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edição n.º 9 destaque RELATO: josé luis ferreira  
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Colaboradores neste número: Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, Carla Santos, Dina Cruz, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Gil Silva, Luísa Costa, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves, Manuel Guimarães, O. Moscardov, Paula Pestana, Paulo de Carvalho, Paulo Mourão, Pedro Martins Colaço, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós

José Luís Ferreira é membro da direcção nacional do Partido Ecologista "Os Verdes" e integrou a missão oficial de observadores portugueses na consulta ao povo timorense. Destacado para o enclave de Ambino, seguiu passo a passo o processo de preparação do referendo do dia 30 de Agosto. Em simultâneo assistiu ao desencadear do macabro e cobarde massacre de um "povo inofensivo, dócil e acolhedor". Na partida sentiu "vergonha de pertencer a este mundo". Entristeceu "por nada poder fazer".

menina timorense
Diário de
Timor Loro Sae


Em representação do partido Ecologista "Os Verdes", integrei a Missão Oficial de Observadores Portugueses na Consulta Popular de Timor Leste.

Cheguei a Dili no dia 11 de Agosto, onde fui informado do meu destino definitivo durante a missão: Ambino.

Ambino é um distrito situado junto ao mar, na parte ocidental da ilha e rodeado por território de Timor indonésio, constituindo assim um enclave. A sede do distrito é a cidade do Oecussi, junto a Lifau, capital da colónia de Timor até 1769 e onde pela primeira vez desembarcaram os portugueses. Junto à praia, permanece ainda um monumento em pedra a testemunhar a passagem dos portugueses por aquelas terras. Uma placa diz: "Aqui desembarcaram os Portugueses – XVIII-VIII-MDXIV". E na superfície do último degrau onde assenta o monumento, em letras desenhadas com pequenas pedras, pode ainda ler-se: "Aqui também é Portugal".

Os Timorenses, gente inofensiva, dócil e acolhedora, cujos silêncios diziam tanto, cujos olhares alcançavam os horizontes do desejo de dias livres de opressão e de "guerra", sempre que se cruzavam connosco cumprimentavam-nos com uma alegria que não escondiam. Os mais velhos falavam português e mostravam-se sempre dispostos a indicar caminhos ou a prestar outras informações.

Por todo o território as casas tinham hasteadas bandeiras da indonésia. Questionando tal facto, foi-me explicado que era hábito hastear a bandeira para as comemorações do dia da independência da indonésia (15/8) mas que toda a gente havia sido aconselhada a deixar estar as bandeiras até ao dia do referendo.

A campanha eleitoral começou no dia 14 de Agosto. Assistimos a quase todos os comícios, UNIF (autonomia) e CNRT (independência). De comum estes comícios tinham apenas o início que era invariavelmente igual: começando em oração. Mas as semelhanças esgotavam-se neste testemunho de um povo que é profundamente católico, de resto tudo era diferente. Os meios, as mensagens e a forma de olhar os observadores portugueses. Os oradores da UNIF olhavam-nos de forma intimidatória e até as pessoas que assistiam pareciam ter receio de nos cumprimentar. Nos comícios da "Independência" falava-se a medo, agradecia-se a presença dos observadores. A nossa chegada era até motivo para interromper os comícios com aplausos, o que nos causava algum embaraço. Era cada vez mais evidente que a nossa presença tranquilizava aquele povo, cansado de dor e perseguição, que apenas clamava paz e liberdade. Mas a campanha decorreu quase até ao fim sem grandes problemas e sem confrontos, o que fazia prever que o enclave de Ambino era afinal uma excepção ao resto do território de Timor Leste. Mas não foi.

