1. O fim da macacada
Não, não estávamos a brincar. Neste número acaba o Eito Fora. A dois meses
de se cumprirem quatro anos de existência, encerramos as portas. E desiludam-se: não houve zangas, não se
acabaram os subsídios, não entrámos na andropausa. O Eito acaba porque se acabou a nossa disponibilidade
para o fazer. Simples.
Para dar alento aos que queriam ver desilusões e frustrações a presidir ao fim do Eito
Fora — os abutres e outras aves pouco canoras —, abrimos esta edição com o texto que, em 1910, encerrou uma outra
publicação, a Illustração Trasmontana. Ao fazê-lo, moveu-nos um desejo de história,
de memória — e de blague. Aos abutres, mórbidos, move-os o desejo de putrefacção. Fiquem-se,
portanto, os abutres sórdidos e saudosistas pela página 3 e pelo início do século (passado) que
nós vamos indo: temos um jornal para matar. Ainda.
Estamos em vésperas de mortório, portanto. Nos mortórios é costume relembrar-se a
vida do defunto. Ainda não o somos. Defuntos. Mas este é o número do passamento. Justifica-se então
que, por uma vez, respeitemos a tradição. Relembremos.
Foram quatro anos fáceis, divertidos, recompensadores. Quatro anos em que, para gozo nosso,
Trás-os-Montes deixou de ser o recanto provinciano e boçal que é, para se tornar numa possibilidade: e se
Trás-os-Montes fosse apenas mais uma região de Portugal e, logo, do mundo? E se Trás-os-Montes, por
um momento (digamos, quatro anos), deixasse de ser a parvónia contentinha e pateticamente alegre (ou tragicomicamente
triste) que é, para se tornar numa província capaz de mover montanhas, as suas montanhas? Pode ser que, nestes
quatro anos, poucos se tenham dado conta da mudança — mas Trás-os-Montes mudou. Tem na sua história o
Eito Fora — como quem tem uma pedra no sapato. Trás-os-Montes pode sacudir-se, praguejar, lamuriar-se, mas
não estamos a ver como descalçará esta bota: o Eito Fora existiu. E nós divertimo-nos.
Desculpem.
Esta edição do Eito Fora serve para lembrar o que foram os nossos últimos quatro
anos. Ao longo das páginas que se seguem relembramos textos e imagens que marcaram os 20 números do jornal
(revista?) que mais pessoas quiseram ignorar, que mais pessoas não souberam como ignorar. Ao longo das páginas que
se seguem lembramos como, de dois em dois meses, sem pressas, nos ocupámos daquilo que não faz o quotidiano
de Trás-os-Montes. E como houve uma pausa no tédio. No nosso tédio.
Nesta vigésima edição (na verdade a 21ª, já que começámos,
literalmente, do zero), o leitor habitual do Eito Fora tem à sua disposição não um, mas sete
"editoriais" (ganhamos ao Público). O pluralismo não acaba com o Eito (se o unilateralismo pimba
não o fez...). A diversidade, que sempre esteve presente nas várias edições, ganha, neste
último número, uma visibilidade intencionalmente premonitória. Sete editoriais são oito das
várias sensibilidades que o leitor pode entreter-se a encontrar no passado do Eito Fora, mas são
também sete formas de traçar o futuro, a única coisa que importa. Passa por esses sete editoriais uma brisa
(ou um vendaval) de homogeneidade? Passará. O inimigo é comum: o Grande Tédio Pimba.
O Eito morre, então. É a hora dos elogios. (Dissemos que íamos respeitar a
tradição, lembram-se?) Nunca o fizemos em quatro anos, mas neste número publicamos, páginas adiante,
alguns e-mails de leitores, extractos de referências em jornais e outras menções ao nosso querido e saudoso
Eito Fora (ele merece, coitado, era tão boa pessoa). Fazemo-lo por respeito à tradição que
ordena o elogio fúnebre, mas também porque convém irritar os que desejam e defendem um Trás-os-Montes
unido no Grande Tédio Pimba. (Inquietem-se, avantesmas! Nem todos passam pelas vossas garras retorcidas de imbecilidade e
mau gosto!)
E já que estamos em maré de elogios, lembremos a persistência dos nossos anunciantes.
Contra o hábito, o lucro e o enxovalho, muitas empresas anunciaram no Eito Fora. Várias, do primeiro ao
último número. E se algumas tiveram que insistir para que contássemos com elas, e se nem sempre lá
fomos receber o dinheiro com que elas, diligentemente, nos pagavam a tipografia, não era porque as esquecêssemos ou
ignorássemos — era só porque tínhamos má gestão. Não chega dizer que essas empresas
merecem a eterna dispensa de IRC (porque fizeram o mais desinteressado dos mecenatos): essas empresas merecem clientes, muitos
clientes criteriosos que as distingam com o seu bom gosto — e que as enriqueçam com o seu dinheiro.
