto muito disso, gosto mesmo. Aliás estou agora a trabalhar num projecto novo com uma companhia que há ali numa aldeia de 50 habitantes, entre Lamego e Castro d’Aire, na Serra do Montemuro. Há uns anos convidaram-me para trabalhar com eles. Era um grupo desportivo que tinha feito alguns trabalhos de teatro amador. Apareceu lá um actor inglês, começou a trabalhar na animação cultural e fez impulsionar muito o teatro ali, juntamente com outras pessoas de lá da aldeia. Alguns deles trabalhando nas mais diversas coisas, agricultores, ou até pessoas que têm trabalhado aqui nas obras em Lisboa, operários, mas que depois não quiseram continuar aqui a viver, voltaram para a terra. Na altura, começou-se a criar ali a ideia do teatro e esse moço inglês apareceu na minha casa um dia para me propor fazer uma história sobre lobos. Não o conhecia de lado nenhum. Eu tinha umas fotografias de lobos na parede em minha casa e quando entrou ficou assim um bocado espantado. Ele nunca tinha falado comigo e vinha-me propor que escrevesse precisamente sobre lobos. Fui trabalhar com eles. Aquilo foi uma coisa bem feita, não tenho nenhuma dúvida sobre isso. E a continuação tem vindo a ser muito boa. Tanto é que eles já tem algum apoio da parte do estado. Continuaram o projecto e agora mesmo estou a fazer a terceira peça para eles. Entretanto uns dramaturgos ingleses também já lhes fizeram alguns textos. A questão é criar-se aqui alguma coisa. Há pessoas que querem escrever teatro, mas querem escrever teatro sem nunca estarem com uma relação com o teatro. Isto é uma questão de afecto. Porque depois eu conheço grande parte dos actores que para aí há, conhecemo-nos, falo com eles, conheço os vícios e conheço as virtudes. Não quer dizer que eu depois faça as coisas ao gosto dos actores. Mas a verdade é que há pormenores, que se calhar até são invisíveis, mas que eu sei que se pode fazer duma maneira em vez de ir por outra. E depois também se fazem uns pequenos ajustes de texto. Também é verdade que há alguns autores que escrevem a peça e depois aquilo não se lhe pode tocar. Eu acho que se pode tocar.

Ou até modificar para um determinado actor que apareça...

Se for o caso, sim... Às vezes as pessoas e mesmo os próprios criadores no teatro têm uma deferência em relação ao autor... Acho bem que tenham essa deferência, mas só isso. Quanto ao resto acho que se deve ter a liberdade de usar as coisas. O Shakesperare esta vivo hoje porque os textos dele são tratados a gosto...

De muitas maneiras...

De muitas maneiras. Se fizessem o Shakespeare tal como era já tinha acabado há muito tempo. Pode ser dramático, mas, paciência. Deixa-se ao critério da liberdade dos outros e isso é que acho que é muito bonito, embora também ache que não é fácil aceitar quando se é vivo... Quando se é morto aceita-se qualquer coisa. (risos). Como se convence um autor vivo a admitir o corte de um personagem, ele que sofreu imenso, dois meses, três meses, para estar ali aquilo? O grande desafio é este, chegar a um ponto em que isso tem que se admitir. Como é que se pode explicar? Pode ser sofrido, mas é assim que eu acho que as coisas têm que ser vividas Aí eu penso que a prática da liberdade é muito maior e faz sentido. Qualquer autor me dirá que eu estou a ser herético. Lembro-me que a Natália Correia, numa discussão que teve comigo (eu limitei-me a ouvi-la) acusava-me de ser irresponsável. "No estado em que está a dramaturgia portuguesa!" Ela sofria imenso com as alterações que se queriam fazer aos textos dela e numa peça que nós fizemos na Comuna ela estava muito tensa. Era uma peça que nunca tinha sido representada e, segundo ela, uma peça muito difícil de ser feita. O João Mota conseguiu fazer um notável trabalho de dramaturgia da peça e ela começou a ficar muito preocupada pelas eventuais alterações. Teve uma ou duas reuniões com o João e aceitou aquilo, mas estava muito tensa, porque era a primeira vez que ela ia aceitar que alguém lhe mexesse no texto. Como ela sabia que eu tinha feito o programa e tinha acompanhado o trabalho da Comuna, estava ligado a texto, escrevia textos para teatro, arranjou ali um 31 comigo... Eu dava com certeza para ser um dos responsáveis pelo mau estar da dramaturgia portuguesa. Tenho impressão que não era bem verdade, mas enfim...

...um dramaturgo que admitia que se fizesse uma coisa daquelas!...

