Apologistas dos ideais românticos ou não, partimos
durante o crepúsculo matutino, de Vilela da Cabugueira com destino à
pátria de "nuestros hermanos". Era o dia 20 de Agosto e éramos cinco: Natalina
Dias, Valdemar Chaves, José Alegre, Rui Pedro e eu.
O espírito de aventura era grande e o entusiasmo ainda maior. No
entanto, após a troca de umas escassas e tímidas palavras, tanto eu como o
Rui, ocupantes da retaguarda do veículo que nos transportava, resolvemos concluir o
sono interrompido ainda no reino da noite.
Depois de uma curta paragem para cumprir algumas necessidades fisiológicas,
e a passagem por Rianho, onde se evidencia já o relevo montanhoso, chegámos
a Arenas de Cabrales.
Aqui almoçámos e daqui partimos para Collado Pandiliano, o
último lugar acessível por automóvel. Abandonamos a carrinha e iniciamos
a subida até ao refúgio de montanha, onde pernoitaríamos e findaria a
primeira etapa.
Concluída a lógica distribuição do material
que iria ser indispensável para a escalada, era dada a altura de pormos à
prova a nossa resistência física com uma pesadíssima mochila às
costas e um percurso pedestre com aproximadamente 7 km a separar-nos do objectivo desse dia.
Entre algumas recitações poéticas de Pessoa
(ortónimo e heterónimo) e algumas paragens, necessárias para folgar e
abastecer o nosso fatigado corpo, a caminhada, que se esperava de uma dureza terrível,
foi-se-nos tornando estoicamente suportável e até aprazível.
A dada altura, os pensamentos, um pouco conturbados pelo desgaste
físico e pelo espesso nevoeiro que pesava sobre nós, dissiparam-se, pois,
subitamente o nevoeiro apeou-se. Um estado de ansiedade invadiu-me. O Naranjo de Bulnes,
nosso objectivo, era já, não uma miragem, mas uma realidade perceptível
a olho nu.
A noite caiu e, após inúmeras vezes termos perguntado,
motivados pelo cansaço, quanto faltava percorrer, alcançámos o
céu... Perdão, o refúgio. Libertados das supliciantes mochilas e desejosos
de doar ao nosso corpo o merecido descanso, rapidamente montámos as tendas onde
dormiríamos, excepto o Valdemar, que cedeu à apetência de dormir ao
relento.
Sem saber o que o dia seguinte me reservava, mas na ânsia de viver o
inesperado, a noite tornou-se-me longa. Entretanto o dia chegou e com ele um sol luzente.
Pelo menos era esta a sensação adquirida do interior da tenda onde dormitei,
e tal confirmou-se quando sai para o exterior. Aí, bem ao nosso lado, deparava-se-nos,
com supremacia, e ostentação a elevação Naranjo de Bulnes. Foi-me
então possível, pela primeira vez, ver in loco aquilo que me tinha
proposto escalar.
Depois de tomar o pequeno almoço havia que proceder-se à
selecção minuciosa dos apetrechos necessários, tendo em conta que o
objectivo era passar a noite no cume do Naranjo, e absolutamente indispensáveis,
atendendo às dificuldades que adviriam na escalada devido ao excesso de bagagem.
A perfeição do meio envolvente permitiu-me ascender a uma
outra dimensão, um outro mundo: o mundo do montanhismo. Mundo onde prevalecem conceitos
universais de respeito, simpatia, humildade e até amizade, não só para
com o homem, mas também para com a natureza.
O espírito de grupo era grande. O afecto e a harmonia dominavam.
Foi com estes sentimentos que partimos, a pé, é claro, contornando o pilar
com que nos deparávamos. Apesar de o percurso ter fases de difícil
ascensão, tudo se superou, e após algumas horas percorridas, sentámo-nos
para almoçar, defronte daquela que seria a via que nós escalaríamos,
de seu nome "Directa de los Martinez".
Terminado o almoço, do qual constou um saboroso salpicão
caseiro e o restante de outro, era dada altura de nos aproximarmos do início da via
e aguardar pela nossa vez. Preparámos o material para subir a via, considerada
fácil pelos entendidos, mas com um ar intimidador para quem ousava escalar pela
primeira vez na vida. Apesar disso, força de vontade não faltou, e mal o
primeiro a partir (o Valdemar) alcançou a primeira reunião, eu, energicamente,
iniciei a minha longa e árdua ascensão. Percorridos três ou quatro metros,
o desgaste, físico e psicológico, era evidente. Era dado o momento de
começar a pensar e a agir mais pausadamente, evitando assim o cansaço —
conselho daqueles que me apoiavam cá de baixo, sobretudo o José e o Rui.
