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No trilho dos deuses
Só espreitando a Grécia pela lente da sua enorme e criativa rede de deuses para todas as coisas
se lhe encontra algum sentido. Não fora essa atmosfera de desculpas divinas entranhada na forma pachorrenta e deliciosamente
lasciva com que os gregos se entregam ao quotidiano e pareceria um país quase feio em muitos lugares. Não é.
É um mosaico desconjuntado de ocidente e oriente, que parecerá desagradavelmente confuso a quem não lá
for de alma aberta às raízes de uma terra que, como Portugal, carece às vezes de bonomia para lhe vermos toda
a beleza. Outros sítios, porém, parecem saídos directamente dos melhores pensamentos.
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Para quem vai embalado pelas ilusões do classicismo, da refinada cultura grega, da arquitectura
inspiradora, perde três quartos delas entre o aeroporto e a poluidíssima Atenas. Dos subúrbios da cidade —
onde quatro milhões de habitantes se arrumaram como puderam aos pés de sete colinas — ao respectivo centro,
dá para travar suficientes correlações com a lusitana Estrada Nacional 1 para nos sentirmos em casa. As lojas
de materiais de construção, pneus, tractores e outras brutezas necessárias à civilização
desfeiam o percurso e colocam-nos no mesmo ponto de entendimento dos relatórios europeus: tal como acontece cá no
nosso canto do Atlântico, a gente helénica é um povo remediado.
A diferença é que o é com uma elegância digna das colunas da Acrópole, um
ponto de aconchegante beleza num alto da capital densa como uma alcatifa de um branco sujo. Sem uma etnia clara, há uma
aura de fineza clássica na atitude dos gregos. Não há cabeças baixas, humildades sociológicas,
pudores no trato ou cabisbaixezas autocomiseratórias de povo vivente no limiar inferior do Primeiro Mundo.
Além de divertidos como os marinheiros e os comerciantes ladinos que lhe marcaram o estereótipo
histórico, os gregos são definitivamente talhados pelo torno clássico. De uma autoconfiança inspiradora.
Um dos muitos guias sobre o país avisa que dificilmente se encontra um grego aborrecido ou mal humorado. Com tamanho sol e
semelhante paisagem, percebe-se porquê. O tempo corre devagar e os gregos não se preocupam em tê-lo pouco.
Os retalhos da sua cultura afinam pelo mesmo tom. A música enrola-se nos ouvidos sem complexidades de
escala, mas com uma harmonia de vinho suave, azeitonas e queijo fresco. O folclore é, como a paisagem de oliveiras a bater
nas praias de rochas do mar Egeu, feito de delicadezas e de cortesias. A Grécia tem sabores que deixam na língua e
na alma uma digestiva saciedade. A sensação é válida quando se dá um passeio pela borbulhante
Atenas ou quando nos adentramos para o interior atravessado por um sortido de montanhas, ora agrestes, ora rendilhadas, com o
ventre rasgado por rios subterrâneos.
Luxo, pouco. Pitoresco, muito. Presunções de Europa na primeira linha de desenvolvimento,
só quando se vêem os preços em euros dos caríssimos e abundantes artigos turísticos. Em cada
rua da Atenas da classe média, há centenas de lojas destas. Começam a abundar com mais intensidade quando
se caminha em direcção ao sopé da colina da Acrópole. É preciso alguma coragem, porque o
smog que nunca abandona a cidade diariamente polvilhada pelos escapes dos seus três milhões de carros
traduz-se num ar espesso e num calor que pesa. Mesmo assim, quem tiver vontade e garrafas de água fresca suficientes para
atacar em toda a sua densidade esses bairros efervescentes da parte velha pode até encontrar quem fale umas frases de
português e, em simpatia pelos momentos de unilinguagem possíveis, tire trinta por cento a um par de máscaras
da tragédia grega em gesso de origem duvidosa...
O orgulho de Themistokles
Voltando aos deuses e às suas bênçãos que tornaram os gregos gratos à vida
e despreocupados em tudo o resto que transcenda construir o máximo de varandas em redor das suas casas, há que
dizer que não dá para evitá-los. Convém, claro, levar na viagem um nativo orgulhoso que saiba as
histórias dos inquilinos do Olimpo e das suas proles bastardas como a vida dos vizinhos do prédio. O Themistokles
— um grego de sorriso opulento e genética invulnerabilidade ao calor — cumpriu bem esse papel, nos meados de um
Verão que o Mediterrâneo cobrou quase sufocante.
É da ilha de Samos, nascente do melhor moscatel do mundo (se ele o diz, não há porque
não acreditar), mas parece que viveu a vida toda nos lugares mágicos: Delfos, Micenas, Corinto ou nas rochas
caprichosas de Kalambaca onde nascem conventos bizantinos desde o século XII em que se tornou moda eremitar ali. Surgem
aos olhos numa altura de engenharia impossível, a centenas de metros de altura, nos picos de pedras que parecem moldadas
por crianças inábeis na plasticina.
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Na viagem de Atenas para norte, quando se avista a ilha de Salamina, uma das mais próximas da capital
e de onde migram diariamente centenas de pessoas para lá picarem o ponto, é quando o peito de Themistokles mais
incha: é herdeiro do nome do general grego que, por uma feliz interpretação de uma profecia do
Oráculo de Delfos, salvou a cidade na segunda invasão persa, em 480 a.C.
A história merece ser contada. Passavam dez anos desde que, pela primeira vez, os persas gulosos do
território grego tinham tentado a conquista e perdido para a muito mais pequena armada grega, na batalha de Maratona.
Prevendo um segundo ataque, os atenienses foram consultar o Oráculo de Delfos, no templo de Apolo. A resposta da sua
intérprete oficial, a Pitonisa, apenas criou sentido nos pensamentos do general: "Os persas vão conquistar
toda a Grécia, mas quando tudo estiver perdido, vão sobrar as muralhas de madeira no extremo da terra".
Themistokles foi quem conseguiu entre todos os altos dirigentes militares atenienses a melhor empatia com o
desafio de Apolo: evacuou a cidade e mandou toda a população para o Peloponeso (a parte sul da Grécia,
separada do continente pelo canal que liga os mares Jónico e Egeu) e colocou toda a armada de Atenas — as tais "muralhas
de madeira" — ao largo da cidade, diante de Salamina. Os persas entraram em Atenas e devastaram e pilharam até ao tutano
a cidade deserta. Não contando com a recepção no mar, foram vencidos pelos atenienses. Depois, os vivos
regressaram do breve exílio para fazer renascer Atenas naquele que foi um dos períodos de maior prosperidade,
coincidente com a construção do famoso Partenón da Acrópole.
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