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Capa da edição número 20
(Dezembro de 2001)
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Um passo em frente
Um homem quis ir
até ao fim do mundo e foi. Era uma grande falésia que dava para um abismo.
— Mas onde é que fica mesmo o fim do mundo? — duvidou o homem. — Aqui ou
lá em baixo?"
(Mário de Carvalho, Fabulário) |
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O Eito Fora leva quase quatro anos de existência. Em termos humanos, quatro anos são o fim
da primeira infância; para um jornal, essa idade significa a maturidade do projecto — ou a obrigação disso.
O Eito surgiu de uma união de vontades, a mais forte das quais sendo a vontade (necessidade?) de
fazer algo para mudar o panorama editorial (não ouso dizer "jornalístico") em Trás-os-Montes. Passados que
são quatro anos, conseguimo-lo? Pessoalmente, a sensação que tenho é de que não: à parte
o próprio Eito, a paisagem continua basicamente a mesma. Sob esse ponto de vista, falhámos. A verdade,
porém, é que o nosso propósito nunca foi redimir Trás-os-Montes, muito menos salvar a pátria:
sabedores de que uma andorinha não faz a Primavera (condescendam no lugar comum), dávamo-nos (e demo-nos) por
satisfeitos com a materialização bimestral do facto de sermos natural e convictamente diferentes, vermos as coisas
de outros ângulos, querermos um Trás-os-Montes diverso — mas nunca perdendo a noção (frustrante ou
reconfortante?) de que seríamos sempre uma minoria, que interessaríamos apenas a uma minoria.
A verdade é que quatro anos servem para muita coisa — inclusive para dar tempo para a poeira pousar.
Depois do que foi a surpresa com este projecto chamado Eito Fora, a classe jornalisteira local serenou, recuperou a
compostura momentaneamente perdida, apontou-nos um lugar à mesa. Hoje sorri-nos com a condescendência que, num jantar
de cerimónia, é reservada ao adolescente que pela primeira vez se senta com os adultos — misturado com o receio de
que esse mesmo adolescente, desconhecedor da "flexibilidade vertebral" que implica a "sã convivência", desate a partir
a loiça toda. Hoje, aqueles que representam tudo aquilo que desprezamos em termos jornalísticos batem-nos nas costas
e dão-nos os parabéns!
Quando esses jornais — que, pela sua visão diametralmente oposta do que deve ser a Imprensa em
Trás-os-Montes, nos "forçaram" a criar um espaço alternativo — aplaudem o nosso trabalho, o instinto manda-nos
olhar com mais atenção para o que vimos fazendo. Quando essas autênticas "bússolas que apontam para o
sul" nos incentivam na linha editorial adoptada, a consciência impõe-nos que desconfiemos, paremos e repensemos o
caminho que seguimos. E quando a região que nos inspirou ameaça colocar limites à nossa imaginação,
o fascínio pelo infinito exige que redefinamos os nossos objectivos. Conforme ficou escrito no editorial do já
distante número zero, "fazemos agora este jornal para que a comodidade não seja mais a mesma. A nossa, está
bem de ver. Impele-nos a alternativa ao modus faciendi sensaborão que espalha posturas politicamente correctas [...].
Não sendo outra coisa, há-de ser a atracção do abismo que nos norteará nestes caminhos de
incerteza [...]."
Agora que o ambiente circundante se perfila para nos absorver, numa tentativa de nos tornar numa mascote
politicamente incorrecta (mas inofensiva, porque previsível), levantamo-nos e trocamos-lhe as voltas: olhando o abismo
à beira do qual temos acrobaticamente caminhado nestes últimos anos, tomamos fôlego e saltamos. Aguardem-nos
lá em baixo.
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