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ficção-história
luís c. teixeira


Mamona de Cima. 1969


Jesuíno detestava o Verão. Na aldeia o cheiro a bosta tornava-se insuportável e as moscas procriavam como ratos, pelo menos até a palha secar! O Benfica ganhara mais uma vez o campeonato e ele até era do Sporting, porque uma vez o avô dissera que os leões tinham violinos que botavam música feita com as pontas dos pés! Para cúmulo, em Agosto chegava o primo de Paris a distribuir chocolates a toda a canalha da povoação e arredores. Prendia a atenção até da menina-dos-joelhos-bonitos da turma das raparigas. Ruborizava de ciúmes mas só perdia a calma quando os outros putos gritavam maquiavelicamente "Comment tu t'appeles?...Jesuíno?". E riam... Um dia alguém contou o segredo ao Jesuíno e estranhamente não se irritou porque acabara de perceber a piada! Mesmo assim não queria ir para a vila aprender línguas, mas apenas ver o comboio partir. O cheiro a fumo deixava-o tonto e a pensar na América dos foguetões. Ouviu na Emissora Nacional que os americanos tinham posto os pés na lua e contou. Os velhos ripostaram "Coitado, o miúdo está mal da mioleira! Sai ao pai!". A loucura do progenitor veio após a morte da mãe fulminada por um raio em tarde de forte tormenta. Recolhia as forquilhas no lameiro quando Deus a escolheu. E executou a decisão? Não! Foi o destino que não permitiu ao Jesuíno conhecer a mãe, concluiu ele próprio. O pai, com pavor às tristes lembranças fugira de si e dos seus. Ironia dos destinos: pr'a América dos astronautas! Jesuíno ficara para trás. Como os excrementos da Russa após entulhar feno até aos queixos! A égua, apesar de manca e teimosa era ainda a única em quem ele podia confiar. A merda, era pois, uma constante, na rua e na vida de Jesuíno! Mas tinha solução para uma total limpeza! Um tractor John Deere, roncador e de asas verdes e amarelas. Mesmo em segunda ou terceira mão era único!... Representava o brinquedo de referência que nunca tivera na infância. Que sensação andar com as ventas ao vento e apanhar o estrume da corte! Que alegria quando o Escapou1 o chamava, no final da tarde, para carregar a palha seca! E isto porque a professora Matilde raramente fazia gazeta. Num ritual diário chegava ofegante após a viagem atribulada no seu pesadão NSU.2 Entrava na sala de aula3 com cara de cu! De Rigorosa e quase ditatorial. Parecia uma besta! Depois do café, a meio da manhã tornava-se afável e quase esquecia as máximas da Pátria, Deus e Família! Já era bestial, a minha professora primária! Falava do mar, dos barcos e dos Descobrimentos Portugueses. Como era possível o mundo ter mais água do que terra?! E aquelas minúsculas caravelas chegar à Índia navegando léguas e léguas contra monstros e tempestades!? Jesuíno nunca vira o mar mas, no meio da lição, conhecera o pai António ainda que mais velho do que ele imaginara. Compreende-se porque, ele também era o pai de todos os meninos e salvador da nossa terra! Livrou-nos do papão que vem de leste (Jesuíno já teria dado os pontos cardeais!) e das indecentes americanices. Por isso merecia estar ali, de pose sóbria e gravata elegante, por cima da professora! Salvo seja! Mas ele preferia o pai Manel que nunca vira e que estava no outro lado do mundo. Esse era mais jovem e montara a Russa quando ela era forte e veloz. As fotos espalhadas pela cómoda do quarto isso confirmavam. No interior de uma das gavetas guarda cuidadosamente postais dos States com o rosto marmóreo da diva de Hollywood. A mesmíssima Marilyn Monroe bruscamente desaparecida faz hoje escassos anos! Mais tarde recorreu a eles para tentar perceber porque os homens preferem as loiras! Isto porque ele próprio se intrigava com a beleza da mulher do Regedor.4 Colocado estrategicamente no alto da varanda, observava o peito moreno e avantajado da dita. E o cabelo oleoso! Enfim, um exemplar que tipificava a rotundidade da beleza feminina como virtude a preservar.

