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Colaboradores neste número: Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, Carla Santos, Dina Cruz, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Gil Silva, Luísa Costa, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves, Manuel Guimarães, O. Moscardov, Paula Pestana, Paulo de Carvalho, Paulo Mourão, Pedro Martins Colaço, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós

capa de livro

«Em última análise, a obra de arte procura exprimir o inexprimível, e a este pode chamar-se Deus, desde que se não faça dele uma realidade estática»

Algumas notas sobre criação poética
– a partir de uma obra de Rilke


Ao estabelecer como desiderato fundamental do movimento surrealista a determinação de um ponto do espírito em que os contrários deixassem de ser apreendidos como tal1, o que supõe a sua anulação recíproca ou a sua síntese integradora, André Breton configurava assim, pelo menos implicitamente, a função da criação artística, assumindo a obra de arte um inegável valor no que se refere à salvação existencial e à revelação ontológica. Estes dois últimos conceitos, ainda que diferentes, manifestam uma afinidade imanente. O que na criação artística e na obra de arte pode ser dito elemento salvífico é, ao mesmo tempo, uma aproximação da verdade do ser. No caso particular da poesia, e se encararmos, com Heidegger, toda a arte como intrinsecamente poética e como meio de forçar o ser a desocultar-se2, a palavra é a matéria da beleza, criando o mundo ao revelá-lo, e redimindo-o ao exprimi-lo. O mundo assim redimido, ou tão-só transfigurado, não deixa de ser o do poeta. Simplesmente, já não é a vivência subjectiva e intransmissível, mas o «lugar» da emoção estética.

Numa obra de Rilke, em que o autor se dirige, pela via epistolar, ao poeta Kappus3, aparecem-nos alguns elementos fundamentais a que deve obedecer a criação poética, que nos levam igualmente a problematizar o valor da poesia, bem como da obra de arte em geral. Rilke incita o poeta a um exercício introspectivo, a uma (re)descoberta da interioridade, por forma a tornar a criação o mais autêntica possível. A via da autenticidade exige uma auto-análise, para lá de todas as influências externas. Diz-lhe Rilke: «Ninguém pode aconselhá-lo nem ajudá-lo — ninguém! Há só um caminho: entre em si próprio e procure a necessidade que o faz escrever»4. Mas não será o nível de definição e consciencialização desta necessidade inversamente proporcional à interiorização que a sua descoberta reclama? Por outras palavras, se o poeta reconhece que o movimento que o leva a escrever se situa para lá de um imperativo económico ou do estrito reconhecimento social, planos que são menos facilmente conciliáveis com o valor artístico da poesia5, que nome dará a essa necessidade?

Certamente que, se o impulso que leva alguém a escrever poesia não é assimilável a uma motivação extrínseca, nem a uma situação psicológica transitória, tal necessidade aparece-nos quase como indefinível. Não poderá, por conseguinte, ser englobada no conceito mais amplo de «salvação existencial», a que atrás aludimos? Este conceito, que aqui tomamos de forma um pouco acrítica, não é de modo algum susceptível de uma plena univocidade. Ligámo-lo acima à «revelação ontológica», e no mesmo sentido definimo-lo aqui como a reconciliação dos contrários, o exacto reverso da existência humana, em si mesma paradoxal, problemática e contraditória, refractária à determinação do seu fim ideal, permanecendo, na sua concreção irredutível, um itinerário em que a obscuridade da origem é simultânea à obscuridade dos alvos.

O esforço de introspecção é indissociável de um outro, pressupondo-o e implicando-o: o de conquistar «a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém — é a isto que é preciso chegar»6. Esta conquista é fruto de uma espécie de catarse, que depura o eu do que nele é ainda franja de imediatismo ou resíduo de exterioridade. Ao mesmo tempo, é a assunção de uma unidade sem a qual o acto criador deixaria de se exercer em plenitude. Com efeito, «a solidão é una e, por essência, grande, pesada e difícil de suportar»7. E será este certamente um dos sentimentos que Rilke designa de puros, por neles se concentrar todo o ser e o elevarem, ao contrário dos sentimentos impuros, que apenas correspondem a uma parte de si mesmo, a uma parte do eu, que, por conseguinte, deformam8.

Mas a conquista deste espaço não é, por si só, suficiente para o exercício do acto criador. É preciso que o poeta comece por uma apropriação sucessiva das realidades da sua experiência interna e externa, aproximando-se da Natureza. Sugere Rilke: «Experimente dizer, como se fosse o primeiro homem, o que vê, o que vive, o que ama, o que perde. (...) Diga tudo isto com uma sinceridade íntima, calma e humilde»9. E sublinha também: «Se se agarrar à Natureza, ao que nela há de simples e de pequeno, àquilo de que quase ninguém se apercebe e que, de repente, se transforma no infinitamente grande, no incomensurável (...), tudo lhe parecerá mais harmonioso e, por assim dizer, mais conciliante»10. É como se a Natureza fosse rítmica em si mesma, servindo de ponto de partida do acto poético e, naturalmente, de ponto de chegada. No limite, esta noção de Natureza engloba a totalidade do existente, dotada de uma ordem interna, não necessariamente dada de uma vez por todas, e que é preciso explicitar.

