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edição n.º 9 anacrónicas [3] fernando gouveia  
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Colaboradores neste número: Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, Carla Santos, Dina Cruz, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Gil Silva, Luísa Costa, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves, Manuel Guimarães, O. Moscardov, Paula Pestana, Paulo de Carvalho, Paulo Mourão, Pedro Martins Colaço, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós

ilustração de Carla Santos

ilustração de Carla Santos
Time sharing, por supuesto


Foi não sem hesitar que me decidi a abordar o assunto que hoje trago à vossa apreciação. Alguns, zelosos do âmbito transmontano do jornal, argumentarão não ser este o fórum apropriado, mas enquanto não é criada a versão alentejana do Eito Fora (que será, está bom de ver, o Êtû Fôrã...), terão de se conformar as mentalidades mais (geográfico-)limitadas...

Apresento, pois, aqui, o meu contributo para a resolução, a contento de todos, do "escândalo" das touradas de morte em Barrancos, que dominou o estio político lusitano.

A questão principal, a meu ver — deixando para outra altura argumentos pró ou contra como a tradição ou a crueldade subjacentes às touradas (de morte ou não) —, a questão principal, dizia, é decidir se será prudente criar uma lei de excepção para Barrancos.

Defendida por alguns, esta solução teria pelo menos a vantagem de serenar as almas barranquenhas; de resto, é na prática o que se tem passado desde há décadas, pois sempre se soube que a lei não era cumprida naquela vila raiana, e nunca se fez nada para evitá-lo. Inconveniente não desprezável: seria um precedente perigoso — e, creio, inconstitucional — criar leis não aplicáveis à totalidade do território nacional.

Mas há luz ao fundo do túnel e — vá lá saber-se por quê! — foi a mim que foi dado vê-la...

As palavras mágicas que salvarão a face do Estado de Direito que Portugal diz ser são: “time sharing”. Isso mesmo, estas duas palavras inglesas, fonte de tantas dores de cabeça algarvias, vêm agora em nosso socorro para nos livrar do lumbago barranquenho.

É simples: Portugal e Espanha assinariam o primeiro contrato internacional de time sharing com carácter jurídico-territorial, garantindo à Espanha a soberania sobre Barrancos durante os preparativos e o decorrer das festas da vila. A legalidade estaria, deste modo, assegurada. (Passo seguinte, se a Espanha fosse na conversa: ser-nos-ia cedida Olivença nos dias 10 de Junho, o que muito aprazaria às angustiadas hostes nacional-patrioteiras.)

De resto, o time sharing jurídico-territorial poderá vir a ser o remédio santo para a maior parte dos conflitos ditos “regionais” que grassam um pouco por todo o Mundo. Para quê terras-de-ninguém, paralelos-trinta-e-tal, mapas cor-de-rosa ou cortinas-de-ferro? Peguemos mas é no calendário e vamos lá acertar umas datas...

Não mostrou Einstein que tempo e espaço são faces da mesma moeda?


fgouveia@periferica.org

 
 


Leia este texto (e muitos outros) também na Secret’Área, o refúgio literário de Fernando Gouveia.

 

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