
E de Trás-os-Montes, que ventos lhe chegam?
O meu contacto com a "base" é praticamente diário, o que se reflecte na conta do telefone. As
más notícias limitam-se em geral às doenças e aos falecimentos. No resto os amigos e a família
fazem contrapeso ao meu pessimismo e animam-me, garantindo que tudo vai bem.
Uma razão recente desse optimismo é o facto de na nossa aldeia (Estevais de Mogadouro) a
Câmara ter mandado que finalmente se fizesse o saneamento. O benefício, prometido há mais de quinze anos,
avança agora à velocidade clássica das obras de Santa Engrácia, de maneira que não será
tão cedo que dispensaremos o penico.
Mas as pessoas recomendam-me que não seja azedo e faça como elas fazem, que me habitue a aguentar
e a esperar.
A sua biografia diz que foi obrigado por razões políticas a deixar Portugal. Conspirava
ou só lhe custava respirar o ar da época?
Eu não conspirava, porque nunca tive inclinação para ser de grupos, de partidos, ou de
obediências cegas. Mas nasci recalcitrante, avesso, e nesse tempo tinha ainda a má sorte de frequentar amigos que
conspiravam.
A determinada altura recebi aviso que a prisão não demoraria muito e que o melhor seria
pôr-me a andar. O que fiz. Em circunstâncias absurdas e muito portuguesas, pois o ministro do Interior (o nome antigo
da Administração Interna) que me iria mandar para a cadeia foi o mesmo que, pela intervenção de
amigos — transmontanos, diga-se de passagem — me deu o passaporte, sem o qual a minha partida teria sido mais que problemática.
Em A Coca percebe-se que o fascinavam as ideias de esquerda. Há até o
episódio — assustador para si na altura, divertido para nós agora — de ter sido apanhado na posse de O Capital
de Marx. Crê que a globalização (esta globalização) padece dos mesmos males que se combatiam
no capitalismo e que de algum modo interessa revisitar Marx para lhe fazer frente? Ou, a haver necessidade de se combater esta
globalização, os caminhos são outros?
Visto à luz das experiências recentes, Marx era um romântico que coloria o mundo a preto e
branco. Os capitalistas exploradores no papel dos maus da fita, no lado oposto as massas exploradas, onde só havia gente
boa. Daí resultaram as tragédias que sabemos na antiga União Soviética, na China, na Coreia do Norte,
e por aí fora.
Porém, essa dicotomia entre bons e maus apresentava uma formidável vantagem, pois de qualquer
dos lados em que se tomasse posição, o inimigo era visível e claramente definido.
Com a globalização da economia e das comunicações essa vantagem desfez-se:
não há inimigos definidos, nem amizades certas ou teorias de apoio. Há alianças provisórias,
que reflectem fielmente a extrema superficialidade e a instabilidade das normas. E entre os países, como entre os
indivíduos, os fortes continuam a oprimir os fracos, reina a supremacia do cada um por si e os outros que se lixem.
Antigamente tinha-se a ilusão de que havia um caminho, que se ia direito a um fim, que se procurava um
objectivo. Hoje a minha impressão é de que continuamos a avançar, mas às apalpadelas e num escuro de
túnel.
Exceptuando, talvez, as primeiras obras, J. Rentes de Carvalho publicou primeiro os seus livros na
Holanda do que em Portugal, ainda que os escreva em Português e na sua maioria tenham mais de Portugal do que da Holanda.
Há alguma razão especial para isso, para além da óbvia de residir nesse país?
A razão única é a das minhas primeiras editoras em Portugal terem publicado livros meus
sem jamais prestarem contas. O que equivale a dizer que, em pouco ou muito, simplesmente me roubaram.
Desse modo, tal como o gato escaldado que de água fria tem medo, deixei de publicar em Portugal, mas
por razões insondáveis também nunca nenhum editor português tomou nota da minha existência.
Episódio curioso e sintomático desse desdém passou-se em 1989, durante a Buchmesse de
Frankfurt. O meu editor holandês decidiu que o stand inteiro da editora seria quase inteiramente dedicado aos meus livros.
Fora e dentro do stand foram colocadas várias fotografias do autor, com o nome em bom tamanho, e fotografias das capas,
tudo em formato de cartaz.
Durante três dias passaram por lá dezenas de editores, funcionários da cultura e jornalistas
portugueses. Alguns vi-os eu parar embasbacados, mas não houve um único com curiosidade de saber quem era o
compatriota, ou por que razão o exibiam ali.
Leonardo de Freitas, o patrão da Editorial Escritor, escreveu-me em fins de 1997 a dizer que gostaria
de editar os meus livros, o que acontece desde então.
Que tipo de feedback tem das suas obras publicadas em Portugal? Que possibilidades existem de
vender 120 mil cópias de um livro, a exemplo do que aconteceu na Holanda?
Possibilidades menores do que a de ganhar a sorte grande na lotaria da Santa Casa.
A respeito de feedback aparece de vez em quando uma recensão no Diário Insular,
no Notícias da Trofa, no Correio da Marinha Grande... tudo simpático, mas pequenino. E entristecedor
para quem na terra alheia é lido, comentado, acarinhado, e vê a recensão dos seus livros em páginas
inteiras dos melhores jornais. Quando me atardo a pensar nela, tenho de concluir que é uma situação
estonteante.
Vendas em Portugal de livros meus? Cinco aqui, dez além. Duzentos exemplares ("cópias", como
vocês jovens agora dizem, é um anglicismo que faz pouco sentido) comprados pela Câmara de Vila Nova de Gaia a
festejar a Medalha de Mérito que lá me deram.
