edição n.º 20 |
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reportagem [1]
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TEXTO: rui a. araújo, c. chaves, v. nogueira *
FOTOGRAFIAS: arquivo de pyjammes |
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1965: No Café Imperial
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Eu quero o meu pyjama!
Convidação
Os Pyjamantes — Agremiância
Filantrópicò-Gastronómicò-Culturalò-Folcatróliò-Individualistò-Colectivistò-Antiprò-Próanti
& o + que adiante se ouverá, convida(m) os seus resplandecentes agremiados mai-lo apagadote e merencório resto
habitacional da Bila a assistirem à descerramentação de duas polacas a modos que toponímicas na Esquina
da Gómes.
— E a que horas é a acontecimência? — perguntam as gentes, temerosas, esgazeadas e boquiabertas (e o caso
não é para menos... diga-se em abono da pura da verdade).
É lusopontualmente por volta das 17h00 do dia 29 de Novembro, que este ano, por excepção e a pedido,
calha a um sábado, antevéspera de segunda-feira.
— E há vuncha? Há comezibebes? — interrogam, com os olhos como pratos ladeiros, os famélicos, sequiosos
e chupados-das-carochas escassos 0,5% da população da opulenta Bila.
Bem!... Se prometerdes que não sois mais do que os tais 0,5%... — HÁ!
Mas não julgueis que vai dar pra vos alambazardes e encherdes as moafas!
Somos bons mas num somos pais de pançudos!
Eia, pois! Comparecei, ó gentes do meu bairro!
(De papo cheio, qué pra num fazerdes fraca figura...)
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2001: Na Viúva
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Em Novembro de 1997, na excelsa Voz de Trás-os-Montes, publicava-se o curioso anúncio que se reproduz acima.
A "convidação", mais do que uma brincadeira de engraçadinhos, era um honesto manifesto de intenções.
No exacto dia e, lusopontualmente, à hora marcada, um grupo de maduros com idade para ter juízo, mas felizmente
sem ele, descerrava duas "polacas" na esquina da Gómes. As "polacas" homenageavam a presença da veneranda
pastelaria naquele preciso local da Bila desde 1951. Aparentemente, tratava-se de um vulgar acontecimento numa cidade que preza a
sua história. Mas só aparentemente, porque, vistos mais de perto, os homenageadores, ao invés do fato-e-gravata
das cerimónias e casamentos, trajavam vistosos pijamas de seda (ou coisa parecida), e o discurso inaugurador extravasava
muito em espírito e carácter o que é hábito em ocasiões semelhantes.
O grupo, farto de bigodes e barrigas, idade venerável, ou pelo menos respeitável, ostentada nas
cãs, reunia-se em volta do orador para descerrar placas e lembrar a história — mas, mais do que isso, os Pyjamantes
(assim se denomina o grémio) reuniam-se para fazer a história. Aquele era só mais um último
sábado de Novembro, o traje era o habitual dos últimos sábados de Novembro desde 1956 e o discurso
era apenas mais um dos muitos produzidos pelos Pyjamantes, que ficarão para a posteridade como os únicos que
prestaram verdadeiro preito e souberam visionar e sublimar as grandezas da Bila.
Antes de mais explicações sobre tão excêntrica "tripulação", espraiemos
os olhos pelo afamado discurso:
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1997: Na esquina da Gómes
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Minhas senhoras e... restantes indivíduos,
Nesta hora magnânima — que, se não fosse o meu natural pudor, eu me atreveria a classificar de
cronológica, sabendo embora das reacções negativas e hipodérmicas que tão arrojada
adjectivação suscitaria — nesta hora hiperbólica — e, porque não afirmá-lo, metafísica,
já que as palavras são para se dizer na altura e no contexto próprios, por muito que isso vá ferir os
caracteres tíbios e susceptíveis que habitam as almas dubitativas, sem lhe pagar renda —, nesta hora capadócia
e, seja-me permitido o paradoxo, hipotética, considerações várias acodem à minha mente e querem
dar-se a conhecer.
