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crónica de viagem
TEXTO E FOTOGRAFIAS: dora mota


fotografia de Dora Mota
No trilho dos deuses


Só espreitando a Grécia pela lente da sua enorme e criativa rede de deuses para todas as coisas se lhe encontra algum sentido. Não fora essa atmosfera de desculpas divinas entranhada na forma pachorrenta e deliciosamente lasciva com que os gregos se entregam ao quotidiano e pareceria um país quase feio em muitos lugares. Não é. É um mosaico desconjuntado de ocidente e oriente, que parecerá desagradavelmente confuso a quem não lá for de alma aberta às raízes de uma terra que, como Portugal, carece às vezes de bonomia para lhe vermos toda a beleza. Outros sítios, porém, parecem saídos directamente dos melhores pensamentos.

fotografia de Dora Mota
Para quem vai embalado pelas ilusões do classicismo, da refinada cultura grega, da arquitectura inspiradora, perde três quartos delas entre o aeroporto e a poluidíssima Atenas. Dos subúrbios da cidade — onde quatro milhões de habitantes se arrumaram como puderam aos pés de sete colinas — ao respectivo centro, dá para travar suficientes correlações com a lusitana Estrada Nacional 1 para nos sentirmos em casa. As lojas de materiais de construção, pneus, tractores e outras brutezas necessárias à civilização desfeiam o percurso e colocam-nos no mesmo ponto de entendimento dos relatórios europeus: tal como acontece cá no nosso canto do Atlântico, a gente helénica é um povo remediado.

A diferença é que o é com uma elegância digna das colunas da Acrópole, um ponto de aconchegante beleza num alto da capital densa como uma alcatifa de um branco sujo. Sem uma etnia clara, há uma aura de fineza clássica na atitude dos gregos. Não há cabeças baixas, humildades sociológicas, pudores no trato ou cabisbaixezas autocomiseratórias de povo vivente no limiar inferior do Primeiro Mundo.

fotografia de Dora Mota
Além de divertidos como os marinheiros e os comerciantes ladinos que lhe marcaram o estereótipo histórico, os gregos são definitivamente talhados pelo torno clássico. De uma autoconfiança inspiradora. Um dos muitos guias sobre o país avisa que dificilmente se encontra um grego aborrecido ou mal humorado. Com tamanho sol e semelhante paisagem, percebe-se porquê. O tempo corre devagar e os gregos não se preocupam em tê-lo pouco.

fotografia de Dora Mota
Os retalhos da sua cultura afinam pelo mesmo tom. A música enrola-se nos ouvidos sem complexidades de escala, mas com uma harmonia de vinho suave, azeitonas e queijo fresco. O folclore é, como a paisagem de oliveiras a bater nas praias de rochas do mar Egeu, feito de delicadezas e de cortesias. A Grécia tem sabores que deixam na língua e na alma uma digestiva saciedade. A sensação é válida quando se dá um passeio pela borbulhante Atenas ou quando nos adentramos para o interior atravessado por um sortido de montanhas, ora agrestes, ora rendilhadas, com o ventre rasgado por rios subterrâneos.

fotografia de Dora Mota
Luxo, pouco. Pitoresco, muito. Presunções de Europa na primeira linha de desenvolvimento, só quando se vêem os preços em euros dos caríssimos e abundantes artigos turísticos. Em cada rua da Atenas da classe média, há centenas de lojas destas. Começam a abundar com mais intensidade quando se caminha em direcção ao sopé da colina da Acrópole. É preciso alguma coragem, porque o smog que nunca abandona a cidade diariamente polvilhada pelos escapes dos seus três milhões de carros traduz-se num ar espesso e num calor que pesa. Mesmo assim, quem tiver vontade e garrafas de água fresca suficientes para atacar em toda a sua densidade esses bairros efervescentes da parte velha pode até encontrar quem fale umas frases de português e, em simpatia pelos momentos de unilinguagem possíveis, tire trinta por cento a um par de máscaras da tragédia grega em gesso de origem duvidosa...


fotografia de Dora Mota
O orgulho de Themistokles

Voltando aos deuses e às suas bênçãos que tornaram os gregos gratos à vida e despreocupados em tudo o resto que transcenda construir o máximo de varandas em redor das suas casas, há que dizer que não dá para evitá-los. Convém, claro, levar na viagem um nativo orgulhoso que saiba as histórias dos inquilinos do Olimpo e das suas proles bastardas como a vida dos vizinhos do prédio. O Themistokles — um grego de sorriso opulento e genética invulnerabilidade ao calor — cumpriu bem esse papel, nos meados de um Verão que o Mediterrâneo cobrou quase sufocante.

É da ilha de Samos, nascente do melhor moscatel do mundo (se ele o diz, não há porque não acreditar), mas parece que viveu a vida toda nos lugares mágicos: Delfos, Micenas, Corinto ou nas rochas caprichosas de Kalambaca onde nascem conventos bizantinos desde o século XII em que se tornou moda eremitar ali. Surgem aos olhos numa altura de engenharia impossível, a centenas de metros de altura, nos picos de pedras que parecem moldadas por crianças inábeis na plasticina.

fotografia de Dora Mota
Na viagem de Atenas para norte, quando se avista a ilha de Salamina, uma das mais próximas da capital e de onde migram diariamente centenas de pessoas para lá picarem o ponto, é quando o peito de Themistokles mais incha: é herdeiro do nome do general grego que, por uma feliz interpretação de uma profecia do Oráculo de Delfos, salvou a cidade na segunda invasão persa, em 480 a.C.

A história merece ser contada. Passavam dez anos desde que, pela primeira vez, os persas gulosos do território grego tinham tentado a conquista e perdido para a muito mais pequena armada grega, na batalha de Maratona. Prevendo um segundo ataque, os atenienses foram consultar o Oráculo de Delfos, no templo de Apolo. A resposta da sua intérprete oficial, a Pitonisa, apenas criou sentido nos pensamentos do general: "Os persas vão conquistar toda a Grécia, mas quando tudo estiver perdido, vão sobrar as muralhas de madeira no extremo da terra".

Themistokles foi quem conseguiu entre todos os altos dirigentes militares atenienses a melhor empatia com o desafio de Apolo: evacuou a cidade e mandou toda a população para o Peloponeso (a parte sul da Grécia, separada do continente pelo canal que liga os mares Jónico e Egeu) e colocou toda a armada de Atenas — as tais "muralhas de madeira" — ao largo da cidade, diante de Salamina. Os persas entraram em Atenas e devastaram e pilharam até ao tutano a cidade deserta. Não contando com a recepção no mar, foram vencidos pelos atenienses. Depois, os vivos regressaram do breve exílio para fazer renascer Atenas naquele que foi um dos períodos de maior prosperidade, coincidente com a construção do famoso Partenón da Acrópole.

Parte 2: Lugares mágicos


'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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