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antologia
EITO FORA n.º 16


Reviver o passado em Vilarelho

16 Número 16. Fevereiro de 2001

No nosso terceiro aniversário decidimos atribuir prendas à imprensa regional transmontana — desta forma provando que a lemos. Um mea culpa generoso. Chamámos à dádiva os "Prémios 'Calhau' da Imprensa Transmontana". O valioso trofeu, a que tiveram direito as luminárias que pululam nos jornais da região, era um magnífico calhau. Nesta terra, que haveria de mais representativo?

O questionado nesta edição era o escritor António Cabral, mas para os copos fomos a Bragança. Reportagem em movimento (foram cinco os locais da entrevista) com Leandro Vale e a sua companhia de teatro. Pagou-nos o jantar. Um mês depois retribuímos, quando eles trouxeram o teatro a Vilarelho.

Na contracapa, Paulo Araújo, músico, poeta, pintor, dedica uma ode a todos os músicos, poetas e pintores. E ao público. Vejam-na.

Palmira
A Palmira não foi capa — mas devia ter sido

Dedicatória

«(...)

Ó músicos narcisistas e languinhentos
intérpretes em decomposição
ó filhos de pautas diminutas
fazei-me o obséquio de parar de tocar
de tanger essas guitarras gementes
porque me tirais da compostura
calai-me esses instrumentos
de uma vez por todas
que ainda me dá uma síncope
ó batutas rambanas
ó comparsas ternários
ó sinfonias rolantes
ó adoradores de Bach que bebeis em sua honra
aduladores de barba de três dias
moldadores de barro de Barcelos
ocarinas em forma de galo
jarros que enfeitais as montras
charros de bebedeiras monstras
ó fígaros da púcara
ó plágios de domingo
ó fantasmas tenores da ópera
ó solistas ó sulistas «ó sole mio»
ó bitolas de Beethoven
noctívagos de Chopin
monges chupistas de Béla Bartók
ó Béla Bar toca
toca a marcha do defunto
porque o que eu quero
é que essa cambada de melros
tocadores de sinfonietas
se extinga molto presto
nem mais um andamento
nem allegro nem pianissimo
para essa escuma de músicos
irra!
só ao pronunciar a palavra
dá-se-me um arrepio na espinha

ó romancistas parasitas da escrita
ó poetas piegas
ó sonetos medidos ao milímetro
«ó alma minha que não sossegas»
ó carneiros barrigudos e pessimistas
que passeais os vossos cornos intelectuais
pelas ruas de Paris
ulálá
e vós saramagos seres amargos
que paristes ensaios invisíveis
onde pusestes os pontos que não os vejo?

ó portugas apessoados que fingis
que fingis o que deveras fingis
ó portugas imbecis que fugis
da literatura como o diabo da cruz
ai Jesus ai Jesus
que se me arrepia a espinha
Capa da edição n.º 16
Infelizmente, a capa foi esta...

(...)

(...)

(...)

(...)

ó retratistas impertigados
ó trinchas rabugentas
ó cubistas de cabeça quadrada
ó clubistas do forrete
ó ratazanas bolorentas
que vos tendes como vanguardistas
mas não sois mais do que umas
míseras térmitas de museu
ainda por cima de arte sacra
arte sacra criaturas
irra!
que se me arrepia a espinha

agora vós gentalha do teatro
actores autores contra-regras
seres sem questão
personagens sem carácter
sem cafeína sem corantes
actores pseudofuturistas
detractores em todas as directrizes
malabaristas de Shakespeare
que já nada sois como dantes
nem trágicos nem comediantes
ó marionetes cambaliantes
camaleões comilões de vós próprios
insectos suicidas insecticidas
omeletes vicentinas
ó figurantes fedorentos
ó talentos parcos
tirai-me essas patas do palco
que não me deixais ver o cenário
(...)

e finalmente tu
abominável público
tu essa estranha forma de vida
a ralé pública
a mó anárquica
a turba
a grande manada
a cornadura humana
tu abdominável público
não penses que te absolves
porque tu não pensas
o público não pensa
existe
o público gosta é de Auchwitz
e não gosta de pintura nem de literatura
mas gosta da filha da vizinha e de ir à bola
e de ir à merda
o público gosta da coisa pública
o público gosta de pêlos púbicos
o público não é pudico
o rubicundo público
o rechonchudo público
boçal
serôdio
ronceiro
bronco
obtuso

irra!
só de pensar nessa massa movediça
dá-se-me um arrepio na espinha»

Paulo Araújo

 


'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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