LEITOR: Correm rumores de que vais abandonar a escrita!
ESCRITOR: Isso não é inteiramente verdade!
L: Como assim?
E: Vou deixar de escrever poemas. Optei por trabalhar num romance.
L: Porquê essa mudança? Significa que enjeitas definitivamente a arte poética?
E: Decerto não iria malbaratar o meu tempo se continuasse a escrever poesia, pelo que não
recuso essa possibilidade. Mas, neste momento, as minhas prioridades são outras. E a razão é simples: achei
na escrita romanesca um prazer maior.
L: Insinuas que escrever te dá prazer?
E: Não o insinuo apenas: afirmo-o com toda a certeza, desde que se situe claramente a fonte
desse prazer.
L: Fala-me do prazer da escrita.
E: Pois bem: o acto de escrever é doloroso...
L: Em que ficamos?
E: O prazer vem depois, ao fruirmos o texto que nos reflecte. É um prazer indefinido.
Dizê-lo é quase negá-lo, tal a distância... Mas façamos a tentativa, por aproximação
simbólica. Encetemos uma viagem por dentro da palavra. As letras são túneis: ora de vidro, ora de pedra escura.
L: Há uma grande diferença!
E: Há, com efeito. Um homem está de pé no meio de uma letra. Começa a
mover-se com desconfiança. Avança pelas outras letras como uma peça de xadrez. Julga que é ele a
inventar os sons. Já sabemos que não. De repente, surge um túnel de vidro: a opacidade rasgou-se, a palavra
incendeia-se.
L: É nesse instante que a escrita começa?
E: Não, ainda não, mas falta pouco. Aquela palavra, agora, não é unicamente
uma palavra: é o fragmento de uma sinfonia. Deixou de ser punctiforme: passou a ser elástica. Através do
vidro avistam-se outras palavras: as mais próximas são as que melhor se adequam ao enredo textual. Elas convertem-se
em elos sibilinos — uma cadeia compulsiva. O prazer está nessa prisão, onde os homens livres comunicam de rosto
voltado para os limites.
L: E o que sucede se o túnel for de pedra escura?
E: Nesse caso, o prazer é nulo.
L: Mas qual é, ao certo, a natureza daquele prazer?
E: Já to disse, ela é quase indefinível. Apreendê-la é um acto
complexo. Sou obrigado a servir-me das palavras para falar dela. E esse caminho é penoso. Exemplifico-te com uma imagem:
as palavras são migalhas de um bolo. Podem ser saboreadas individualmente. Mas as variações gustativas
gozam-se pelo contraste: o sabor é mais nítido se tais migalhas se unirem umas às outras.
L: Dessa forma, só escreve aquele para quem as palavras são transparentes?
E: Aquele para quem elas são mais do que símbolos arbitrários.
L: Isso é estranho!
E: Estranho é que nos sirvamos delas como se fossem rótulos dotados de frieza. Ao escrever,
começo com um vazio de sílabas e, logo a seguir, semeio acasos e frases, com o repisar das teclas (piano das musas)
ou com o globo miniatural da extremidade da esferográfica. Não preciso de me mover para viajar.
L: Escrever é viajar?
E: E viajar é também escrever. Não tem que haver motivo algum para a viagem. A
tensão que a precede é cega, ainda que suponhamos ver através dela uma cascata de brilhos e evidências.
Escrevendo, viajo e revelo.
L: E o que revelas, escrevendo?
E: A escrita é um espelho da alma, desnudada até ao tutano, ou avançando, a passos
miúdos, até ao lugar em que a pele interior começa a exibir as tatuagens que a dilaceram. É
preferível sublimar dessa forma os instantes a consultar um médico de almas, tão neurótico como o
paciente, mas com a felicidade grotesca de não haver descoberto a neurose que o atravessa.
L: E como nasce a escrita?
E: No meu caso, não é de um impulso irresistível. O que pressinto na trama a que
me entrego é que as palavras se puxam umas às outras, arrastam-se para um turbilhão de escolhas
aleatórias. E são elas que decidem, que se atraem e magnetizam, que se odeiam e afastam. Amores e ódios
comandam a sua essência. Não sou eu quem escreve: é o texto, em verdade, que se escreve a ele próprio.
Eu limito-me a conceder-lhe a memória, a imaginação e os acasos insólitos da experiência. As
palavras fazem o resto: a beleza possível de uma urdidura de caracteres e a ilusão de que desenhei com elas os
contornos do meu verdadeiro rosto.
L: Dizes que as palavras fazem a beleza e a ilusão?
E: Por exemplo: caminho e penso: o vulgar obsidia; ocupa todos os espaços, invade os seres
por dentro e forma à sua volta uma auréola de inércia. A minha sombra escorre, varre o passeio betonado,
desloca-se. É urgente elevá-la a um espaço luminoso. Então, as palavras iniciam o seu bailado,
erguem-se contra a capa da rotina. São corpos-estrelas a prometer constelações.
L: Prometem. E cumprem?
E: Mais do que isso: elas cumprem, em certa medida, o universo. Esse copo e esse vinho estão
dentro das palavras.
L (depois de beber): O copo, talvez. O vinho, agora, rola dentro de mim. Seja como for, no
princípio era o Verbo.
E: Goethe disse-o de outra forma: "ao princípio era a Acção!" Cada palavra
traz o mundo dentro, aquele e o restante, à maneira de reflexo. A palavra é a mónada, o ser minúsculo,
capaz de criar. Representar o mundo é já criá-lo.
L: Que tem isso que ver com a acção?
E: Dizer que no princípio era a acção talvez signifique que não há
princípio: a acção é eterna — ela inventa o seu próprio princípio. E o fim também.
L: Explica essa embrulhada.
E: Imagina que um grémio literário dá início a uma publicação.
Esta teve o seu princípio, mas a acção, ou a vontade de criar, era mais antiga e, além disso, habita
o esforço individual.
L: Sim, e depois?
E: Agora pensa: a publicação extingue-se. Achas que a acção também
termina?
L: Possivelmente não.
E: O mesmo se passa comigo. Quando se vive a escrita, princípio e fim são dois pontos do
mesmo círculo, encontram-se ou confundem-se, se a roda mantiver o mesmo ímpeto criador. A força inicial
não se perde nem esgota: expande-se em outras formas.