a eito pela leira. o milho está crescido. é um ano de pão. os pendões estão
crescidos, pandões, diz quem semeia. quando os pendões estão crescidos não se vê nada da estrada.
fazem assim como uma espécie de cortina que tudo tapa. aproveitai rapazes. aproveitai raparigas. se o sangue vos fervilha
não sejais pecos. ide a eito pelas leiras ao luar grande de agosto que é quando o corpo se torna mais impenitente e
a gente não o consegue domar. ide a eito. amai-vos no meio do milho em agosto quando os pendões são altos e
nada se vê da estrada. e eles amaram-se a coberto do luar. vieram filhos. muitos. que muitos foram os que se deitaram entre
os caules milheirais na terra mole das regas de verão.
não é bem aquilo que mandaste que eu queria. eu quero fazer um jornal daqui, mas literariamente
heterogéneo. ah, estou a perceber, mas olha, dá-me ideia que só vai sair o primeiro número. nem que
seja só o primeiro, já faz história. não quero um jornal de notícias regionais, isso já
há. o milho cresceu nas pedras, por vezes na discoteca das mesmas.
um filho houve que deslumbrou o mundo. era o eito fora. logo ao nascer já era grande. embrulhado num
capote negro. o corpo apoiado no bordão dos caminheiros. sempre longe. dele só se via a minúscula figura.
e a sombra erecta que no seu rasto levava.
o que é preciso é coragem para fazer coisas, defender pontos de vista, não necessariamente
regionais, mas pontos de vista globais, convicções. temos alguma gente capaz. mas quando? passa tudo ao lado.
percorreu os vários caminhos. meteu-se pelas veredas que levam às palavras. passou pelas casas das
gentes que trabalham com palavras. gente que cava cava para encontrar uma palavra que apeteça. sempre há cada coisa
mais estranha neste mundo, admirava-se eito fora. como se fosse preciso cavar palavras. palavras não precisam de semeadura.
nascem por toda a parte. não precisam de rega nem de tempo. no inverno ou no verão elas medram.
põem-se-me os olhos em bico, como se impõe. é verão. o milho está grande.
as noites estão quentes. 1á fora, no parque, os carros balouçam em surdina. que coisa, e eu que não
tenho companhia para ir até lá fora. mas estamos com os olhos em bico, estamos, porque as emigrantes andam por
aí muito pintadas, e de mini-saia. e costumam ser sempre os mesmos que ficam até ao fechar da madrugada.
eito fora continuou o seu caminho. fez-se á gente. e encontrou de tudo — fotógrafos, desenhadores,
escritores, gente de opinião (esta gente é que me baralha, dizia eito fora para o seu bordão, gente com
opinião é que eu admiro, como se pode ter opinião num mundo com tantos lados, e eito fora pasmava), poetas.
vêem coisas. sentem coisas. ouvem vozes. baralham os sentidos. falam com os ossos. as vezes sopram apenas. um vento leve
levezinho. um arrepio à tona da água.
realmente poetas. portugueses. aquilo que os portugueses realmente possuem. talvez a única coisa que
possuem. alma de poetas, a saudade que atravessa os tempos. ficam sentados nos penedos a ver, apertas a ver a alma de poetas no
crepúsculo abundante de cor. já se sabia que ia juntar muita gente. tanta, é que não se contava.
eito fora caminhou por portugal e fez-se ao mundo. mundo, ó mundo se não fosse raimundo o que
seria do mundo, isto é o eito fora a tresloucar, porque leu umas coisas e uma pessoa não é de ferro, quanto
mais uma silhueta.
ficam sentados nos penedos, às vezes a ler. a ler, vejam bem, porque ainda há quem leia em
portugal, oito letras gastas, inúteis. ir para a lagoa ler, para o monte ler. para quê? para gastar os olhos e ficar
com ideias taralhoucas na cabeça, é o que é. ó raimundo vai-te ao mundo lá para o fundo, mas
vai em segundo, porque o cheiro nauseabundo ainda te põe meditabundo, ó raimundo de portugal oito letras
inúteis.
um dia cansou-se. sentou-se numa pedra do caminho, havia uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho
havia uma pedra, está outra vez a tresler, deixemo-lo, é natural, é de tanta caminhada. pois sentou-se de
cansado na tal pedra e ficou-se a cismar.
afasta as pedras do caminho, que o teu nome vão esquecer. falas sozinho. dois olhos fechados, um
corpo para morrer. foge para longe, foge daqui, esquece tudo. é o que apetece escrever quando se pensa em cima de uma
pedra, quando se pára a pensar em cima de uma pedra. o caminheiro descansa o cajado e a cabaça. quer descansar,
também, os miolos, mas estes não param. de tanto caminhar ficou atento às voltas do mundo. tem o mundo
colado no miolo, e, de tanto caminhar só pensa em movimento.
cismou, cismou. para não ficar cismático, que é uma doença que ataca sem
remédio quem muito pensa, decidiu-se. vou mudar de vida. isto já deu o que tinha a dar. já que me sentei,
aqui vou ficar. e aí ficou. sentado na pedra que encontrou no caminho. sobre o bordão pousou a face sábia.
a sombra que o perseguia colou-se ao corpo. achou-se inteiro. os olhos virados ao futuro.
para mim é um cajado, uma ligação permanente ao monte. mas seja o bordão, que
também é um som contínuo, por exemplo, de uma gaita de foles. a sombra do caminheiro está-lhe colada
ao corpo da mesma forma que se lhe colaram as reflexões na mioleira. ele é um todo, um microcosmos que, sentado na
pedra, no meio das pedras, participa do cosmos estrelado. ele é aquele que veio para ficar pensante. deixemo-lo.