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| um jornal? uma revista? | ||||
| edição n.º 9 | anacrónicas | [3] | fernando gouveia | |
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editorial anacrónicas 3
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ilustração de Carla Santos |
Time sharing, por supuesto
Foi não sem hesitar que me decidi a abordar o assunto que hoje trago à vossa apreciação. Alguns, zelosos do âmbito transmontano do jornal, argumentarão não ser este o fórum apropriado, mas enquanto não é criada a versão alentejana do Eito Fora (que será, está bom de ver, o Êtû Fôrã...), terão de se conformar as mentalidades mais (geográfico-)limitadas... Apresento, pois, aqui, o meu contributo para a resolução, a contento de todos, do "escândalo" das touradas de morte em Barrancos, que dominou o estio político lusitano. A questão principal, a meu ver — deixando para outra altura argumentos pró ou contra como a tradição ou a crueldade subjacentes às touradas (de morte ou não) —, a questão principal, dizia, é decidir se será prudente criar uma lei de excepção para Barrancos. Defendida por alguns, esta solução teria pelo menos a vantagem de serenar as almas barranquenhas; de resto, é na prática o que se tem passado desde há décadas, pois sempre se soube que a lei não era cumprida naquela vila raiana, e nunca se fez nada para evitá-lo. Inconveniente não desprezável: seria um precedente perigoso — e, creio, inconstitucional — criar leis não aplicáveis à totalidade do território nacional. Mas há luz ao fundo do túnel e — vá lá saber-se por quê! — foi a mim que foi dado vê-la... As palavras mágicas que salvarão a face do Estado de Direito que Portugal diz ser são: “time sharing”. Isso mesmo, estas duas palavras inglesas, fonte de tantas dores de cabeça algarvias, vêm agora em nosso socorro para nos livrar do lumbago barranquenho. É simples: Portugal e Espanha assinariam o primeiro contrato internacional de time sharing com carácter jurídico-territorial, garantindo à Espanha a soberania sobre Barrancos durante os preparativos e o decorrer das festas da vila. A legalidade estaria, deste modo, assegurada. (Passo seguinte, se a Espanha fosse na conversa: ser-nos-ia cedida Olivença nos dias 10 de Junho, o que muito aprazaria às angustiadas hostes nacional-patrioteiras.) De resto, o time sharing jurídico-territorial poderá vir a ser o remédio santo para a maior parte dos conflitos ditos “regionais” que grassam um pouco por todo o Mundo. Para quê terras-de-ninguém, paralelos-trinta-e-tal, mapas cor-de-rosa ou cortinas-de-ferro? Peguemos mas é no calendário e vamos lá acertar umas datas... Não mostrou Einstein que tempo e espaço são faces da mesma moeda? |
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transmontano sem preconceitos |
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