Mas lembremos também (e só depois oremos...) os nossos leitores. Quantos eram? Vinte, cem,
quinhentos, mil? Segundo os cálculos do nosso departamento de estatística (tão qualificado quanto o nosso
departamento financeiro), não é possível assegurar se eram vinte, cem, quinhentos ou mil os leitores — mas
havia gente a ler o Eito Fora em Trás-os-Montes. É verdade! Eram vistos, por vezes. Há testemunhas!
Ao contrário da «empreza» da Illustração Trasmontana, nós acreditamos que em
Trás-os-Montes «há transmontanos bastantes». Tantos, que era para vários deles que fazíamos o Eito
Fora. E alguns nem constavam da nossa ficha técnica! Lá onde estão, «suspensos das enlevadoras fragas
trasmontanas, cheios de enthusiasmo e do amor» por algo mais do que «a nossa magestosa provincia», os nossos leitores sabem que
só por eles valeu a pena fazer o Eito Fora. Quando nos encontrarmos com eles nas várias esquinas da vida
(que são mais do que as que existem entre Vila Real e Chaves e Montalegre e Bragança), eles saberão
perdoar-nos a arrogância, o desplante, o cinismo e outros defeitos da nossa prosa — e nós saberemos prostrar-nos
humildemente perante eles, lembrando (como se fosse preciso!) que não era deles que falávamos quando
falávamos mal.
E haverá ainda que lembrar, agradecer e louvar o Grupo Desportivo e Cultural de Vilarelho (GDCV), com
a sua abertura de espírito, a personalidade ímpar, o carácter vertical, frontal e ousado, a capacidade de
agregar, de acarinhar... É certo que o Eito Fora saiu pior do que a encomenda do GDCV — mas sempre o GDCV pagou e
não bufou. Ou antes, bufou, e muito, quando, desagradecidos, duvidávamos da sua vontade de aprofundar a ruptura,
agravar a marginalidade, sublimar a resistência... Por ti, GDCV, somos todos (e seremos) orgulhosos vilarelhenses, mesmo
que sejamos de Souto ou de Tourencinho ou de Águas Revés ou de Pedras Salgadas ou de Vila Real ou do Porto ou de
Lisboa ou do raio que o parta! Por ti, GDCV, viva Vilarelho! A metáfora e a aldeia.
2. Feito o elogio do cadáver, dancemos-lhe sobre a tumba
Mas avancemos, antes que a lamechice faça de nós bons transmontanos. Avancemos, porque urge
dançar na tumba do Eito Fora. Não se mata um jornal para ficar a louvar-lhe o cadáver (outros o fariam
com todo o gosto: o Eito bom é o Eito morto). Mata-se um jornal para que outras vozes se levantem. Mais
desafinadas, como convém.
A pressa que temos de acabar com o Eito Fora é a pressa que temos em nos metermos em novas e
excitantes aventuras.
Não é tradição transmontana o risco, a ânsia pelo desconhecido, a vontade de
alargar horizontes. Por isso, aquilo que se segue não cabe nos moldes do que é ser tradicionalmente transmontano.
Ainda que seja feito em Trás-os-Montes. Em Vilarelho. De novo.
O que se segue navega as mesmas águas do Eito Fora — mas mais ao largo. O que se segue pretende-se
temerário, audacioso, inconformista, irreverente, como o Eito Fora. Mas o que se segue não podia ser o Eito
Fora, porque o que se segue pretende-se mais ambicioso e exigente.
Sabemos que ninguém nos encomendou tal viragem de rumo (muito pelo contrário!..., aquilo que nos
encomendam entedia), mas aquilo que segue terá mais literatura, mais crítica, vária crítica, mais arte.
Mais geografia...
Com aquilo que se segue perderemos os leitores periclitantes, mas não importa. Queremos leitores ousados,
atrevidos, exigentes, e vamos procurá-los onde os houver. Se não aqui, nalguma rede de livrarias pelo país
abaixo. Ou na ficha técnica do Eito Fora...
Aquilo que se segue poderá ter talentos ignorados — se eles saírem da toca de timidez onde se
acobardam —, mas terá gente "consagrada".
Aquilo que se segue é uma revista. Chama-se Periférica. Pode ver-lhe o logotipo e
as capas (experimentais) nas últimas páginas do Eito Fora. E poderá vê-la nas bancas dentro de
meses. Aguarde. Não se arrependerá.
Matámos o Eito Fora para começar de novo. Nós escolhemos mover-nos em terrenos mais
exigentes e movediços do que aqueles que vimos trepando. (Isso é estar vivo, não é?) Poder-se-á
dizer o mesmo desta região e das gentes que nela habitam?