Eia, pois! [N.R. Era deste modo que os restantes elementos da agremiação — a pyjamância,
como verdadeiramente se denominam os membros da coisa — mostravam perfeita sintonia com o orador. O leitor deve entrar no coro
sempre que as circunstâncias a isso obriguem. Eia, pois!]
É nessa ordem de ideias [...] de pura proveniência mental, que nós, os Pyjamantes,
plenamente conscientes das obrigações que nos impõe a nossa condição de colectividade prestimosa
[...], sobejamente conhecidos nas nossas casas e nas esquadras de polícia, apresentamos, unas e divididas, as POLACAS!
Vós, cidadãos machos da Bila, gozai-as bem gozadas, porque POLACAS assim só há duas:
São estas e mais nenhuas!
Eia, pois!
Ó gentes do meu bairro, quem, mais do que nós, os da Bila, pode gabar-se de ter duas POLACAS
como estas?!
Sim, porque recolhei-vos no vosso íntimo e meditai:
Haverá mais GOMES no mundo?
As nossas inteligências adormecidas despertam por um breve lapso de tempo cronológico e, revoltadas,
exclamam e protestam:
— Há, cus diabos, há mais GOMES no mundo!
Haverá mais GOMES no Burundi? Nas Berlengas? Nas ilhas virgens?
Aí já hesitais, porque duvidais de que ainda haja Ilhas e principalmente Virgens.
Fiai-vos no que eu vos digo, porque muitas e longas horas dediquei ao estudo deste momentoso assunto:
Gomes — há mais no mundo, isso é raça que se espalhou e deixou semente por toda a parte,
menos nas falecidas Ilhas Virgens, que morreram por falta de uso, coitadas!
Mas estava reservada à Bila, à nossa Bila, a suprema honra de ter
A ESQUINA DA GÓMES.
[...]
A partir deste momento resplandecente, a Esquina da Gómes está plenamente, fatalmente,
internacionalmente, paradigmaticamente, indiscutivelmente, tem gente (não, esta não é daqui...) identificada.
Elas aqui estão, as POLACAS, a assinalar, a indicar, a mostrar, a não permitir que o viandante,
o estrangeiro, o esquimó, o alienígena tenha dúvidas.
[...] Quem vier de fora nem precisa de saber ler: as POLACAS dizem-lhe:
A ESQUINA DA GÓMES... É AQUI!
[...]
Eia, pois!
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1976: No Excelsior
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Descerradas que foram as duas placas da esquina da Gómes (duas porque uma esquina tem dois lados,
como explicaram os Pyjamantes), façamos nós a história da sui generis agremiação
vila-realense.
Nos idos de cinquenta, os alunos do Liceu Camilo Castelo Branco celebravam o 1.º de Dezembro com um recital.
Àqueles que não pertencessem à Mocidade Portuguesa estava vedada qualquer actividade comemorativa, à
excepção de um baile no último sábado de Novembro, sempre que o vento estivesse de feição.
Por volta de 1956 (mais ano, menos anos, que já lá vai muito tempo...), um grupo de bardinos
(entre os quais Helder Machado, Carlos Fernandes, Albano e António Ribeiro de Sousa, Ascenso Gomes, Jorge Ferreira,
Raúl Branco Ribeiro e Jaime Tinoco) resolve jantar antes do esperado baile. Todos trajavam a rigor, e as consequências
da mais do que certa "javardância" para tão imaculadas fatiotas eram temidas. Daí a brilhante ideia de
"revestir" com previdente preservativo a trajância. Um pijama pode ser tão eficaz como o melhor fato-macaco,
com a excêntrica vantagem de não fazer o usuário descer tão baixo na escala social...
Por uma insondável apetência pelo ritual, de que Dionísio não estaria distante, os
rapazes decidiram que nos anos seguintes a pyjamância se repetiria. E assim foi com tal assiduidade e empenho que a
coisa se constituiu em confraria. De Pyjammes foi o nome de baptismo, inspirado numa outra agremiação de
fins mais caridosos...