de Agosto. Último dia de campanha. As coisas alteraram-se radicalmente e os acontecimentos mostravam que afinal os receios dos que a medo nos haviam já confessado que "depois da votação, vão-nos matar a todos", começavam a fazer sentido. Nesse dia houve dois comícios no Oecussi marcados para a mesma hora. Quando o comício da "autonomia" acabou os seus entusiastas resolveram passar por perto do local onde ainda decorria o comício do CNRT. Passaram em caravana, a buzinar e a fazer um enorme alarido, agitando as bandeiras da indonésia. Indiferentes à provocação, as pessoas que assistiam ao comício deram as mãos e, enquanto a caravana passava, cantaram o que parecia ser uma música religiosa. Aqui estava uma excelente lição de democracia que, com elevação, aquela gente soube mostrar ao mundo, através do olhar atento de todos os observadores.

Terminado o comício deslocaram-se a pé ordeiramente, formando enormes e volumosas filas, até à sede do CNRT, para dali partirem para as respectivas aldeias. Porém, quando se preparavam para sair da cidade, sente-se uma agitação no fim da multidão. Era já noite e nós, que vínhamos em sentido contrário, estacionámos o jipe na berma da estrada e saímos. As pessoas começaram a correr e quando viram o nosso jipe agarraram em pedras. Instintivamente levantei as mãos. Só muito perto perceberam, pela bandeira colada no jipe, que éramos portugueses. Deixaram então cair as pedras e tentaram comunicar que ao fundo havia confusão. Pediram ajuda, mas nós nada podíamos fazer. A polícia entretanto veio para o fundo da "manifestação". O jipe azul das milícias dirigiu-se a grande velocidade em direcção às pessoas ali concentradas. Mesmo ao nosso lado seis polícias com armas em punho formaram uma barreira e obrigaram o condutor a uma travagem brusca. Ainda consegui ver a polícia desarmar o condutor, antes de nos mandarem sair dali rapidamente.

Nessa noite várias mulheres e crianças procuraram abrigo em nossa casa. Sentiam-se mais protegidas. A nossa presença parecia criar uma aura de protecção que para nós tinha o reverso da responsabilidade de pouco ou nada poder fazer para a sua segurança.

Constava-se que as milícias iam atacar naquela noite. Fomos à polícia pedir escolta e foi-nos dito que não havia efectivos disponíveis. Regressámos a casa. Durante a noite ouviram-se tiros.

28 de Agosto. De manhã fomos dar uma volta pela cidade. Durante a noite tinham vandalizado a sede do CNRT. Havia casas queimadas, motorizadas no meio da estrada também queimadas, o jipe azul que identificámos na noite anterior circulava pela cidade. É claro que a polícia não deteve ninguém.

Constava-se que havia mortos e feridos. Fomos ao Hospital. Havia na verdade sete feridos com sinais visíveis de catanadas, um dos quais, numa maca no corredor, estava a soro e "abandonado às moscas". Acabou por morrer horas depois. Tinham morrido mais dois, um à catanada e o outro apareceu carbonizado numas das casas queimadas. As ruas estavam completamente desertas.

À noite mulheres e crianças refugiaram-se de novo na nossa casa. Calavam-se sem compreender quando sugeríamos que nas instalações da polícia estariam mais seguros. Hoje compreendemos este silêncio e a sinceridade dessa incompreensão.

29 de Agosto. Quando fomos saber se o Ti Xico, o nosso intérprete, se encontrava bem, cruzámo-nos com uma carrinha de caixa aberta repleta de gente, armada "até aos dentes", com as camisolas das milícias e bandeiras indonésias. Assistimos ainda a uma brigada das milícias a pedir identificação às pessoas que passavam. Fomos dar conhecimento disso à polícia, que apenas queria saber se nós havíamos sido abordados, como quem diz "eles tinham indicação para não chatear os observadores". Dissemos que não tínhamos sido abordados e ficou a promessa de "serem dadas ordens" para não pedirem mais identificação a ninguém. "A polícia dá ordens às milícias? Evidência questionável ou inquestionável?" Foi o que passou a ocupar o meu pensamento. Era só encaixar as peças, o resultado começava a clarificar-se.

