Ao estabelecer como desiderato fundamental do movimento
surrealista a determinação de um ponto do espírito em que os
contrários deixassem de ser apreendidos como tal1, o que supõe a
sua anulação recíproca ou a sua síntese integradora, André
Breton configurava assim, pelo menos implicitamente, a função da
criação artística, assumindo a obra de arte um inegável valor
no que se refere à salvação existencial e à
revelação ontológica. Estes dois últimos conceitos, ainda que
diferentes, manifestam uma afinidade imanente. O que na criação
artística e na obra de arte pode ser dito elemento salvífico é, ao
mesmo tempo, uma aproximação da verdade do ser. No caso particular da poesia,
e se encararmos, com Heidegger, toda a arte como intrinsecamente poética e como meio
de forçar o ser a desocultar-se2, a palavra é a matéria da
beleza, criando o mundo ao revelá-lo, e redimindo-o ao exprimi-lo. O mundo assim
redimido, ou tão-só transfigurado, não deixa de ser o do poeta.
Simplesmente, já não é a vivência subjectiva e intransmissível,
mas o «lugar» da emoção estética.
Numa obra de Rilke, em que o autor se dirige, pela via epistolar, ao poeta
Kappus3, aparecem-nos alguns elementos fundamentais a que deve obedecer a
criação poética, que nos levam igualmente a problematizar o valor da
poesia, bem como da obra de arte em geral. Rilke incita o poeta a um exercício
introspectivo, a uma (re)descoberta da interioridade, por forma a tornar a criação
o mais autêntica possível. A via da autenticidade exige uma auto-análise,
para lá de todas as influências externas. Diz-lhe Rilke: «Ninguém pode
aconselhá-lo nem ajudá-lo — ninguém! Há só um caminho:
entre em si próprio e procure a necessidade que o faz escrever»4. Mas
não será o nível de definição e consciencialização
desta necessidade inversamente proporcional à interiorização que a sua
descoberta reclama? Por outras palavras, se o poeta reconhece que o movimento que o leva a
escrever se situa para lá de um imperativo económico ou do estrito reconhecimento
social, planos que são menos facilmente conciliáveis com o valor artístico
da poesia5, que nome dará a essa necessidade?
Certamente que, se o impulso que leva alguém a escrever poesia
não é assimilável a uma motivação extrínseca, nem
a uma situação psicológica transitória, tal necessidade
aparece-nos quase como indefinível. Não poderá, por conseguinte, ser
englobada no conceito mais amplo de «salvação existencial», a que atrás
aludimos? Este conceito, que aqui tomamos de forma um pouco acrítica, não
é de modo algum susceptível de uma plena univocidade. Ligámo-lo acima
à «revelação ontológica», e no mesmo sentido definimo-lo aqui
como a reconciliação dos contrários, o exacto reverso da existência
humana, em si mesma paradoxal, problemática e contraditória, refractária
à determinação do seu fim ideal, permanecendo, na sua
concreção irredutível, um itinerário em que a obscuridade da
origem é simultânea à obscuridade dos alvos.
O esforço de introspecção é indissociável
de um outro, pressupondo-o e implicando-o: o de conquistar «a solidão, a grande
solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar
ninguém — é a isto que é preciso chegar»6. Esta conquista
é fruto de uma espécie de catarse, que depura o eu do que nele é ainda
franja de imediatismo ou resíduo de exterioridade. Ao mesmo tempo, é a
assunção de uma unidade sem a qual o acto criador deixaria de se exercer em
plenitude. Com efeito, «a solidão é una e, por essência, grande,
pesada e difícil de suportar»7. E será este certamente um dos
sentimentos que Rilke designa de puros, por neles se concentrar todo o ser e o
elevarem, ao contrário dos sentimentos impuros, que apenas correspondem a uma
parte de si mesmo, a uma parte do eu, que, por conseguinte, deformam8.
Mas a conquista deste espaço não é, por si só,
suficiente para o exercício do acto criador. É preciso que o poeta comece por
uma apropriação sucessiva das realidades da sua experiência interna e
externa, aproximando-se da Natureza. Sugere Rilke: «Experimente dizer, como se fosse o
primeiro homem, o que vê, o que vive, o que ama, o que perde. (...) Diga tudo isto
com uma sinceridade íntima, calma e humilde»9. E sublinha também:
«Se se agarrar à Natureza, ao que nela há de simples e de pequeno, àquilo
de que quase ninguém se apercebe e que, de repente, se transforma no infinitamente
grande, no incomensurável (...), tudo lhe parecerá mais harmonioso e, por
assim dizer, mais conciliante»10. É como se a Natureza fosse rítmica
em si mesma, servindo de ponto de partida do acto poético e, naturalmente, de ponto
de chegada. No limite, esta noção de Natureza engloba a totalidade do existente,
dotada de uma ordem interna, não necessariamente dada de uma vez por todas, e que
é preciso explicitar.
