As 7 Maravilhas de
Trás-os-Montes
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2ª Maravilha: Gasolineira Suspensa da Campeã
Na mítica — e tantas vezes vilipendiada — Babilónia situava-se, ao que se diz, a segunda
maravilha do mundo antigo: os Jardins Suspensos, mandados construir por Nabucodonosor II para agradar à sua mulher,
originária da montanhosa região da Média. Segundo Estrabão, Fílon de Bizâncio e outros,
era algo como uma gigantesca torre com jardins em patamares ou socalcos, irrigados por um complexo sistema hidráulico.
Mas a verdade é que este prodígio técnico-arquitectónico poderá nunca ter existido,
excepto na cabeça dos historiadores e poetas gregos — ao contrário do posto de gasolina que alcantiladamente se
ergue sobre o ubérrimo vale da Campeã; esse, brotando da fonte inesgotável que é a
imaginação dos engenheiros que construíram o IP4, tornou-se realidade, para maior glória de
Trás-os-Montes. Que outra região em Portugal — no Mundo! — se deu a tal trabalho para materializar a metáfora
do preço dos combustíveis? Uma vez mais, os transmontanos mostram o caminho.
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"Igreja Geodésica" de Castro (Alijó)
O primeiro farol (como estrutura permanente) de que há registo constituiu-se como a sexta maravilha do
mundo antigo; situava-se no delta do Nilo, não longe de Alexandria, mais exactamente na ilha de Faros, de onde lhe ficou
o nome. [...] propomos para correspondente transmontano de tão luminoso monumento a capela que se encontra num cume
próximo do cemitério de Castro, Alijó.
A sua condição eclesiástica justifica, desde logo, a vocação farólica de
emanador da Luz da Fé, se bem que, sendo uma estrutura desprovida dos modernos meios de comunicação, a
capela de Castro apenas seja eficaz para as almas que naveguem "à vista" (ao contrário da igreja de Santo
António, em Vila Real, que, transmitindo a liturgia para o exterior através de megafones, é igualmente
redentora em dias de nevoeiro...).
Onde reside, então, a vantagem justificadora de ser esta, e não outra, a igreja eleita? Pasmem, mas o factor
decisivo proveio, não da Igreja Católica, mas dos Serviços Geográficos do Exército, mais
exactamente dos militares que colocam os marcos geodésicos. Estes, lendo strictu sensu o livrinho que diz que os
marcos devem ser levantados nos cumes dos montes, deitaram mãos à obra, com o resultado que a fotografia documenta.
Assim, os que deram à capela de Castro a forma de farol foram igualmente os primeiros agraciados (a priori, o
que é milagre maior!) pela sua luz — pois só mesmo uns "iluminados" se lembrariam de pôr o marco em tal
sítio.
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Fernando Gouveia
Povo, povão, povaréu
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Aquele povo definhou. Está extinto. Tem sete palmos de terra por cima. Eclipsou-se.
O povo actual (...) conservou os defeitos do bom povo queirosiano — mas perdeu todas as virtudes. Salvo meia dúzia de
idosos que vão enfeitando os umbrais das portas das aldeias históricas de Portugal (...)
(...)
As classes unem-se pela falta dela. De classe. O assalariado reserva a noite para ver as novidades do "Big Brother" — o
patrão grava-as em vídeo. A sopeira perde horas a ver a Maria — a patroa lê a Caras. O
prestador de serviços filosofa exclusivamente sobre os programas de futebol que vê — o profissional liberal
vai aos programas expor a metafísica da bola. O cidadão comum tem caprichos imbecis — o governante
não olha a meios para agradar ao povão (de que, de resto, faz parte).
(...)
Quem está hoje nos diversos órgãos de poder é o mais vil, o mais boçal povo. O povo
não se pode queixar da má governação porque é ele quem governa. Não temos
líderes políticos — temos representantes do povo. Os detentores de cargos públicos estão
lá para satisfazer os piores caprichos do povo. (E fazem-no com suma perfeição e requinte!)
O povo do tempo do Eça era boçal, ignorante, crédulo, rústico, bruto — mas tinha virtudes. Hoje
é boçal, ignorante, crédulo, suburbano, bruto — e tem telemóvel.
(...)»
Rui Ângelo Araújo