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edição n.º 9 anacrónicas [1] manuel guimarães  
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Colaboradores neste número: Anabela Pinto, Anabela Ribeiro, Carla Santos, Dina Cruz, Eugénio Branco, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Gil Silva, Luísa Costa, Luís C. Teixeira, Manuel Chaves, Manuel Guimarães, O. Moscardov, Paula Pestana, Paulo de Carvalho, Paulo Mourão, Pedro Martins Colaço, Rui Duarte, Troglodýtes Troglodýtikós

cartoon de Paulo Araújo

cartoon de Paulo Araújo
Orelhas a arder


Era capaz de estar horas ao telefone, é uma terrível fonte de inspiração. Outra forma de erotismo. Dizem. Passam linhas pelas orelhas. Daquilo que se ouve, se diz que é vital para o conhecimento das coisas. Como se pode viver, sem saber que a princesa Kabrovska teve uma prisão de ventre? Ou que Broxovsky marcou dois golos? Ou que a Vivian acabou o namoro inesperadamente?

Só ao telefone é possível comentar todo este suporte cultural, o tempo, a saúde, tudo é controlado ao telefone, com as orelhas a arder.

Era capaz de estar horas ao telefone. Dizem. Que eu, para falar bem e depressa, bem o dispenso para além do tempo necessário. Mas há quem faça profissão disso, não remunerada, há quem passe anos ao telefone sem nada para dizer que não sejam os ovos da galinha, a cabra que pariu, eu sei lá, os preços do detergente, se a Maria se verteu e com quem e por onde, como estará o tempo amanhã, quantas grávidas aparentes no concelho, no distrito, no mundo...

Importa conhecer as razões que levaram Kagarovsky a telefonar ao seu contacto em Chicago para lavar divisas. Tudo se lava neste vale de lágrimas, porque a lei protege o criminoso. A lei promove o crime, respira dele para viver. A lei e todos que à sua custa vivem.

E as orelhas a arder, a sensualidade dessas vozes ao telefone, as linhas eróticas, as linhas publicitárias, as linhas porcas... Era capaz de estar horas ao telefone. Dizem. A falar do ordenado mínimo, dos mercedes, do jet set, da quinta da marinha, da marinha que os pariu, dos milhões do futebol, dos trocos dos funcionários públicos, dos trocos dos privados, da massa que gastam em futebol para meia dúzia se enfartar à conta dos asnos, dos ferraris, dos iates, dos bairros de lata, dos africanos, dos ciganos, dos chulos, dos oportunistas, dos ladrões, do grande país, da grande nação, todos contentes a rasgar vísceras uns aos outros, do vaticano e seus tráficos de pó e armas, da iurd que sonha ser vaticano, da maçonaria que trafica tudo, dos broches do clinton que são os broches da américa inteira, do mau tempo em agosto, das férias (quais férias?), da gente que não sabe estar sem trabalhar porque quando trabalha não pensa e por isso descobre nas férias que o seu grande drama é não saber pensar (e ainda bem, dirão alguns...).

E as orelhas a arder. Era capaz de estar horas ao telefone. Dizem-me. A falar disto tudo? Pergunto eu...


guimaraes@portugalmail.pt

 
 


 

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