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editorial [2]
fernando gouveia


Capa da edição número 20 (Dezembro de 2001)
Capa da edição número 20
(Dezembro de 2001)


Um passo em frente

    Um homem quis ir até ao fim do mundo e foi. Era uma grande falésia que dava para um abismo.
    — Mas onde é que fica mesmo o fim do mundo? — duvidou o homem. — Aqui ou lá em baixo?"

(Mário de Carvalho, Fabulário)


O Eito Fora leva quase quatro anos de existência. Em termos humanos, quatro anos são o fim da primeira infância; para um jornal, essa idade significa a maturidade do projecto — ou a obrigação disso.

O Eito surgiu de uma união de vontades, a mais forte das quais sendo a vontade (necessidade?) de fazer algo para mudar o panorama editorial (não ouso dizer "jornalístico") em Trás-os-Montes. Passados que são quatro anos, conseguimo-lo? Pessoalmente, a sensação que tenho é de que não: à parte o próprio Eito, a paisagem continua basicamente a mesma. Sob esse ponto de vista, falhámos. A verdade, porém, é que o nosso propósito nunca foi redimir Trás-os-Montes, muito menos salvar a pátria: sabedores de que uma andorinha não faz a Primavera (condescendam no lugar comum), dávamo-nos (e demo-nos) por satisfeitos com a materialização bimestral do facto de sermos natural e convictamente diferentes, vermos as coisas de outros ângulos, querermos um Trás-os-Montes diverso — mas nunca perdendo a noção (frustrante ou reconfortante?) de que seríamos sempre uma minoria, que interessaríamos apenas a uma minoria.

A verdade é que quatro anos servem para muita coisa — inclusive para dar tempo para a poeira pousar. Depois do que foi a surpresa com este projecto chamado Eito Fora, a classe jornalisteira local serenou, recuperou a compostura momentaneamente perdida, apontou-nos um lugar à mesa. Hoje sorri-nos com a condescendência que, num jantar de cerimónia, é reservada ao adolescente que pela primeira vez se senta com os adultos — misturado com o receio de que esse mesmo adolescente, desconhecedor da "flexibilidade vertebral" que implica a "sã convivência", desate a partir a loiça toda. Hoje, aqueles que representam tudo aquilo que desprezamos em termos jornalísticos batem-nos nas costas e dão-nos os parabéns!

Quando esses jornais — que, pela sua visão diametralmente oposta do que deve ser a Imprensa em Trás-os-Montes, nos "forçaram" a criar um espaço alternativo — aplaudem o nosso trabalho, o instinto manda-nos olhar com mais atenção para o que vimos fazendo. Quando essas autênticas "bússolas que apontam para o sul" nos incentivam na linha editorial adoptada, a consciência impõe-nos que desconfiemos, paremos e repensemos o caminho que seguimos. E quando a região que nos inspirou ameaça colocar limites à nossa imaginação, o fascínio pelo infinito exige que redefinamos os nossos objectivos. Conforme ficou escrito no editorial do já distante número zero, "fazemos agora este jornal para que a comodidade não seja mais a mesma. A nossa, está bem de ver. Impele-nos a alternativa ao modus faciendi sensaborão que espalha posturas politicamente correctas [...]. Não sendo outra coisa, há-de ser a atracção do abismo que nos norteará nestes caminhos de incerteza [...]."

Agora que o ambiente circundante se perfila para nos absorver, numa tentativa de nos tornar numa mascote politicamente incorrecta (mas inofensiva, porque previsível), levantamo-nos e trocamos-lhe as voltas: olhando o abismo à beira do qual temos acrobaticamente caminhado nestes últimos anos, tomamos fôlego e saltamos. Aguardem-nos lá em baixo.

 


fgouveia@periferica.org

Leia este e outros textos na Secret'Área, o refúgio literário de Fernando Gouveia.

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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