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antologia
EITO FORA n.º 15


Reviver o passado em Vilarelho

15 Número 15. Dezembro de 2000

Na crítica social que se faz é costume poupar o povo, como se ele ainda existisse na forma ingénua e inocente de Victor Hugo. Aqui no Eito temos uma ideia diferente do povo actual. Rui Ângelo Araújo disse-o com todos os pontos e vírgulas. O texto correu a Internet. Houve grande indignações e o país esteve à beira de uma revolta popular.

Por uma vez, saímos em defesa do Maravilhoso Reino Transmontano. Movidos sabe-se lá por que remorso, apresentámos ao mundo ignaro as "Sete Maravilhas de Trás-os-Montes". A escolha foi difícil, perante tanta magnificência. Ficam aqui apenas dois exemplos.

Para a entrevista fomos a Vilar de Perdizes procurar o mediático Padre Fontes (não estamos imunes a fraquezas). A entrevista foi boa e os leitores souberam-no. Os licores que António Lourenço Fontes prepara é que foram privilégio nosso. A noite ia alta e fria, a lareira crepitava e as misturas de aguardente com ervas aromáticas transportavam-nos para o reino dos céus. No regresso, nem com 0,5g/l nos safávamos...

As 7 Maravilhas de
Trás-os-Montes

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2ª Maravilha: Gasolineira Suspensa da Campeã

Gasolineira Suspensa da Campeã (foto de Fernando Gouveia) Na mítica — e tantas vezes vilipendiada — Babilónia situava-se, ao que se diz, a segunda maravilha do mundo antigo: os Jardins Suspensos, mandados construir por Nabucodonosor II para agradar à sua mulher, originária da montanhosa região da Média. Segundo Estrabão, Fílon de Bizâncio e outros, era algo como uma gigantesca torre com jardins em patamares ou socalcos, irrigados por um complexo sistema hidráulico.
Mas a verdade é que este prodígio técnico-arquitectónico poderá nunca ter existido, excepto na cabeça dos historiadores e poetas gregos — ao contrário do posto de gasolina que alcantiladamente se ergue sobre o ubérrimo vale da Campeã; esse, brotando da fonte inesgotável que é a imaginação dos engenheiros que construíram o IP4, tornou-se realidade, para maior glória de Trás-os-Montes. Que outra região em Portugal — no Mundo! — se deu a tal trabalho para materializar a metáfora do preço dos combustíveis? Uma vez mais, os transmontanos mostram o caminho.

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"Igreja Geodésica" de Castro (Alijó)

Igreja Geodésica de Castro (foto de Maria Filomena) O primeiro farol (como estrutura permanente) de que há registo constituiu-se como a sexta maravilha do mundo antigo; situava-se no delta do Nilo, não longe de Alexandria, mais exactamente na ilha de Faros, de onde lhe ficou o nome. [...] propomos para correspondente transmontano de tão luminoso monumento a capela que se encontra num cume próximo do cemitério de Castro, Alijó.
A sua condição eclesiástica justifica, desde logo, a vocação farólica de emanador da Luz da Fé, se bem que, sendo uma estrutura desprovida dos modernos meios de comunicação, a capela de Castro apenas seja eficaz para as almas que naveguem "à vista" (ao contrário da igreja de Santo António, em Vila Real, que, transmitindo a liturgia para o exterior através de megafones, é igualmente redentora em dias de nevoeiro...).
Onde reside, então, a vantagem justificadora de ser esta, e não outra, a igreja eleita? Pasmem, mas o factor decisivo proveio, não da Igreja Católica, mas dos Serviços Geográficos do Exército, mais exactamente dos militares que colocam os marcos geodésicos. Estes, lendo strictu sensu o livrinho que diz que os marcos devem ser levantados nos cumes dos montes, deitaram mãos à obra, com o resultado que a fotografia documenta.
Assim, os que deram à capela de Castro a forma de farol foram igualmente os primeiros agraciados (a priori, o que é milagre maior!) pela sua luz — pois só mesmo uns "iluminados" se lembrariam de pôr o marco em tal sítio.

(...)»

Fernando Gouveia


Povo, povão, povaréu

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Aquele povo definhou. Está extinto. Tem sete palmos de terra por cima. Eclipsou-se.
O povo actual (...) conservou os defeitos do bom povo queirosiano — mas perdeu todas as virtudes. Salvo meia dúzia de idosos que vão enfeitando os umbrais das portas das aldeias históricas de Portugal (...)
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As classes unem-se pela falta dela. De classe. O assalariado reserva a noite para ver as novidades do "Big Brother" — o patrão grava-as em vídeo. A sopeira perde horas a ver a Maria — a patroa lê a Caras. O prestador de serviços filosofa exclusivamente sobre os programas de futebol que vê — o profissional liberal vai aos programas expor a metafísica da bola. O cidadão comum tem caprichos imbecis — o governante não olha a meios para agradar ao povão (de que, de resto, faz parte).
(...)
Quem está hoje nos diversos órgãos de poder é o mais vil, o mais boçal povo. O povo não se pode queixar da má governação porque é ele quem governa. Não temos líderes políticos — temos representantes do povo. Os detentores de cargos públicos estão lá para satisfazer os piores caprichos do povo. (E fazem-no com suma perfeição e requinte!)
O povo do tempo do Eça era boçal, ignorante, crédulo, rústico, bruto — mas tinha virtudes. Hoje é boçal, ignorante, crédulo, suburbano, bruto — e tem telemóvel.
(...)»

Rui Ângelo Araújo

 


'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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