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Número 13. Junho/Julho de 2000
Esta edição comprovou que há razões para ser supersticioso, ainda que não acreditemos.
Por brincadeira, tínhamos escrito na capa que este número (era o 13º) dava azar. E deu. Estava o trabalho
pronto na tipografia quando alguém detectou que faltava texto na contracapa. Teve que ser feita de novo. Mais uns dias
de atraso. Azar. O caricaturado da contracapa era o Sr. Padre António Maria Cardoso, director de A Voz de Trás.
Terá o azar sido intervenção divina? Cruzes!...
Mas no número 13, ainda alheios aos azares da vida, fazíamos o mais completo e fiel retrato que já se
fez do transmontano, esse ser superior. (Ficam excertos.) Contra a tradição, houve reacções.
Tímidas, mas reacções, ainda assim. Ainda haverá esperança?
O entrevistado era o Paulo Castro, renomado actor e encenador. De Vila Real, mas a trabalhar no Porto. Claro...
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Cartoon de Paulo Araújo |
O transmontano
«O transmontano é pobre — mas mítico. Dele dizem-se maravilhas. Mas será que todos sabem
do que se fala quando se fala de transmontanos?
(...)
Orgulhoso da sua identidade, o transmontano resiste com ferocidade a qualquer tentativa de aculturação. Se lhe
vêm com hábitos culturais que não os seus — uma ida ao teatro, o respeito pelo código da estrada, a
observação da natureza, a leitura de um livro... —, toma o freio nos dentes e resiste como mula desavinda ao dono
abusador. A coices, evita os malefícios da literatura. À simples menção de Shakespeare, invoca o
soldado Milhões e adopta a táctica do quadrado. Orgulhoso do seu carácter enrijecido pelo
xisto e pelo granito, responde à pungência de um drama com sonoras gargalhadas. De Lobo Antunes ignora os escritos
— mas teme-lhe o nome; tendo-o à vista reage gritando "passa fora!", enquanto se recolhe com o rebanho, numa
manobra táctica apreciável. Temendo a influência da poesia na sua mítica maneira de ser, o
transmontano contra-ataca com um bem lavrado molho de quadras repentinas. A versalhada é a sua piéce de
resistence.
(...)
Tendo de si próprio uma visão mítica, o transmontano assume-se fiel defensor das tradições.
Tradição é, por exemplo, pedir a Deus a sorte grande na lotaria — e não jogar.
(...)
O transmontano, se houvesse que compará-lo na pureza da raça, seria com o puro-sangue lusitano — e na
resistência à mudança, com o não menos lusitano jerico.
(...)
Vítima de tudo e todos (excepto de si mesmo), o transmontano vive um calvário. Como um Cristo agonizante, o
seu reino não é deste mundo. Onde ele se erige em todo o seu esplendor é no lugar-comum, no reino
do cliché. Atarefado a mitificar-se, o transmontano não tem tempo para se pensar — define-se pelo que sói
dizer-se. Um chavão é o máximo que lhe sai.
(...)»
Rui Ângelo Araújo
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