edição n.º 20 |
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reportagem [2]
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TEXTO: maria filomena e f. gouveia
FOTOGRAFIAS: fernando gouveia |
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José D'Almeida
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O melhor amigo do cão
Percorríamos o leito assoreado de Codessais numa manhã de Domingo, quando dois pastores
alemães nos cortaram o passo. Aquilo que parecia simplesmente uma louca correria era afinal um exercício orientado
por quem vinha mais atrás, e que depois soubemos ser José Almeida, professor de Educação Física
na Escola Diogo Cão de Vila Real e criador de cães. Logo ali se travou uma conversa sobre canídeos, humanos e
outros animais irracionais, que de irracionalidade se fala também quando o assunto nos leva para o "apuramento de
raças", as exposições caninas e as lutas clandestinas.
O primeiro de que um desconhecido se apercebe quando troca duas palavras com o professor José Almeida
(ou José D'Almeida, como é conhecido lá fora no meio da canicultura) é a sua profunda paixão
por tudo o que se relaciona com o mundo do cão, e do pastor alemão em particular. Tudo começou na
infância, com os filmes do Rin-Tin-Tin, de que lhe ficou também o gosto pelos cavalos. Nas lides da
criação de cães estreou-se há vinte e quatro anos. Passou pelo dogue alemão, que não
recomenda: «São cães muito bonitos, mas têm três problemas: são caros, comem o dobro dos outros e
morrem cedo.» Depois foram os collies, que «não têm nada a ver com o que vem nos livros: são extremamente
cobardes, embora seja verdade que são muito amigos das crianças.» Hoje continua a ter rottweilers, dobermanns e pit
bull terriers, mas não para criação de alto nível. Aí dedica-se exclusivamente ao pastor
alemão, a raça que sempre lhe chamou mais a atenção.
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José D'Almeida e Ricky,
cachorro filho do campeão
do mundo, Ursus von Batu.
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A trilogia do sucesso: rigor, método e trabalho
Interrogado sobre o que faz um bom pastor alemão, José D'Almeida é peremptório:
«Na Alemanha há três coisas que são fundamentais: o rigor, o método e o trabalho. E não brincam.»
(Por momentos pensamos escutar a receita para os males de que enferma o sistema educativo nacional, mas é ainda de
cães que se fala.) São as regras indispensáveis a quem aposta no carácter, deixando para segundo plano
os critérios puramente estéticos, aliás muito sujeitos a modas. «Na Alemanha não é o cão
mais bonito que ganha as provas. Acima de tudo o cão deve ser funcional, prático.» Esta revalorização
do carácter face à beleza é ainda recente: «Quando o cão começou a ser muito popular a seguir
à II Grande Guerra, e depois a Polícia começou a dizer que era o cão mais completo, tudo vendia — era
moda, não é? —, mas caiu-se na desproporção: esqueceram a qualidade, começaram a nascer
cães tímidos, irrequietos.» A recuperação vem sendo feita nos últimos vinte anos pelos grandes
criadores alemães e «neste momento posso garantir que a nível mundial só três ou quatro por cento dos
pastores alemães é que têm o carácter antigo, inicial.»
E Portugal? «Anda atrasado trinta anos: nem um cão que ande em exposições em Portugal tem
qualidade para passar o nível mínimo. Porque o Português é vendedor por excelência: quer é
filhos de campeões, quer vender, vender, vender. Não pensam na qualidade, pensam no fenótipo: "Ai que
cão tão bonito!" — cá fora eles fogem-lhe.» E continua, em jeito de desabafo: «O que eu gostaria era que, um
dia mais tarde, cadelas ou cães nascidos aqui em Portugal fossem campeões lá fora, só que é
impossível enquanto não pertencermos à União Mundial», coisa que, segundo afirma, há muito
criador que não quer que aconteça, por causa do rigor imposto. «É por isso que eu tenho sociedade aqui ao
lado em Espanha [que pertence à União Mundial dos criadores de pastor alemão], e temos campeões.
É triste: cães nascidos em Portugal estão a dar fama aos espanhóis.»
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Outro exemplo do rigor alemão é o despiste da consanguinidade e da displasia da anca. Para evitar
a primeira, por exemplo, «neste momento na Alemanha é obrigatório todos os reprodutores fazerem o teste de ADN» para
apurarem a verdadeira paternidade dos cães, sendo desclassificados os filhos de "primos direitos", «e dentro de dois anos
em Espanha também vai ser obrigatório. Em Portugal é filhos com filhos, não há controlo.»
José D'Almeida assegura ser o único criador que, no nosso país, faz esse controlo, sendo obrigado a recorrer
ao laboratório da extensão de Lugo da Universidade de Santiago pois «temos um gabinete de genética, aqui na
Universidade [de Trás-os-Montes e Alto Douro], que só deve funcionar para plantas.»
Mas nem só de características inatas se faz um bom cão. Por isso José D'Almeida,
professor de Educação Física de humanos e canídeos, advoga um treino com uma exigente componente de
exercício físico, nunca esquecendo a vertente de socialização: «Os meus cães não
são criados em canil [isto é, fechados]. Têm um contacto muito grande com as pessoas logo desde que nascem.