Ao lado uma foto do pai com um penteado à Elvis Presley. Jesuíno não conhecia ambos. A curiosidade quase o matava por dentro... Também por este motivo, mas primordialmente para agradar ao avô aceitou a ideia de desfilar na Mocidade fardado e com brilhantina. De camisinha lavada e calção por debaixo do joelho, cantou o hino e deu vivas ao António da foto! Valia a pena suar as estopinhas neste início das férias grandes, porque no final bebiam uma laranjada cheia de borbulhas. E arrotávamos! De regresso à terra, e sem saber porquê, Jesuíno sentia-se quase um homenzinho, um vencedor de qualquer coisa! Faltavam apenas as flores presas ao chapéu de palha para solenizar o acto! De quem esperava uma flor (nem que fosse um malmequer!) era da menina-dos-joelhos-bonitos. Mesmo sabendo que ela preferia o primo de França, porque no próximo Verão prometera trazer uma mota em vez de chocolates. Aguardava ansiosamente pelo recreio ou pelos momentos que antecediam a eucaristia dominical! Fugazes olhares doces e melancólicos a prenunciar uma efectiva fuga física e presencial. E um dia desapareceu sem deixar rasto... Na vila apenas se rumorejava que um rapaz da montanha de cima apanhou o comboio! Dizia coisas estranhas como "a Russa está velha, mija-se toda e não quer nada comigo!" Ou então "quero conhecer o cabelo do Elvis porque é igual ao do meu pai!"


Notas:
1
José de Oliveira ficou conhecido como o "Escapou" porque a mãe — corriam os anos quarenta — tivera graves complicações na hora do parto. Como tudo acabou bem, por obra e graça de Deus, os pais apregoaram pela aldeia: — "O meu filho escapou (à morte), o meu filho escapou!...". E assim ficou o Escapou.

2 Fundada em 1873, a NSU (Neckarsulm Strckmaschinen Union, fábrica de máquinas de costura de Neckarsulm, na Alemanha) começou a produzir bicicletas em 1901. Também fabricou automóveis e camiões de 1905 até à década de 20, mas só voltaria a estes veículos nos anos 50. Em Portugal "rolaram" até ao início da década de 80.

3 A sala de aula estava caiada de um branco estupidamente virginal. Todavia, o soalho rangia com odes reumáticas e cheiro a madeira velha! Em frente às cadeiras surgia o estrado que brilhava a madeira tropical e a suor de pele. Eis o lugar elevado, por excelência, onde a professora ora exprimia laivos de autoritarismo e de terror ora descrevia cenários fraternos e bucólicos! O universo de Jesuíno tornava-se cada vez mais estreito! Todos os dias úteis do santo mês observava a foto de Salazar imediatamente acima do quadro negro. Era um herói nacional? Para ele a dúvida permanecia quase eterna... Os pés continuavam bem quentes graças à escalfeta. Mas o frio voltava sempre que subia ao quadro ou identifica os lugares, rios e vias férreas de Portugal naqueles mapas colaterais. "Portugal não é um país pequeno" indicava um deles que também representava as ilhas e as colónias. Mas colónia não é um perfume que os homens usam ao domingo e na hora da missa?! Perguntava o Candidinho da Primeira Classe. Ao lado um cartaz muito mais significativo sobre a política colonial: "Moçambique só é Moçambique porque é Portugal". O crucifixo, ao fundo da sala, beatifica pecados extraviados do rebanho celestial. Se ainda os houvesse...

4 Espécie de representante, na aldeia, do presidente da Câmara. Tinha funções policiais e era igualmente conselheiro para muitas causas. Foi uma figura proeminente no ruralismo do Estado Novo. A seguir ao pároco. Injustamente esquecido mesmo usando habitualmente fato novo ao domingo!


lcteixeira@aeiou.pt

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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