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Número 14. Setembro de 2000
Nesta edição publicávamos as verdadeiras "Lições do Tonecas". Muito mais profundas e
esclarecedoras do que o triste programa da TV, as lições foram recolhidas em testes e exames de uma escola da zona
do Porto, e, para além de enriquecedoras, eram hilariantes. O ensino português no seu melhor: «A democracia grega era
perfeita porque havia um que mandava em tudo»!
Por vezes a Igreja desvia-se do seu rumo e toma a Sé pela Fé, com o patrocínio do Estado. A
faraónica catedral de Bragança servia de mote para provocações onde se maltratava o clero, a
nobreza e o povo. Todo o espectro social, enfim.
No Eito Fora somos piores que traças: adoramos livros. Estar num alfarrabista entre centenas deles é como
estar no céu entre anjos. Nuno Canavez, transmontano de Mirandela, é livreiro no Porto. Fomos lá e safamo-nos.
«As traças também têm que viver, coitadas...», diz ele.
Na escrivaninha, secção literária do Eito Fora, mais ou menos constante ao longo das
edições, pela primeira vez publicámos um conto. Chamava-se "Giralua" e assinava-o Carlos Teixeira.
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Tomar a Sé pela Fé
«Quando já todos duvidávamos da capacidade de aggiornamento da Igreja católica...
(...)

Cartoon de Paulo Araújo |
O perspicaz D. António notou que a Igreja, na seu sentido abstracto, de congregação de espíritos,
tem hoje dificuldades em proporcionar abrigo e conforto às almas brigantinas. Com o incremento da construção
civil e o incentivo ao empréstimo bancário as ovelhas albergam-se em modernos T3 com garagem e ignoram as "casas
de Deus" — mesmo em dias de tempestade. A verdade é que, num mundo materialista só há uma maneira de se
construir uma Igreja: literalmente. Foi esta a revelação.
O conservador D. António Rafael mostrou-se, afinal, um pragmático. Através de uma mexida nos dogmas da
língua, eis o subtil aggiornamento proposto: "Pela 'Sé' nos movemos!".
Muda-se uma letra, gastam-se dois milhões de contos numa nova catedral e temos a Igreja à la page com
os tempos modernos.
(...)
Resumindo: o update bragançano é este: "Perde-se a fé, mas ganha-se a Sé!". Não me
parece mal. Dez mil metros quadrados sob o lema "Nem mais uma alma à chuva"...
(...)
Aproveitando a maré de cerimónias, O Sr. Bispo, que já tinha realizado um baptizado, poderia ter
abençoado um matrimónio. O Estado e a Igreja. O macho viril, entroncado, negra madeixa ao vento — e mãos
largas. A fêmea recatada, pudica — mas vaidosa. Com a entrada do poder local na relação, teríamos
uma ménage à trois na sacristia.
Tudo a bem da Nação!
(...)
Se o Sr. Bispo desejasse os "jardins suspensos da Babilónia", o povo achava caro — mas resignava-se. Se o Ministro
do Sino, desatento dos incêndios florestais, oferecesse helicópteros aos senhores padres, a população
ruborizava de cólera — e resignava-se. Se a Câmara deliberasse cobrar o dízimo juntamente com a taxa da
água, o vulgo não mais tomava banho, em protesto — e quando o cheiro fosse insuportável... resignava-se.
Em Trás-os-Montes a "sé" é inabalável!»
Rui Ângelo Araújo
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