|
Número 3. Agosto de 1998
No número três a coisa requintava-se. "Manifestos" era o tema da capa. Sob o mote, dois ou três textos
faziam alguma mossa no verniz regional. Reproduzem-se excertos de dois deles. A Voz de Trás-os-Montes ganhava o
estatuto de símbolo da indigência regional.
Graficamente, o pobre Eito, que já aparentava diferenciar-se, ia procurando melhorar. Pela primeira vez
recorria-se a um portfólio fotográfico. Era de Rui Ribeiro e focava a Tabopan, uma fábrica abandonada no
Vale de Aguiar.
Na contracapa, seguindo a maquetização que quase sempre vigorou, caricaturava-se uma figura que se destacava
pela negativa na região. A sorte grande calhou, desta vez, ao inefável Pires Brás, analfabeto director do
jornal Negócios de Valpaços. Adquiríamos a nossa primeira crítica violenta.
|
 |
Não se manifeste! Não se incomode! P'ra quê? O que é que ganha
com isso? Chatices e confusões? Deixe-se estar sossegadinho e não meta o nariz onde não
é chamado. Adianta alguma coisa? Acha que vai mudar o mundo? Nem lhe liga!...
Manifestar-se?... A propósito de quê? Alguém lhe perguntou alguma coisa? Mas quem
julga que é?
Ovelha que berra bocado que perde.
Quem muito fala pouco acerta. Pela boca morre o peixe. Bem razão tem o povo em estar calado. Nunca se sabe o que
lá vem...
Manifestos, manifestos... Coisa de comunas! Cruzes!
Baixe a bolinha, que o respeito é muito bonito. Deixe-se de tretas e esteja calado se não ainda o
fodem!
Bem, vá lá para casa e tenha juízo.

Ruínas da Tabopan (fotografia de Rui Ribeiro)
Manifesto Anti-A Voz de Trás-os-Montes
«(...)
A Voz de Trás-os-Montes é o exemplo acabado do que faz mal a Trás-os-Montes: a credulidade, a
ausência de espírito crítico, a falta de ousadia e inovação, o saudosismo exacerbado, o
lirismo inconsequente, a demagogia de púlpito, a lisonja da mediania, quando não da mediocridade. Em cinquenta
anos de jornal não há nada que distinga o primeiro número do último.
(...)
Cega, não se revê em "O crime do Padre Amaro"; anacrónica, não percebe que era dela que
Eça falava nos seus retratos da sociedade portuguesa do século XIX.
(...)
A Voz de Trás-os-Montes é rouca. Devia ir ao médico.»
Rui Ângelo Araújo
|