Não vendo um cão com menos de 3 meses: quanto mais brincarem com a mãe, melhores serão no futuro. Se
pudesse, só os vendia com seis meses.» Depois vem a educação propriamente dita: «Nunca devemos bater a um
cão, porque o cão faz tudo para agradar ao dono. Tudo, tudo, tudo. Mas há uma hierarquia: ora, o cão
entra em casa e vai tentar "pôr a pata" no líder. Se nós com meiguice deixamos o menino subir para o
sofá, deixamos o menino fazer aqui as necessidades, deixamos o menino rosnar quando é pequenino — mais tarde vamos
tentar controlá-lo e ele vira-se a nós, porque ele é que é o líder. Por isso logo desde
pequenino temos de mostrar ao cão quem é que manda em casa, seja ele um pastor alemão, seja ele um caniche.»
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Cães e donos: perfis
Esta é a receita para obter aquilo que se entende por um bom pastor alemão: «Será um
cão que nós chamamos "com nervos de aço", inteligente, que saiba resolver a situação ideal,
é aquele que tem cinco caminhos e escolhe o melhor. Será um cão equilibrado, um cão que saiba
distinguir o bem do mal (isso não é fácil: isso é o dono que o vai fazer).»
E que defeitos se deve de todo evitar? «A agressividade, o ser tímido e ter falta de carácter.
Quando ele é tímido ataca por medo, o que é mais perigoso.» José D'Almeida relativiza, uma vez mais,
a responsabilidade do cão: «Tenho visto cães extremamente agressivos que se estiverem nas mãos das pessoas
certas são os melhores cães do mundo.» Por essa razão, «eu não vendo um cão a qualquer pessoa.
Primeiro quero saber para onde vai o cão, como é que ele se vai dar. O ideal seria um dono que perdesse um bocado
de tempo com o cão: há pessoas que têm quintas, que têm grandes espaços e têm os
cães presos, e há outras que vivem em apartamentos e os cães são felizes porque todos os dias fazem
quilómetros. Têm que ter tempo, doutro modo, não vale a pena ter um cão.»
Da condição canina
Inevitavelmente, chegamos à questão do que é preciso para melhorar a vida dos companheiros
de quatro patas. «Faz falta criar imediatamente canis municipais para apanhar os cães que andam por aí abandonados.
Depois, criar um gabinete veterinário só para esses cães, para então serem oferecidos a quem os
quisesse. Mas devidamente tratados. Com os cães perigosos, só há uma coisa a fazer: abatê-los. Mas
não da maneira brutal como fazem (choques eléctricos, às vezes à cacetada — há muita pessoa
maldosa, têm gosto nisso); uma injecção seria o ideal.»
José D'Almeida sublinha o problema de saúde pública que os cães podem representar e
aponta a distância entre a teoria e a prática: «A Lei portuguesa é das mais avançadas que existem a
nível mundial. Perante a Lei, todo o cão, seja grande, seja pequeno, tem que andar de trela e açaime. Neste
momento, a única coisa que eles exigem [de facto] é a vacina da raiva, o que é uma palhaçada: a raiva
já há muitos anos que está erradicada em Portugal. (Só querem a raiva porque os veterinários
entram aí...) Esquecem-se de um pormenor: os cães todos têm de ser desparasitados, porque o cão,
através da urina, através da língua, é foco de doenças.»
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Dois campeões da sobrevivência
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Raças portuguesas
Queremos também ouvir José D'Almeida sobre as raças portuguesas. É-nos recordado
que, reconhecidas oficialmente, são oito (o castro-laboreiro, o serra-da-estrela, o cão-de-fila de São Miguel,
o rafeiro alentejano, o cão-de-água, o perdigueiro, o podengo e o serra-de-aires), estando em fase de reconhecimento
o rafeiro de Trás-os-Montes.
O cenário apresentado é aquele que se esperava, sendo mais uma vez o dedo apontado aos criadores,
que fizeram a selecção em termos de beleza, mas destruíram as qualidades e as diferenças de cada
cão. «Por exemplo, o serra-da-estrela era um cão feroz e independente, neste momento passou a ser um peluche, perdeu
os seus instintos todos (já não há lobos...). O castro-laboreiro é que bateu mesmo no fundo e vai ser
muito difícil recuperar isso. O cão-de-água, se não fossem os americanos a recuperá-lo... Se me
perguntar qual é o cão que ainda se aproxima daquilo que era importante, o carácter, para mim talvez o
serra-de-aires — o que ainda está a trabalhar. O cão-de-fila de São Miguel também ainda está
bom, mas como é um cão de fila, é considerado perigoso.»
Combates clandestinos
A referência a cães perigosos leva a conversa para aquilo que parece ser uma moda: a
profusão de rottweilers e pit bull terriers. José D'Almeida não tem dúvidas: «Neste momento há
rottweilers com fartura porque há muitos combates clandestinos. Não estão para lutar dois pit bulls, metem um
pit bull com um rottweiler. E então as apostas são feitas: quanto tempo dura o rottweiler? Quantas mordidelas
dá o rottweiler ao pit bull?» O quê, mas então também há combates de cães em Portugal?
«Tenho dois pit bulls e já me vieram a casa pedi-los emprestados para combate, para apostas. Em geral são pessoas de
grandes posses que fazem isso. Há ali quintas na zona de Gondomar, na zona da Póvoa de Varzim, de Gaia, da Maia,
onde todos os fins-de-semana há combates com apostas de alto nível. E as autoridades sabem isso. Inclusive
polícias também têm cães para essas coisas.»
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filomena@periferica.org
fgouveia@periferica.org

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EITO FORA: transmontano sem preconceitos
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