Creio que o mesmo fizeram as câmaras de Mogadouro e de Moncorvo, porque pertenço a ambas e os
seus funcionários sabem que existo. No mais... um grande vazio. Mas já me alegro de ao menos ver os meus livros
impressos na nossa língua, o que durante décadas não aconteceu e profundamente me magoou.
Vivendo há tantos anos na Holanda deve conhecer profundamente a idiossincrasia da sociedade
holandesa. Que características dessa sociedade fariam falta a Portugal? E da sociedade portuguesa, há alguma
característica que faria falta à Holanda?
Dos holandeses bem nos falta o afinco ao trabalho e ao estudo a sério, a consciência social, a
disciplina, a pontualidade.
Para a Holanda poderíamos certamente exportar aquela nossa forma de carinho que, mesmo quando
não é sincera, sempre dá um certo conforto à alma. E poderíamos ensinar os holandeses a comer.
Há aqui excelentes restaurantes, mas a culinária doméstica é de fugir dela a sete pés. Um
pouquinho do nosso "deixa lá" também compensaria da rigidez calvinista.
Nos seus livros isso não se nota, mas sente-se um estrangeirado culturalmente?
Nem culturalmente, nem de qualquer outra forma. Se não me engano, o termo "estrangeirado" apareceu nos
fins do séc. XVIII para designar os que preferiam as ideias estrangeiras, nesse tempo as da França. Depois ganhou,
e ainda tem, um verniz pejorativo, idêntico ao que Camilo pôs no "brasileiro." Mas claro que a carapuça
só é para quem a quer usar. Eu francamente não quero, nem ela me serve.
É curioso que a matéria dos seus livros seja quase exclusivamente Portugal... Quando
escreve tem em mente o leitor português ou o holandês? Que diferenças encontra entre os dois leitores?
Especificamente não penso em nenhum deles, embora me alegre que o leitor holandês mostre
interesse pelos temas que trato, os quais para ele são longínquos, quase exóticos.
Com o leitor português tenho apenas tido contactos individuais e esses muitos raros.
As diferenças mais aparentes entre ambos serão, grosso modo, culturais e económicas. Uma
primeira edição anda aqui entre os 1.500 e os 3.000 exemplares para um autor desconhecido, havendo-as de 100.000
para autores consagrados.
De modo geral creio que o nível de conhecimentos do leitor holandês médio será mais
elevado, o que o torna mais aberto às literaturas estrangeiras. O número de traduções que se publicam
na Holanda é simplesmente espantoso e não se reduz às de obras das línguas mais correntes.
Com que frequência visita Portugal (e Trás-os-Montes)? Quando o faz, o que o move: a
família, os locais, as memórias, a nostalgia?
Em princípio duas ou três vezes por ano. Alguns anos quatro. Uma vez por outra de dois em dois
meses. A minha mãe ainda vive, e é visita obrigatória. Na nossa aldeia ando a restaurar a casa que herdei
dos meus avós, o que é outra razão de presença.
Família só já tenho primos afastados, mas os laços mantêm-se para lá
do quinto grau, ou até se inventam. E há os amigos, mas são sobretudo os lugares, que me atraem com o mesmo
magnetismo que lhes conheço desde a infância.
Li numa entrevista que gostaria de viver num Portugal que só existe na sua imaginação.
O facto de escrever tanto sobre memórias é uma maneira de habitar esse Portugal?
Talvez, mas o que eu de facto gostaria de realizar é um sonho de menino egoísta: ter à
mão um Portugal do tamanho da cama onde eu fazia montes com os cobertores e uma bacia de água a servir de
Atlântico.
Que escritores portugueses da actualidade o seduzem? E estrangeiros?
Acerca dos compatriotas a prudência manda calar. Esquece a gente descuidadamente um, e é inimigo
que se ganha. Faz cumprimentos a fulano, logo lhe cai em cima o resto. Com a agravante de que mesmo o cumprimentado sempre
achará escasso o cumprimento.
Abro excepção para Miguel Miranda, que descobri este ano e cuja escrita me surpreendeu pela
qualidade invulgar.
Dos estrangeiros a lista seria extensa, mas peneirando eu deixaria ficar García Marquez, V. S. Naipaul,
Bruce Chatwin, Bernard Malamud, Elmore Leonard (mestre americano do policial), John Banville, o belga Hugo Claus, o israelita
Meir Shalev, Konstantin Paustovsky...
Há ainda os brasileiros, mas esses considero-os como nossos.
Que conhecimento têm os holandeses da literatura portuguesa (para além dos best-sellers
de J. Rentes de Carvalho)?
O bastante para nos podermos inchar de orgulho. De antologias da poesia de Fernando Pessoa, do Livro do
Desassossego e de outros títulos da sua obra devem-se ter vendido desde 1978 para cima de 100.000 exemplares, o que
provavelmente não aconteceu em Portugal.
Essa extraordinária popularidade tornou-o um caso à parte, sendo geralmente considerado como a
influência marcante na poesia neerlandesa contemporânea.
Eça, Saramago e Lobo Antunes têm muitos dos seus livros traduzidos em holandês, o mesmo
acontecendo com cerca de uma vintena de outros autores portugueses. Em 1992 foi publicada a Peregrinação,
de Fernão Mendes Pinto e meses atrás saiu uma excelente colectânea de sermões e cartas do Padre
António Vieira. Mas há mais, podendo dizer-se que os holandeses se encontram razoavelmente a par do que na nossa
literatura vale a pena.