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antologia
EITO FORA n.º 8


Reviver o passado em Vilarelho

8 Número 8. Junho/Julho de 1999

Junho de 1999 foi um mês especialmente quente. Nada nos tirava das esplanadas e havia um jornal para fazer. Não houve entrevistas, quase não houve reportagens — houve improviso. Na capa, o Paulo Leitão e o garrafão serviam novamente de modelos. Desta vez o tema era o êxodo rural, na sua vertente estival. Demos connosco a concorrer com a Rotas & Destinos. Por azar, os nossos repórteres não eram pagos para visitar um destino exótico e escrever sobre ele. Ainda assim, as nossas propostas de férias — que iam da sereníssima Fátima aos relaxantes Balcãs, dos recompensadores hipermercados às revigorantes praias algarvias — não defraudaram quem as seguiu.

A outra vertente do improviso chamava-se "Cultolices" e falava da cultura que se pratica em Trás-os-Montes. O nome diz tudo.

Capa do EITO FORA n.º 8

Cultolices (ilustração de Paulo Araújo)
Cultolices (ilustração de Paulo Araújo)

Editorial

«Há em Portugal uma estranha e colectiva aversão ao conhecimento. Cá, o termo intelectual é insulto. Os que o são costumam melindrar-se.
(...)
De Saramago, o brando e boçal povo lusitano gosta sobretudo de lembrar a inexistência de diplomas universitários. Como se o homem não tivesse lido mais nada desde o manual da primeira classe, a exemplo do bom povo.
Nas universidades, para obstar a que estas sejam uma espécie de antecâmara das torturas que aguardam os intelectuais, evita-se a todo o custo formá-los. As TV's, cumprindo um desígnio nacional, esforçam-se o mais que podem para entorpecer os espíritos e impedir veleidades para lá do primarismo sensorial.
Os intelectuais da comarca transmontana, tão amigos que são do povo e das suas tradições, dedicam-se com tal ênfase ao estudo etnográfico e antropológico das raízes, que ignoram a demissão deste povo de tudo o que não seja isso mesmo: tradição cultural.
(...)
À força de tanto jornal desportivo e de tanto big show (as únicas alternativas culturais à tradição), a opinião pública é apenas uma manifestação instintiva. O espírito crítico das populações não é um exercício mental, é uma reacção conservadora. Mesmo quando estas julgam defender o progresso.
Não admira que os eventos culturais tenham, aqui, um carácter quase exclusivamente pedagógico. A música e o teatro surgem-nos sempre com o embrulho da pedagogia, do incentivo, da formação. Raramente com a intenção de desfrute intelectual (salvo raras excepções, como os "Encontros de Música da Casa de Mateus). (...)
(...)
Mais deprimente do que assistir à caça às bruxas intelectuais é vê-las renegarem as suas convicções diabólicas diante do primeiro fósforo aceso. (...)
Afinal, quem pretende insultar alguém com o epíteto intelectual só constata a sua inépcia. Ainda que, claro, não o saiba.»

 


'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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