Os anos foram passando, a confraria foi crescendo, o espírito orgíaco manteve-se. Mudava o local
onde a trupe se abrigava.
O restaurante Chaxoila teve honras de preferência, mas, desde a Marisqueira ao Asilo de Nossa Senhora
das Dores, desde a Toca da Raposa à residência do seu dono, o António, desde o Imperial ao restaurante
Montanhês, desde à Pensão Areias à Viúva, muitos foram os locais onde a pyjamância
ocorria. E ocorre. Esta reportagem não se deve confundir com uma espécie de memorial ou obituário — De
Pyjammes tem história longa, mas frescura de adolescente. O ano da graça de 2001 também teve o seu
último sábado de Novembro, e o de 2002 mal pode esperar.
O ritual de acolhimento de novos membros dos Pyjamantes envolve ritos que o pudor e a honra dos
participantes impedem de divulgar. Por esse ritual passaram, ao longo dos anos, nomes como António Cabral, Alfredo Branco
Ribeiro, Manuel Cardona, Frederico Amaral Neves (e outros figurões da sociedade vila-realense), pyjamâncias
hoje efectivas.
Em 1976 ("nu annus dois da rebulação"), a Agremiância
Filantrópicò-Gastronómicò-Culturalò-Folcatróliò-Individualistò-Colectivistò-Antiprò-Próanti
& o + que adiante se ouverá comemorava, por antecipação, as bodas de prata pyjammais.
Tratava-se do XX Congresso Internacional de Gastronomia, Dietética e Nutrição. Coube ao Excelsior a honra
de receber os emotivos momentos de retrospectiva e celebração. O mote era: "Recordar é beber". Foi
descerrada uma "polaca".
O begésemoqíntimo adbersário das Pyjamâncias foi também
comemorado no Excelsior e a ementa era constituída por couve às tiras, filetais avec salada turca, vitela +
arroz de forno avec puteitas assadas. Aquele que é hoje o arcebispo-bispo da confraria, a Pyjamância 15
(vulgo J. J. Magalhães dos Santos), escrevia no programa:
É berdade, P-jamistas,
Tamos nas bodas de prata!
Ác fstjá-las bâim
Esta tom fstiba data!
Nadadir a cemetérios
Churar cãe xtá nu pacibo!
Recordemos câda um
Cumussêl xtibesse bibo!
Porcadaum qçfoi
Um copocheio bebamos!
Iacim os mortos combibem
Com usque bibos estamos!
[...]
A canção sempre foi parte importante dos congressos e encontros. A confraria tem mesmo um hino
que repetidamente soa nas cerimónias. O hino ainda não foi interpretado em público, não porque a
excelência dos versos se revista de ruborizado pudor, mas porque o povo ainda não está preparado para eles.
No entanto, De Pyjammes tem o seu próprio coro que, a despeito da impossibilidade do hino, vai
apresentando ao mundo a magnificência das pyjamantes gargantas, interpretando melífluas melodias e enlevadores
versos. O BCP (Balioso Coro Pyjamante), que, após a rebulação, todos os anos se une à
Associação dos Antigos Alunos do Liceu Camilo Castelo Branco na comemoração do 1.º de Dezembro,
emprestando-lhe também a rara beleza cénica das suas actuações, tem uma canção que
é já disco de Iridium no Burkina-Faso e em Bénus. (O ancestral coro dos Pyjamantes
pondera processar o Banco Comercial Português por usurpação da sigla...)
Ao longo dos anos muito deu que falar a confraria à cidade de Vila Real. Mas mais ainda deu ao
país. A história e o património da Bila foram, não raras vezes, defendidos e a verdade das coisas
reposta pelos Pyjamantes. Documentos há que atestam a veracidade desse amor pela terra. Discursos, descerramentos
de "polacas" e jantares reivindicativos são a amostra do árduo trabalho da confraria. A título de exemplo,
fiquemos com as palavras da Pyjamância 15, que, interpretando os anseios da agremiação, berrou bem
alto e em público, meia dúzia de verdades sobre o Corgo:
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Na Aula Magna da UTAD
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UMA PROPOSTA À CONSIDERAÇÃO DA BILA**
1. Considerando que o rio Corgo é nosso, é o rio da nossa terra, da Bila, o que faz dele o rio mais
importante de Portugal e, consequentemente, do mundo, por muitas galáxias que este inclua.
