|
Número 11. Janeiro/Fevereiro de 2000
Excelente entrevista de Paulo Vaz de Carvalho. Excelente capa de Elsa Garcia. Reincidência de O Jeito (havia que
alimentar o ego dos aguiarenses). Questionário a Camilo de Araújo Correia, escritor reguense, filho de João
de Araújo Correia. Reportagem com Fernando Meireles, construtor de instrumentos e músico dos Realejo. Breve
história da sanfona, instrumento outrora utilizado (também) em Trás-os-Montes.
Mas calemo-nos que o Paulo quer falar.

Esta ilustração da Elza Garcia
não é desta edição) é da
anterior), mas fica aqui bem...
|
 |

ilustração da capa: Elza Garcia |
«(...)
Para mim conversar é um dos mais altos prazeres da vida. Há um prazer de partilha. Se eu gosto muito de conversar
sou capaz de procurar as melhores palavras que sei, os melhores modos de as dizer, por respeito à conversa. Eu acho que
é muito triste que, tendo nós uma língua tão rica, tão cheia de nuances — não
é preciso dizer nuances, basta dizer subtilezas — cheia de cambiantes, cheia de variantes, de matizes, cheia de
pigmentações...
(...)
Ser autor é ser corajoso. Não é ser temerário. É ter a coragem de fazer assim por uma
profunda convicção. Há muitos autores que não são autores de nada, não decidiram nada,
deixaram-se levar pela corrente e por um dia de bom negócio. Os autores começam onde acabam as vozes dos
críticos, os pedidos dos ouvintes, depois de vendido o último bilhete.
(...)
Transmontanos é um nome. Para nós, os outros é que são transmontanos. Qual é a frente e
qual é traseira do monte? O nome transmontano quer dizer que está atrás do monte, e portanto sugere sempre a
ideia de alteridade, do outro lado, numa margem até mais obscura. A margem de trás, o lado de trás. Só
há uma comunidade capaz de acabar com essa ideia: o povo transmontano. Nós temos que provocar a ideia de que do
"Alto de Espinho" até ao Atlântico são um bando de transmontanos. Todos. Se conseguirmos que a luz
nasça daqui, o problema resolve-se.
(...)
No século de todas as teorias da comunicação, dá-se um divórcio; no século de todas
as proximidades da informação, dá-se um dramático virar de costas entre o público e os criadores.
Principalmente na música e parcialmente na pintura, o que é lamentável. Isto resulta em muitos autores a
escreverem para a gaveta, outros a escreverem apadrinhados por instituições, e raramente sustentados pelo
próprio público.
(...)
A estupidez é um invólucro que está mais ou menos a sufocar muita gente.
(...)
Eu ouvi muitos concertos ao som da neve, em Viena, em Paris, com temperaturas muito baixas. Um bocado de frio no cachaço
não faz mal a ninguém. É preciso as pessoas sentirem que as coisas têm que ser procuradas. Cada pessoa
tem que ter o prazer de conquistar um livro, ou um concerto, ou um filme. Ou um amor. Tudo tem que ser conquistado.
(...)
É preciso principalmente mexer com o bem estar pardo e podre. (...) É preciso mexer com os nossos hábitos
preconceituosos.
(...)
Uma janela pode ter um metro quadrado, mas dela podem-se ver as galáxias.
(...)»
|