edição n.º 19 |
 |
| |
reportagem
 |
rui ângelo araújo e carlos chaves |
 |
 |
 |

|
 |

José Leon Machado
Projecto Vercial
PROJECTO VERCIAL: O nome poderia remeter para uma qualquer secção da NASA onde se investigassem
fenómenos de ovnilogia. Mas não. Trata-se da apropriação do sobrenome de um clérigo
francês — Clemente Sanches de Vercial, que viveu entre o século XIV e o século XV e que escreveu várias
obras de pendor religioso e moralizante — para baptizar um projecto relacionado com a literatura portuguesa. Não vamos,
portanto, à estratosfera. Mas o assunto desta reportagem, a literatura, é para a maioria dos portugueses um
fenómeno igualmente exótico, ainda que menos popular. Sejam bem-vindos ao limiar do desconhecido.
O mentor
José Leon Machado, o mentor do Projecto Vercial, é bracarense mas reside em Chaves. Licenciado
em Humanidades, com mestrado em literatura comparada e a preparar doutoramento, é actualmente assistente na UTAD
(Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro). Colaborador de
vários jornais e revistas (o Diário do Minho, onde trabalhou na redacção e coordenou o
suplemento literário Presença, o Correio do Minho, onde criou o suplemento Anti-literatura, o
Semanário Transmontano, entre outros), é
também escritor com obra publicada, de que se destaca o romance O Guerreiro Decapitado editado pela Campo das Letras.
A génese
Em 1995 José Leon Machado tem a ideia de criar um CD-ROM com as obras completas de Luís Vaz de
Camões e propõe-na à Porto Editora e à Texto Editora. Ainda que ambas viessem a aceitar a ideia, a
Porto Editora foi a que mais depressa se mexeu e a que emparceirou com o bracarense na tarefa de informatizar o poeta terror das
criancinhas. Digitalizados os textos pela equipa que Leon Machado coordenou, sai a primeira versão do CD em 1996 que
contém, para além da obra de Camões, um dicionário, notas de ajuda, questionários, imagens
vídeos e música da época. José Leon Machado torce o nariz quando a editora diz ter vendido dez mil
exemplares, mas reconhece que a empresa foi um sucesso. Aproveitando a embalagem, seria publicado em 1998 um outro CD com a obra de Fernando Pessoa e em 1999 uma segunda versão do Camões.
|
 |
 |
|

|
Mas isto de fazer CDs era coisa pouca e, em 1996, Leon Machado inspira-se no Gutenberg Project — uma
página na Internet com obras de autores ingleses — para criar uma base de dados online sobre escritores portugueses.
Com uma equipa constituída por colegas dos meandros universitários — estava na Universidade do Minho (UM) a fazer
mestrado — e as facilidades técnicas concedidas pela universidade, haveria apenas que baptizar a página. Tratava-se
de um projecto pioneiro, mas o pioneiríssimo Gutenberg já estava "usado". Daí a procurar o primeiro
livro imprimido em Portugal foi um passo. Aparece então o já referido senhor Clemente Sanches de Vercial, autor de
Sacramental, livro impresso em terras lusas, mais propriamente em Chaves. (Alegadamente, este livro teria sido impresso em
1448. Mas, não havendo provas materiais do facto, considera-se oficialmente o Tratado de Confiçom de 1449
como sendo o primeiro livro impresso em Portugal, também em Chaves.)
Projecto como manifesto de intenções e Vercial em honra do clérigo
quatrocentista, assim se baptizou aquela que seria a menina dos olhos de Leon Machado. O bracarense deixou então de
escrever para jornais (excepto para o Semanário Transmontano) e, paralelamente à carreira académica,
dedicou-se a coordenar a construção e crescimento do Projecto Vercial.
O Projecto Vercial
A página, acessível pelo endereço www.ipn.pt/literatura, possui notas biográficas de quase todos os autores portugueses falecidos e
vai sendo aumentada conforme os vivos ou as suas editoras o solicitam. O critério para que um escritor ali figure passa
pela necessidade de ter obra publicada por uma qualquer editora. Escritores com edições exclusivamente de autor
não entram. O que já lhes trouxe um ou outro mimo de escribas com grande auto-estima e pouco chá.
Os autores estão organizados por épocas e, de alguns, a página disponibiliza extractos
da obra. Disponível também, mas em CD-ROM e por encomenda, estão obras completas de vários autores.
Para os menos experientes ou para um acesso mais rápido e directo à obra ou autor pretendido, a página
dispõe de um motor de busca interno.
|
|


Aspecto do site do Projecto Vercial
|
Há cinco anos online, o Projecto Vercial é, diz Leon Machado, «a maior base de dados de
literatura portuguesa». A média de trinta mil visitas mensais (é das páginas de âmbito cultural mais
acedidas em Portugal, assegura o coordenador) diz bem do interesse que esta página tem para estudantes e amantes de
literatura. Os e-mails que recebem também certificam essa utilidade. Curioso (ou nem tanto, se atendermos à
população do país) é que os brasileiros estão em maioria no acesso à página. Mas
também há gente de outros países, emigrantes na sua maioria. Estados Unidos, França, etc.
Letras & Letras
Construída a base de dados (o trabalho de actualização não é assim tanto),
haveria que canalizar energias para outras actividades complementares do Projecto. A crítica literária, as
recensões e as notas de apresentação eram uma vontade de Leon Machado e da equipa, mas também
solicitações dos utentes.
Em conversa com Joaquim Matos (poeta e ex-director do extinto jornal Letras & Letras), este
sugeriu-lhe que ressuscitasse online o seu jornal. Mais por entusiasmo de amante de literatura do que para provar a
reencarnação dos espíritos nos bytes da rede, Leon Machado falou com os colegas, e o lazarado
Letras & Letras levantou-se e andou.
Repescando os colaboradores da edição em papel do Letras & Letras, e acrescentando
os elementos dispersos da sua equipa, a crítica literária, as recensões e as apresentações
vieram assim complementar o Projecto Vercial. As editoras não se fazem rogadas a enviar livros.
Com o Projecto Vercial José Leon Machado
não interrompeu a sua carreira académica nem o seu labor de escritor. Prepara o doutoramento, como já se
disse, mas também novas edições. É nessas condições, de professor e de escritor, que
Leon Machado fala na entrevista que se segue.
|
| |

|
|
EITO FORA: transmontano sem preconceitos
 |
|
|