[...]
4. Considerando que, desde que há compêndios de Geografia, mapas, cartas, portulanos e outros palimpsestos, o
rio Corgo tem sido alcunhado, minimizadoramente, redutoramente, vexatoriamente, de simples, de mero, de reles afluente do rio Douro,
minimização, redução, vexame esse que se reflecte negativamente na auto-estima que deve ser a coluna
vertebral, independentemente de dorsal, de todo o amante da Bila.
[...]
7. Considerando que é um facto indesmentível e, daí, forçosamente indesmentido, que o Corgo
é o rio que, nascido modestamente em Vila Pouca de Aguiar (que só por isso deverá passar a chamar-se Vila
Muita de Aguiar), ganha ao demorar-se regaladamente, enamoradamente, apaixonadamente, eroticamente na Bila, ganha, no contacto com
as nossas gentes, foros da mais nobre nobreza, e vai, orgulhoso dos pergaminhos aqui adquiridos, levar a nossa benção
feudal ás terras que banhará até ao Atlântico.
[...]
8. Considerando que, vergonhosamente, ominosamente, prepotentemente, os compêndios de Geografia, mapas, cartas,
portulanos e outros palimpsestos, toda a espécie de livros, de in-fólios, de calhamaços, de alfarrábios
que se referem ao rio que desagua no Porto, dizem que ele há por nome Douro; afirmam que se chama Douro o curso de água
que vai da Régua até ao oceano Atlântico.
[...]
10. Considerando que não faltará gente eivada de má fé, que, na defesa do indefensável,
[...] poderá vir [...] argumentar que, ao chegar ao ponto de confluência com o nosso Corgo, o abusivo Douro
tem um caudal superior ao da nossa via fluvial [...].
[...]
Propomos — e propomos porque não podemos impor, se não imporíamos e exigiríamos, nem que
tivéssemos de dar com um gato morto na cara dos irresponsáveis, até que o gato miasse... — que sejam dadas
instruções precisas, rigorosas, determinadas e determinantes no sentido que se corrija esse erro monumental,
escandaloso, criminoso, dissolvente, atentatório da sacratíssima Verdade. Que fique assente, de uma vez por todas,
ad aeternum, que o rio Corgo é que recebe, a nascente do Peso da Régua, as águas do afluente Douro.
[...] A Régua deixará de ser a capital do Douro, passará a intitular-se capital do Corgo, honra suprema
que nós, daqui, generosamente, fidalgamente, lhe concedemos. Lucidamente reconhecemos que o que se chama Alto Douro
continuará a ser Alto Douro. É nessa região que corre esse afluentezito do nosso Corgo. Mas exigiremos,
manu militari se preciso for, que a lisboeta Rua dos Douradores passe a chamar-se Rua dos Corgadores. Quem tiver talheres dourados
terá talheres corgados [...]. Bebedouro será bebecorgo, matadouro — matacorgo, lavadouro — lavacorgo. Nada
mais será duradouro. Será duracorgo. Acabam-se os sorvedouros. Passa a haver sorvecorgos. Aqueles a quem passaremos
o testemunho não serão os vindouros. Serão (e com que orgulho!) os vincorgos!
[...]
Só numa palavra se manterá o -douro: em mijadouro. A ninguém na posse plena dos seus cinco sentidos
passaria pela cabeça que semelhante local se chamasse mijacorgo. Isso seria incompatível com a dignidade do
príncipe dos rios.
[...]
EIA, POIS!
* Agradecemos a Frederico Amaral Neves a ajuda neste e
noutros momentos do Eito Fora.
** O texto completo desta proposta vai ser editado pela Associação dos Antigos Alunos do Liceu Camilo
Castelo Branco.
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EITO FORA: transmontano sem preconceitos
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