Atendendo ao número de escaladores que éramos e, sobretudo,
à minha inexperiência, o tempo passou rapidamente. O cair da noite apanhou-nos
na subida, e o percurso tornava-se mais difícil. Principalmente para o Rui e a Natalina
que eram os últimos da cordada. Todavia não me posso esquecer da ajuda preciosa
do magnífico luar que nos iluminava a via, ainda que insuficientemente. Entretanto
uma espécie de redobramento das forças pareceu abater-se sobre os colegas que
me sucediam, dada a ligeireza e aparente facilidade com que chegavam às reuniões.
Pelo caminho, os muitos escaladores que já desciam em rappel
ficavam surpreendidos com a nossa intenção de pernoitarmos lá em cima.
"Dormir arriba?!!", perguntavam espantados.
Com algum sacrifício acabámos por chegar ao cimo, onde o
vento frio enregelava o nosso amigo Valdemar, que de imediato se enfiou no seu saco-cama.
Sem grande tempo para as emoções de ter chegado ao cume, procurámos o
sítio onde iríamos bivacar, transportámos para lá as mochilas e
tratámos de tornar mais aconchegante o bivaque onde ficaríamos. De seguida,
rapidamente se estenderam as esteiras e cada um enfiou-se no seu saco-cama.
Depois de comermos e bebermos alguma coisa, já deitados, paralelamente
e voltados para o céu, no exíguo terreno disponível no alto do Naranjo
de Bulnes, ainda houve espaço para uma discussão acerca da
localização da estrela Vega. Um dos interessados investigadores do astro em
causa revelou, a dada altura, que tinha identificado, naquele emaranhado fantástico
de pontos de luz, um triângulo de quatro estrelas. Houve gargalhada geral, mas,
minutos volvidos concluiu-se que os intervenientes tinham ambos razão, num dos lados
do clássico triângulo brilhava uma quarta estrela.
Com o raiar do dia, o sol, que começava a nascer, ia incidindo nos
nossos rostos. Uma sensação orgástica era o que provinha do
espectáculo que eu presenciava e do olhar que lançava às montanhas em
redor, sabendo-me mais alto do que todas. Que loucura... Não há palavras que
descrevam este sentimento. Pura e simplesmente se vive e sente.
Após tomarmos o pequeno almoço, era dado o momento de
ascendermos até ao ponto mais alto do Naranjo, com 2519 metros de altitude, para
aí festejarmos, solidariamente, os dez anos da primeira ascensão ao Naranjo
por parte do nosso amigo José Alegre. Alegre mesmo. Feita a comemoração
com um brinde de champanhe adocicado, trocámos algumas impressões com dois
espanhóis madrugadores que acabavam de subir e que ficaram estupefactos ao nos verem.
— Por onde subistes?
— Pelo mesmo lugar que vós — respondeu um dos nossos.
— Quando?
— Ontem — volveu o mesmo.
— Ahh!... E dormistes aqui?!!
— Sim.
— "Que bien!!!"
Arrumadas as coisas, começámos a descer. Feitos aproximadamente
cem metros, começou a ouvir-se, distante de nós, alguém falar a nossa
língua. Ironia do destino, o Rui, depois de perguntar a quem falava o nosso idioma
se eram portugueses, encontrou neles um amigo seu do tempo dos escuteiros, que já
não via há sete anos.
Prosseguindo o caminho, chegámos à reunião onde
iniciámos a descida em rappel, coisa que no dia transacto eu dissera temer
mais do que a escalada. Puro engano, para baixo todos os santos ajudam e aquilo que parecia
difícil tornou-se no mais fácil. Horas depois, retornávamos, em sentido
inverso, o carreiro percorrido no dia anterior e que nos levou até ao refúgio,
onde pernoitámos.
No dia seguinte, restabelecidas as energias perdidas, partimos em busca da
intacta aldeia de Bulnes. Entre imprevistas quedas e uma torção de pé
do Rui, chegámos ao paraíso perdido entre as montanhas no maciço
central dos Picos de Europa. Daí, sempre por um carreiro paralelo a paisagens
edénicas, seguimos para Poncebos, onde findaria a aventura dos cinco magníficos.
Passe a imodéstia.