
Ilustração de Paulo Araújo |
Merdicionário
extractos
«Ateísmo: Não acredito nessa merda.
Censura: #####.
Deus (no Monte Sinai): Tira as sandálias de teus pés, pois a merda que pisas é sagrada.
Dislexia: Deram.
Ecumenismo: No fundo, acreditamos todos na mesma merda.
Fat'wa: A culpa desta merda toda é do Salman Rushdie.
Fernando Pessoa: Não fui eu que escrevi esta merda — foi o Alberto Caeiro.
Fracção de segundo: Cagagésimo.
Generosidade: Esta merda é toda vossa.
Indecisão: Não sei que merda faça...
"Pimba": Música de merda.
Music Stars: Supertramp.
Testemunhas de Jeová: Bom dia. Tenho aqui umas merdas para o senhor ler...
Vandalismo: Vamos partir esta merda toda!»
Fernando Gouveia
S. Ex.ª A Merda
«(...)
Segundo números fidedignos (obtidos numa olhadela em volta), a merda ocorre em quantidade superior ao
baixar de calças per capita (ou, mais correctamente, per cu). Este facto, que poderia significar um
índice de desarranjo intestinal algo grave para os fundilhos, deve, no entanto, ser explicado à luz de outros
cânones. Vinda dos interstícios menos mencionáveis no seio de uma sociedade que se quer politicamente
correcta, a merda insinua-se alarvemente (lá está, um paradoxo de merda) e só a permissividade ou
incapacidade cognitiva dos cidadãos lhe permite vida longa e profícua (a merda costuma casar, ter muitos filhos
e ser muito feliz). Como tudo o que cheira mal (...), a merda é facilmente detectável, mas uma estranha
identificação por parte de muitos daqueles que com ela convivem permite-lhe um certo anonimato.
A merda costuma adoptar muitas formas e frequentar não só as piores tabernas como os melhores
salões. A merda é vista nas revistas da especialidade (lado a lado com o resumo da novela), nas televisões
(antes, durante e depois da dita) e até ocupa um largo espaço nalguma imprensa diária. A merda está
em todas (como a Caras).
Não raras vezes a merda, depois de um alegre intervalo de cinco anos, veste capa e batina, para
receber licenciaturas, e logo se torna exigente: «Merda não, doutora Merda, faz favor». Regra geral, à
merda são-lhe atribuídas competências nos mais basilares âmbitos, para que tudo fique na mesma. Ou
pior. Na merda, enfim. É deste modo que temos merda em tudo o que é coisa pública. Merda na Saúde,
merda na Justiça... Na Educação não se mexe porque ninguém gosta de mexer na merda.
(...)»
Rui Ângelo Araújo