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Colaboradores neste número:
Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, Carla Santos, Dina Cruz, Eugénio
Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Gil Silva, Luísa Costa,
Luís C. Teixeira, Manuel Chaves, Manuel Guimarães, O. Moscardov,
Paula Pestana, Paulo de Carvalho, Paulo Mourão, Pedro Martins Colaço,
Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós
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Lúgubre
Há palavras que não se devem proferir depois
das dez da noite, diz um experimentado amigo. Lúgubre é uma delas. Comumente.
Idiossincrasia. Efervescente. São outras. Mas há mais. Paralelismo,
indestrutível, vicissitudes, obstaculizar, interdisciplinar, fogareiro, execrável.
Inverosímil também. Palavras de difícil articulação. A
língua dirige-se para o palato, dobra-se e tropeça. Nos dentes, nas concavidades
bucais. Sobra língua.
Em situação descontraída, naqueles momentos em que se
fala desapaixonadamente, até que saem com naturalidade se houver algum treino adquirido
para proferir palavras inusitadas como a postremeira. Mas situações há
em que são totalmente desaconselhadas. Por exemplo, no decorrer de um debate acalorado,
quando se luta por um ponto de vista com um gládio na alma, pode acontecer um atropelo
na articulação, um engasganço que diminui consideravelmente a supremacia
sobre o adversário. Olha-m'este gajo que nem falar sabe! Para precatar
tão vexatória ocorrência, devem-se fazer pausas na argumentação.
Os velhos truques dos retóricos. Os verdadeiros, os do antigamente, diz-se que puxavam
a caixinha de rapé e, em dados momentos antecipadamente estudados, sorviam uma pitada
para logo de seguida atacarem a lava argumentativa com uma interrogação ou uma
exclamação de tal modo imprevisíveis que os interlocutores se rendiam
numa retumbante salva de palmas, erguidos dos seus assentos, com Apoiados e Vivas
que deixavam o nosso orador em pose orgástica! Divino! Tempos que já lá
vão! Nos hodiernos, não há caixinha de rapé, nem oradores que
esgrimam o seu talento na eleição das palavras. Os debates são frouxos,
consensuais, tudo muito morno, as paixões, todas, mesmo as das palavras, são
luxos perigosos, é melhor não se comprometer.
Deixemos o assombro luminoso dos retóricos e passemos à
vidinha que é a coisa mais certa que temos além da morte, mas esta entra nos
insondáveis desígnios divinos. Na vidinha não precisamos de palavras
difíceis. A vidinha é bem mais simples — Tudo bem? Tamos nessa! Ôi,
que cara é a tua, pareces que vens dum enterro! Tou na minha, pá, fica na tua!
Curtes? Viste a garina a rir-se para mim? Donde é que conheces a tipa? Eh pá,
vamos beber um copo. Um copo não é nada, como toda a gente que cultiva
esta actividade sabe. A um copo seguem-se muitos. E então é que são
elas. Há aqueles para quem a bebida acentua o genuíno prazer de falar e
então nunca mais se calam; há quem, no estado sóbrio, não fale
e aproveite a ocasião para se desforrar; há outros, mais raros, que lhes
dá para um mutismo sonambulesco. Estes não correm perigos. Os outros, sim.
Querem dizer e a língua atrapalha-se, sobretudo porque nestas alturas vêm ao
de cima, sabe-se lá porque poderes enólogos, os tais palavrões
difíceis. Verdade seja dita que ninguém repara. A dificuldade é comum.
O mais que pode acontecer é o parceiro desatar a rir. O que só aumenta a
ificuldade articulatória. Então, os infaustos vocábulos que inauguram
este mísero texto, vêm à tona e ó meu deus, que de escolhos se
erguem na fala do parceiro que só foi beber um copo e que, pela sã alegria do
convívio, bebeu mais alguns e agora tanto queria argumentar com finas palavras e
tanto se lhe enrola a indomável língua! E os outros a gozar repetindo o dito
malévolo que ouviram em meninos — quer dizer tá tá e não lhe
chega a língua. |
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