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editorial [5]
maria filomena


Capa da edição número 20 (Dezembro de 2001)
Capa da edição número 20
(Dezembro de 2001)


Navegar é preciso


Eram já peregrinadas seis escalas quando apanhei o Eito. Já o tinha visto antes, nos escaparates. Primeiro, um homem de garrafão e um ar à Fernando Pessoa, depois, um burro pasmado. Ambos despidos daquele jeito singelo-boçal e contentinho do imaginário folclórico. Essa ausência, que não devia surpreender, desconcertava em terras de horizontes saturados de ecos da mesma Voz. O novo desenho riscava e arriscava uma nova paisagem transmontana para cá do Marão e por aí fora, a eito, mas com rumo. Outros valores se levantaram e o tempo passou até que ingressei na barca em S. Petersburg (a americana da Florida, não a russa). Depois foi Macau, Brasil, Alasca, Madrid, Buenos Aires, Lyon, com a descoberta da verdadeira origem de Tourencinho pelo meio. (Não há nada como voltar às origens.)

As melhores horas com a tripulação foram de não alinhamento na glorificação vácua da região, do fazer pelo prazer de ver a vontade tornar-se acto, da partilha de saberes — e de sabores, que à mesa também se aprende. Foi um vogar contra as águas estagnadas do conformismo, o que não é manobra de pouca monta em portos onde se tem de contar com a estéril troca de galhardetes, pela proa, e a grosseira exibição da cultura pimba, pela ré. E se as rotas percorridas foram infrutíferas e tudo não passou de vãs miragens de quem anda em nau balouçante, salve-se a memória da aventura que enfuna a vela do gosto por rumar contra marés de lodo.

Agora que é finda a viagem, com nova terra à vista, anunciada pelo capitão, não há tempo para nostalgias. Agita-se a nau, não com rumores, mas em ânsias, amainam as ondas e ventos contrários, por não poderem (já)mais abordar equipagem assim aparelhada, uns para celebrar o fim da empresa, outros à espera de saborear ou cuspir a canela e a pimenta que hão-de vir. Por mim, embarco nela, haja remo e vela. O mar? Português ou outro, mas que seja vasto e profundo. O vento? Que debande os pássaros negros da guerra. A rota que seja de horizontes mais rasgados, mais arriscada, ainda que errante. O que é preciso é manter firme e afinado o leme contra as marés muitas e cheias do tartamudeio político, da tromba de vómito e esgoto da televisão, das tormentas da ignorância triunfante... e sulcar o duro mar-chão da indiferença. E contra as barcas de petas e tretas sob a bandeira do politicamente correcto, viva a irreverência, a provocação, a resistência, o gozo do grito do Grande Pirata: «navegar é preciso, viver também é preciso». À beira do abismo? Assim seja.

 


filomena@periferica.org


EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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