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Número 12. Abril/Maio de 2000
Segundo aniversário.
O grupo de teatro Visões Úteis estava acampado
na casa florestal de Arnal, sobranceira a Vila Real, no Parque Natural do Alvão. Fomos vê-lo actuar na aldeia de
Lamas de Olo. Não, não era a "Farsa de Inês Pereira" ou comédia afim; era "O Veredicto" de Kafka.
Estavam 80 pessoas na sala e não arredaram pé... A rapaziada do Visões Úteis seduziu-nos pela
atitude de exigência, qualidade e verticalidade e pelo discurso inteligente e acutilante. Deles fizemos capa e slogan:
"A Necessidade do Bom". Reproduzimos algumas das coisas que se disseram na altura.
Em entrevista tínhamos J. B. César, o jornalista mais interessante de todo o reino transmontano. Se calhar o
único.
Questionário com Pires Cabral, talvez o mais célebre dos escritores transmontanos.
Apesar da seriedade dos principais temas da edição (ou até por isso), O Jeito revelava ao mundo
que o logotipo da Presidência Portuguesa da União Europeia poderia ter sido plagiado de um quadro de Salvador
Dalí, como as imagens documentavam com seriedade. Ninguém piou. Percebemos, então, que tínhamos que
apostar mais nos leitores de fora...
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Fotografia da capa: Paulo Pimenta (Visões Úteis) |
O Veredicto final ao provincianismo que incompatibiliza o teatro sério com o mundo rural
(...)
Depois do Visões Úteis dar "o veredicto" final ao provincianismo que incompatibiliza o
teatro "sério" com o mundo rural, fomos "ver-lhes o umbigo" na Escola Ecológica de Arnal, onde os contrastes que
o Alvão potencia só se mantiveram pelo confronto constante entre a montanha e a cidade luminosa umas centenas de
metros abaixo. Em tudo o resto sentiu-se harmonia. Mesmo com o vento soprando de sul. Ali pudemos compreender que se o
Visões Úteis representa autores "difíceis" na rural Lamas de Olo, recusando os nomes do
mainstream provinciano e o paternalismo dos que sendo iguais se julgam diferentes, é porque repudiam «os estreitos
moldes de vida e produção artística em que as "mentes esclarecidas" tentam enfiar-nos.» Talvez por isso
sejam honestos quando dizem que não querem nivelar por baixo aquilo que fazem, razão maior para que Kafka venha
à montanha e se sinta bem por cá.
(...)
«Aquela história de que o acesso à cultura seja feito sistematicamente por baixo, seja sempre
pelos mesmo autores, sempre pelas mesmas historinhas, é uma forma de aprofundar a discriminação, é
uma forma de fazer constantemente as pessoas evoluírem a partir de muito pouco, para nunca chegarem aos outros que o
fazem a partir de muito.»
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A imitação (extracto) |

O quadro de Salvador Dalí |
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A banda desenhada de Pitchu foi contracapa da edição
12 (foi a única vez, vergonhosamente).
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