Coloca-se entretanto, e seguindo essa ordem de ideias, o problema do
processo de criação poética. Deverá o poeta circunscrever-se
à mera espontaneidade, sacrificando a componente racional, ou, pelo contrário,
deverá a poesia resultar de uma mediação reflexiva, fruto de um
fingimento poético e de uma intelectualização das
emoções? Pensamos ser este um falso problema. Em primeiro lugar, porque
não há uma espontaneidade em estado puro no processo de expressão das
emoções; em segundo lugar, porque o pensar é um modo de sentir, e a
poesia, mesmo se improvisada, supõe sempre uma implícita
elaboração intelectual. «O criador (diz Rilke) deve ser todo um universo para
si próprio, tudo encontrar em si próprio e nessa parcela de Natureza com que
se identificou»11. Mas, não tenhamos dúvidas, o que o criador em
si encontra situa-se numa totalidade relacional de que também ele participa. E esta
participação condiciona o pensar, o sentir e o agir. Fernando Pessoa, poeta
fingidor por excelência, afirmava que sentia com a imaginação,
acrescentando: «Por isso escrevo em meio / Do que não está ao pé, /
Livre do meu enleio, / Sério do que não é. / Sentir? Sinta quem
lê!»12. Todavia, se é o leitor que deve sentir, não deixa de
ser verdade que a emoção estética é primeiramente vivida pelo
criador, o qual poderá encontrar aí uma justificação e uma
redenção, ainda que precárias. Além disso, quer o sentir–pensar
do poeta, quer o sentir que decorre da emoção estética, ambos se enquadram
num campo cultural específico.
Isto significa que a ultrapassagem do plano estritamente fenoménico
e imediato ocorre sempre num universo de significações que progressivamente
se complexifica. A exigência estética conduz o poeta a uma actividade inventiva
e imaginativa que nos põe em contacto com novas constelações de sentido,
uma vez que a beleza não está aí, e o critério da obra de arte
é, justamente, o seu grau de transfiguração13. Em
última análise, a obra de arte procura exprimir o inexprimível, e a
este pode chamar-se Deus, desde que se não faça dele uma realidade
estática, mas se o incorpore no próprio movimento criador. «Porque não
pensar (...) que Deus é Aquele que há-de vir, que através da eternidade
há-de vir, o futuro, o fruto magnífico de uma árvore de que somos as
folhas?»14; — pergunta Rilke. Esta concepção de divindade confere
às obras de arte uma significação que transcende claramente o contexto
da vida individual, imprimindo-lhes também um carácter inexprimível,
que as subtrai a toda a preocupação crítica, e fazendo delas «seres
vivos e secretos cuja vida imortal acompanha a nossa vida efémera»15 e
nos permite a «comunhão com a evidência»16
Notas:
1 Cf. André Breton, Manifestes du Surréalisme,
Gallimard, 1975, pp. 76–77.
2 Cf. Richard Palmer, Hermenêutica,
Edições 70, 1989, p. 163. Eugénio de Andrade, por sua vez, estabelecendo
esta revelação ontológica ao nível do ser do próprio
poeta, escreve: «O acto poético é o empenho total do ser para a sua
revelação. Este fogo de conhecimento, que é também fogo de amor,
em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra.
(...) [E]sse ser sedento de ser, que é o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que
procura é uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra,
presença e ausência, plenitude e carência. (...) Ecce Homo,
parece dizer cada poema. Eis o homem, eis o seu efémero rosto feito de milhares e
milhares de rostos» (Eugénio de Andrade, Os Afluentes do Silêncio,
Editorial Inova Limitada, 1968, pp. 57–59).
3 Cf. Rainer Maria Rilke, Cartas a um Poeta,
PORTUGÁLIA Editora, s/d.
4 Rilke, op. cit., pp. 16–17.
5 A este propósito, diz Rilke: «Em tudo o que corresponde
ao real estamos mais perto da arte do que nessas chamadas profissões artísticas
que não repousam em nada da vida e que, ao mesmo tempo que macaqueiam a arte, a negam
e a ofendem» (Rilke, op. cit., p. 101).
6 Rilke, op. cit., p. 58.
7 Rilke, op. cit., p. 57.
8 Cf. Rilke, op. cit., p. 94.
9 Rilke, op. cit., p. 17.
10 Rilke, op. cit., p. 40.
11 Rilke, op.cit., p. 19.
12 Fernando Pessoa, Poesia II, 2ª ed.,
Publicações Europa-América, s/d, p. 92.
13 Cf. Denis Huisman, A Estética,
Edições 70, 1981, p. 71.
14 Rilke, op.cit., p. 61.
15 Rilke, op.cit., p. 15.
16 Vergílio Ferreira, Aparição,
Editorial Verbo, 1971, p. 27.