À noite, de novo mulheres e crianças abrigaram-se em nossa casa.

30 de Agosto. Vinte e cinco anos depois, o tão esperado dia! Cheguei ao centro de votação da escola de Santo António no Oecussi, pelas seis horas da manhã, para assistir à abertura do processo de consulta, previsto para as 6.30h. Consulto novamente o relógio, eram seis e vinte e não se via ninguém para votar. Uma mistura de tristeza, desânimo e revolta, que procurei conter, invade-me por completo. De repente começo a ver gente a chegar de todo o lado. Muita gente, em grupos, homens e mulheres com papéis na mão. Senti uma alegria indescritível que a muito custo silenciei. Afinal os Timorenses tinham percebido a importância do voto e não se deixaram intimidar pelas milícias. Respirei fundo. Valeu a pena.

No dia seguinte ao referendo e conforme estava previsto, preparámos o nosso regresso a Dili. Fomos à polícia que nos havia garantido escolta até Dili. Afinal era só até meio do percurso: "A partir daqui já não temos nada a ver com o assunto. Quando chegarem a Liquiçá peçam à polícia de lá para vos escoltar até Dili".

Ficámos apenas os três observadores portugueses. Nada mais havia a fazer que não fosse avançar. Passados poucos quilómetros um camião faz sinal para ultrapassarmos, o motorista reforça o sinal com o braço. Avançámos para ultrapassar quando, nesse instante, o camião avança para o meio da faixa de rodagem, projectando-nos para a berma após a inevitável colisão. Saímos os três do jipe e quando nos apercebemos que o camião nem matrícula tinha, concluímos que o melhor era, estando o jipe em condições, seguir viagem. Após termos retirado o guarda-lamas que estava a obstruir a roda esquerda da frente, arrancámos. Ainda sem termos tido tempo de nos recompormos, uma brigada das milícias impede-nos de prosseguir. Parámos, revistaram o jipe, atiraram uns tiros para o ar e levantaram o tronco que fazia de barreira e impedia a passagem. Continuámos. Na viagem ainda passámos por mais três brigadas das milícias, mas sem problemas. Chegámos finalmente a Dili por volta das 15 horas.

1 de Setembro. Quando nos dirigíamos para a sede da Missão Portuguesa, ao passarmos pelo Mercado de Dili parámos para fotografar a fachada do mercado. Irrompem de dentro do mercado vários elementos das milícias que começam a agarrar em pedras e se dirigem para nós. Arrancámos com o jipe.

Ao fim do dia, de repente, começa a haver agitação, as lojas começam a fechar e nós, sem compreender o que se passava, fomos directos para a sede da missão. Ouvem-se tiros, é o "assalto ao Bairro Mascarenhas". Ficámos na Missão até arranjarmos escolta para nos levar para casa. Após vários "alarmes falsos", em que se retiravam os jipes do recinto e se voltavam a estacionar, a escolta acabou por aparecer.

2 de Setembro. Aconselharam-nos a sair de casa apenas para o indispensável, comer e fazer os turnos da contagem dos votos, que entretanto decorria no Museu. Saímos para jantar no Hotel Turismo que ficava junto à casa onde estávamos instalados. Durante o jantar entraram três elementos das milícias armados com catanas e armas automáticas, dirigiram-se para o balcão, conversaram com a recepcionista e sentaram-se para jantar, com uma descontracção surpreendente, como se aquele aparato fosse a coisa mais normal do mundo.

Dali fui para o Museu assistir à contagem dos votos. Tudo corria normalmente. Falava-se na antecipação da divulgação dos resultados.

3 de Setembro. Logo pela manhã fomos confrontados com o conselho da polícia de que era mais seguro mudar de casa. Saímos para a sede da Missão e dali fomos para outra casa (Farol). Ouvem-se tiros com alguma regularidade.

