Era capaz de estar horas ao telefone, é uma
terrível fonte de inspiração. Outra forma de erotismo. Dizem. Passam
linhas pelas orelhas. Daquilo que se ouve, se diz que é vital para o conhecimento
das coisas. Como se pode viver, sem saber que a princesa Kabrovska teve uma prisão
de ventre? Ou que Broxovsky marcou dois golos? Ou que a Vivian acabou o namoro inesperadamente?
Só ao telefone é possível comentar todo este suporte
cultural, o tempo, a saúde, tudo é controlado ao telefone, com as orelhas a arder.
Era capaz de estar horas ao telefone. Dizem. Que eu, para falar bem e depressa, bem o dispenso para além do tempo necessário. Mas há quem faça profissão disso, não remunerada, há quem passe anos ao telefone sem nada para dizer que não sejam os ovos da galinha, a cabra que pariu, eu sei lá, os preços do detergente, se a Maria se verteu e com quem e por onde, como estará o tempo amanhã, quantas grávidas aparentes no concelho, no distrito, no mundo...
Importa conhecer as razões que levaram Kagarovsky a telefonar ao seu contacto em
Chicago para lavar divisas. Tudo se lava neste vale de lágrimas, porque a lei protege
o criminoso. A lei promove o crime, respira dele para viver. A lei e todos que à sua
custa vivem.
E as orelhas a arder, a sensualidade dessas vozes ao telefone, as linhas
eróticas, as linhas publicitárias, as linhas porcas... Era capaz de estar
horas ao telefone. Dizem. A falar do ordenado mínimo, dos mercedes, do jet set, da
quinta da marinha, da marinha que os pariu, dos milhões do futebol, dos trocos dos
funcionários públicos, dos trocos dos privados, da massa que gastam em futebol
para meia dúzia se enfartar à conta dos asnos, dos ferraris, dos iates, dos
bairros de lata, dos africanos, dos ciganos, dos chulos, dos oportunistas, dos ladrões,
do grande país, da grande nação, todos contentes a rasgar vísceras
uns aos outros, do vaticano e seus tráficos de pó e armas, da iurd que sonha
ser vaticano, da maçonaria que trafica tudo, dos broches do clinton que são
os broches da américa inteira, do mau tempo em agosto, das férias (quais
férias?), da gente que não sabe estar sem trabalhar porque quando trabalha
não pensa e por isso descobre nas férias que o seu grande drama é
não saber pensar (e ainda bem, dirão alguns...).
E as orelhas a arder. Era capaz de estar horas ao telefone. Dizem-me. A
falar disto tudo? Pergunto eu...
guimaraes@portugalmail.pt