...Que está de acordo, eventualmente, com aquele tipo de processo de criação. Mas a verdade é que a dramaturgia também passa exactamente por golpes de cirurgia em textos, que é justamente o que estávamos a falar. Com o Shakespeare faz-se isso desde sempre. O problema é que, sabe-se lá, alguém pode chegar, pegar naquilo e sentir que é um argumento para uma outra história e pronto... Não se pode fazer nada, acho eu... Esta atitude, provavelmente, resulta do facto de eu ter vivido no teatro.

Caso contrário dirias o mesmo que a Natália Correia.

Provavelmente eu na prática dos dias estou mais junto dos tais vícios e das tais virtudes e portanto... Não é só isso, quer dizer, são os próprios vícios e as próprias virtudes da criação teatral. Saber que os cinco minutos que podem decidir do gosto de uma peça poderem ser anulados porque há um bocado a mais do texto, que se calhar já não acrescenta tanto ao argumento fundamental e que mesmo que importe num conjunto superior sabe-se lá se naquele espectáculo, do modo como ele está feito, não vale a pena subtraí-lo, em prol de um gosto muito específico. Porque realmente é preciso ter em conta isso, o teatro é uma coisa que vive. O teatro é um lugar, é um sítio onde alguém vê outros representando alguma coisa, e precisa que a sua atenção esteja totalmente para ali. No tempo de Shakespeare, por exemplo, merendavam enquanto viam o espectáculo. É diferente não é? As quatro horas de um espectáculo de Shakespeare há 500 anos eram uma festa, era uma outra coisa. Hoje uma pessoa está sentada quatro horas e pode ser complicado. Portanto, sabendo tudo isto é natural que se se fizer uns pequenos ajustes, se se retirar alguns minutos de texto ao Shakespeare... Enfim ele poder-se-á ofender. Para ele se estava lá é porque era fundamental se não não estaria, não é?

E a influência cósmica? Estás sempre a falar das constelações, Hércules e Marte...

Cada vez mais...

Em Trás-os-Montes vê-em-se melhor.

Por acaso há uns tempos comprei um telescópio. Para mim é um bocado caro, fui enganado, está todo torto, aquilo não funciona nada (risos). Mas só vi isso quando o levei lá para cima, para à noite ir ver umas coisas... Não cheguei a cansar-me, porque aquilo estava avariado (risos). Um dia espero poder ter um telescópiozito lá no palheiro. Tenho, aliás, um conjunto de textos que vai ser publicado agora e o título geral dessa obra é precisamente "Além as estrelas são a nossa casa".

És um estudioso das estrelas?

Não, passo por ali, gosto de ler coisas, mas não percebo nada. Acho que ninguém percebe, não é? Há uns que percebem mais. Vi num artigo que tinham descoberto, através do telescópio Hubble, que afinal de contas o coração de uma galáxia M87 era de facto um buraco negro. Essa descoberta tem uma série de implicações que eu agora não sei. Mas o engraçado é que um astrónomo que relata o acontecimento diz depois, a dado momento, uma frase muito engraçada para quem tem um conjunto de informações e sabe muito destes factos. Dizia ele o seguinte: "se isto não é um buraco negro, então não sei o que é". É notável. (Risos) Eu fico contente porque é o tipo de constatação que também faço sem saber nada. Isto para dizer que percebemos todos muito pouco ou nada das estrelas. Mas eu gostaria de saber muito. Saber até do ponto de vista científico. Vou fazendo leituras, vou andando por ali, vou olhando para o céu...

Lês bastante?

Não leio muito. Leio, vou lendo...

Regularmente?

Sim, todos os dias leio qualquer coisa.

Há algum autor português que aprecies? Camilo?

Camilo li há uns anos, agora já não leio tanto. Li alguns romances. Gosto muito de Camilo. Há uns anos discutíamos sempre aquela velha questão entre o Eça e o Camilo, a ver quem é que gostava mais deste ou do outro...

Não tinha grande sentido...

Pois não, não tinha. Mas era engraçado. Pode-se discutir isso. Porque é que se gostava mais de um e ou se gostava mais de outro, porque é que um era mais exemplar na literatura e não era o outro, aquelas coisas todas, não é? Ontem estava a jantar com uns amigos e lembrei-me duma coisa do Fernando Assis Pacheco que ele dizia com imensa piada, que era: "Escusamos de andar com muitas preocupações no que diz respeito à questão dos poetas em Portugal, porque em Portugal sempre se disse e diz que poetas haverá sempre — o problema é o queijo da serra! Se o queijo da serra acaba, como é?" (risos) Eu estou muito de acordo com a frase do Assis Pacheco.

 
 


 

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