À meia-noite fomos ao Museu assistir ao escrutínio, que afinal iria durar toda a noite para os resultados serem anunciados de manhã. O resultado já se adivinhava. Durante a noite continuam a ouvir-se tiros.

4 de Setembro. O resultado é anunciado. Os Timorenses recusaram a autonomia. Timor vai ser uma nação independente. Os Timorenses que se encontravam em casa choravam silenciosos de alegria. Não se ouviam manifestações de júbilo, ninguém veio para a rua comemorar. Afinal tantos anos à espera deste dia e ninguém sai à rua festejar? Percebia-se porquê.

Novamente por sugestão da polícia abandonámos a casa onde estávamos e fomos para a sede da Missão Portuguesa. As ruas de Dili estavam completamente desertas. Num dia como este, ninguém comemora, ninguém festeja.

Por voltas das 13.30h ouvem-se tiros. Eram as milícias que, junto ao portão, estavam a disparar contra os jipes que vinham de Bemore. Estes conseguiram entrar sem problemas de maior. Os tiros continuaram. Um dos polícias que nos estava a guardar informa que as milícias queriam um jipe dos nossos. "Como? Então vocês não os prendem?", interrogamos. "Eles querem o jipe, vocês têm que dar o jipe", insistia o polícia. Demos-lhe a chave do jipe e ele de imediato entregou-a a um dos membros das milícias. Este arranca com o jipe. Pouco tempo depois ouvem-se de novo tiros. Volta o polícia dizendo que eles queriam outro jipe. "Não, já chega! Não há mais jipes para ninguém". Levámos os Timorenses que estavam connosco para o andar de cima, agarrámos no que estava à mão, paus e ferros, fizemos "cocktails molotov", guardámos portas e janelas, e estávamos prontos para o que desse e viesse. Os tiros continuavam. Eis que chega um brigadeiro da polícia, entra em casa e com a maior das calmas diz: "Smile, smile. Everything is fine...". Dirige-se ao frigorífico, tira uma garrafa de água, serve-se de uns bolos que estavam em cima da mesa e sorri.

Tudo isto começava a fazer sentido. Afinal tratava-se de um plano com uma orientação global de acção, estava tudo estudado ao milímetro. O que eles queriam era juntar-nos a todos, enfiar-nos na UNAMET e fazer a "matança" sem olhos curiosos por perto.

O brigadeiro aconselhou-nos a levar água. Percebemos que íamos para a UNAMET. Negociámos a saída dos Timorenses que estavam connosco. Quando saímos as milícias já tinham desaparecido. No caminho pudemos ver que estava tudo literalmente queimado.

Nas instalações da UNAMET havia refugiados por todo o lado. Olhavam para a montanha. Havia gente a movimentar-se lá em cima. Conseguimos uma ração de combate por volta das dez da noite e dormimos em cima de duas cadeiras.

Contava-se que por toda a cidade havia "matança" com rituais sinistros. Ouviam-se tiros.

5 de Setembro. Disseram-nos que saímos cedo para o aeroporto. Pusemos os jipes lá fora, mas não havia sinais de escolta. Ouvem-se tiros, voltámos a por os jipes cá dentro. Perto das dez horas fizemos uma coluna com os nossos jipes e com outros da UNAMET e arrancámos em direcção ao aeroporto. Dili estava completamente destruída, não se via ninguém na rua. Muitos tinham fugido para as montanhas, os restantes refugiaram-se na UNAMET. Uns e outros abandonados pela comunidade internacional que, no fim de contas, os convidou para uma festa, mas acabou por enfiá-los na boca do lobo. Por mim senti vergonha de pertencer a este mundo, entristeci por nada poder fazer...


José Luís Ferreira,
membro da Direcção Nacional do Partido Ecologista "Os Verdes".

 
 


(A palavra indonésia aparece intencionalmente escrita em minúsculas.)

 

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