Coloca-se entretanto, e seguindo essa ordem de ideias, o problema do processo de criação poética. Deverá o poeta circunscrever-se à mera espontaneidade, sacrificando a componente racional, ou, pelo contrário, deverá a poesia resultar de uma mediação reflexiva, fruto de um fingimento poético e de uma intelectualização das emoções? Pensamos ser este um falso problema. Em primeiro lugar, porque não há uma espontaneidade em estado puro no processo de expressão das emoções; em segundo lugar, porque o pensar é um modo de sentir, e a poesia, mesmo se improvisada, supõe sempre uma implícita elaboração intelectual. «O criador (diz Rilke) deve ser todo um universo para si próprio, tudo encontrar em si próprio e nessa parcela de Natureza com que se identificou»11. Mas, não tenhamos dúvidas, o que o criador em si encontra situa-se numa totalidade relacional de que também ele participa. E esta participação condiciona o pensar, o sentir e o agir. Fernando Pessoa, poeta fingidor por excelência, afirmava que sentia com a imaginação, acrescentando: «Por isso escrevo em meio / Do que não está ao pé, / Livre do meu enleio, / Sério do que não é. / Sentir? Sinta quem lê!»12. Todavia, se é o leitor que deve sentir, não deixa de ser verdade que a emoção estética é primeiramente vivida pelo criador, o qual poderá encontrar aí uma justificação e uma redenção, ainda que precárias. Além disso, quer o sentir–pensar do poeta, quer o sentir que decorre da emoção estética, ambos se enquadram num campo cultural específico.

Isto significa que a ultrapassagem do plano estritamente fenoménico e imediato ocorre sempre num universo de significações que progressivamente se complexifica. A exigência estética conduz o poeta a uma actividade inventiva e imaginativa que nos põe em contacto com novas constelações de sentido, uma vez que a beleza não está aí, e o critério da obra de arte é, justamente, o seu grau de transfiguração13. Em última análise, a obra de arte procura exprimir o inexprimível, e a este pode chamar-se Deus, desde que se não faça dele uma realidade estática, mas se o incorpore no próprio movimento criador. «Porque não pensar (...) que Deus é Aquele que há-de vir, que através da eternidade há-de vir, o futuro, o fruto magnífico de uma árvore de que somos as folhas?»14; — pergunta Rilke. Esta concepção de divindade confere às obras de arte uma significação que transcende claramente o contexto da vida individual, imprimindo-lhes também um carácter inexprimível, que as subtrai a toda a preocupação crítica, e fazendo delas «seres vivos e secretos cuja vida imortal acompanha a nossa vida efémera»15 e nos permite a «comunhão com a evidência»16


Notas:

1 Cf. André Breton, Manifestes du Surréalisme, Gallimard, 1975, pp. 76–77.
2 Cf. Richard Palmer, Hermenêutica, Edições 70, 1989, p. 163. Eugénio de Andrade, por sua vez, estabelecendo esta revelação ontológica ao nível do ser do próprio poeta, escreve: «O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra. (...) [E]sse ser sedento de ser, que é o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura é uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência. (...) Ecce Homo, parece dizer cada poema. Eis o homem, eis o seu efémero rosto feito de milhares e milhares de rostos» (Eugénio de Andrade, Os Afluentes do Silêncio, Editorial Inova Limitada, 1968, pp. 57–59).
3 Cf. Rainer Maria Rilke, Cartas a um Poeta, PORTUGÁLIA Editora, s/d.
4 Rilke, op. cit., pp. 16–17.
5 A este propósito, diz Rilke: «Em tudo o que corresponde ao real estamos mais perto da arte do que nessas chamadas profissões artísticas que não repousam em nada da vida e que, ao mesmo tempo que macaqueiam a arte, a negam e a ofendem» (Rilke, op. cit., p. 101).
6 Rilke, op. cit., p. 58.
7 Rilke, op. cit., p. 57.
8 Cf. Rilke, op. cit., p. 94.
9 Rilke, op. cit., p. 17.
10 Rilke, op. cit., p. 40.
11 Rilke, op.cit., p. 19.
12 Fernando Pessoa, Poesia II, 2ª ed., Publicações Europa-América, s/d, p. 92.
13 Cf. Denis Huisman, A Estética, Edições 70, 1981, p. 71.
14 Rilke, op.cit., p. 61.
15 Rilke, op.cit., p. 15.
16 Vergílio Ferreira, Aparição, Editorial Verbo, 1971, p. 27.

 
 


 

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