
Embora neto e filho de gente de Trás-os-Montes, José Rentes de Carvalho nasceu em Vila Nova
de Gaia e tem vivido a maior parte da sua vida no estrangeiro. Não se livrou, mesmo assim, de figurar no inefável
Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses de Barroso da Fonte. Também não se livra
de ser considerado por alguns como o melhor escritor transmontano. De resto, escreveu a melhor saga transmontana que
conheço (o "romance" Ernestina). Como lida José Rentes de Carvalho com a sua transmontanidade?
É a aceitação de quem sou e do lugar donde venho, no sentido em que Senghor definiu o
conceito de negritude.
Certo é que a qualidade de transmontano a ressinto eu de uma maneira que sensivelmente difere da das
gerações mais novas. Porque venho de muito longe. De um Nordeste que nos anos 30 e 40 não tinha luz nem
estrada, e tremia ao ver passar o comboio. Onde no modo de vida, na rudeza dos costumes, nas técnicas, nas alfaias da
lavoura, pouca mudança tinha havido desde a dominação romana.
Nesse ambiente e nessa maneira de ser enterram-se o que agora se chamam as "raízes." As minhas.
Juntamente com isso, o passado, as vivências, a memória e a sensibilidade impuseram-me uma certa maneira de observar,
tornando-me agente passivo, mero espectador. De modo que tenho a impressão de que não sou eu que "lido", antes diria
que sou "lidado" pelas circunstâncias da minha origem.
É redutor falar de J. Rentes de Carvalho como um escritor transmontano, e ainda mais na
acepção que o rótulo toma usualmente. No entanto a sua obra revisita Trás-os-Montes periodicamente.
Para quem não leu Ernestina (e mesmo para quem leu), como explica que uma região onde afinal viveu tão
pouco tempo sirva de mote para várias ocasiões de boa prosa?
Isso vem do impacto das impressões recebidas na infância. Por razões de uma sensibilidade
extrema, talvez mesmo doentia, eu não somente absorvia e era afectado por tudo o que se passava à minha volta
zaragatas, desastres, mas também cheiros, paisagens, tempestades... como ainda dispunha de uma invulgar capacidade
de identificação. As alegrias, as aflições, as vivências, os medos e os sofrimentos alheios
tornavam-se-me muito pessoais, a ponto que devo ter sido, ou melhor, que insensivelmente devo ter encarnado em centenas de pessoas.
Note que não falo aqui das fantasias próprias da criança a descobrir o mundo ou de
descarrilamentos da imaginação, mas de uma forma de empatia levada ao extremo. Desse modo as impressões, as
recordações e os personagens ficaram, e um pouco à maneira da ubiquidade de Santo António eu consigo
continuar presente em Trás-os-Montes sem abandonar Amsterdam.
A maior parte da sua obra (o que eu conheço dela) parte de memórias factuais e delas
trata duma maneira directa pouco usual. Dir-se-ia que de algum modo vem escrevendo a sua biografia: Ernestina trata da
ascendência e do autor até à idade de quinze anos; A Coca parte dos dezassete anos e visita levemente
à década de noventa; os contos de O Joalheiro e de O Milhão reflectirão episódios
dispersos pelos anos de trotamundos; o Tempo Contado (diário) e as crónicas Com os Holandeses, que
não li, farão de algum modo, presumo, a cobertura da sua vida mais recente. Quanto de ficção existe
nas suas obras?
Creio que a quantidade é menos relevante que o arranjo, e o emprego da primeira pessoa na narrativa
não implica necessariamente um carácter autobiográfico. Devo dizer, contudo, que em Ernestina e A
Coca o componente ficção é nulo. E se ambos os livros foram editados aqui na Holanda como romances, isso
deve-se a simples razões de estratégia de mercado.
Nas obras restantes, exceptuando Tempo Contado, a ficção tem um papel idêntico ao
dos condimentos na culinária: uso-a para avivar cenas, para dar relevo a personagens, criar situações de
suspense, coisas assim. O que com frequência acontece comigo é que, no acto de escrever, uma realidade
testemunhada se prolonga involuntariamente em ficção, ou que uma ficção "exige" ser encaixada numa
cena real.
Essa fusão do verdadeiro e do fictício é para mim próprio um mistério.
Mistério, aliás, que não me perturba, nem interessa desvendar, e provavelmente não é mais que
a manifestação de como funciona a "maquinaria" do meu pensamento e da minha sensibilidade.
Confesso que parti para a leitura de Ernestina com algum preconceito, pensando que lá
vinha mais uma historieta de Trás-os-Montes. Em que medida crê que as andanças pelo mundo influenciaram a
sua escrita, já que parece haver no romance um distanciamento crítico e estético invulgares? Ou seja, o
prazer com que lemos as suas memórias corresponde de alguma maneira a um olhar distanciado, cosmopolita com que eventualmente
as escreve?
É curioso que onde você vê distanciamento, vejo eu pertença. Escrevo da maneira e
com o sentimento que escrevo, não por estar longe, mas porque me sinto e sempre senti intimamente preso ao povo, à
língua e a terra em que nasci.
No resto creio que é uma questão de transmitir pela escrita uma certa franqueza interior, sem
lindezas nem arrebiques, e chamando às coisas pelo seu nome, o que no contexto da literatura portuguesa contemporânea
é capaz de parecer exótico.
Claro que posso estar errado, mas aquilo que você chama distanciamento crítico e estético,
talvez exprima antes a sua surpresa, pois é razoável que com meio século de ausência ninguém
espere que haja na Holanda um maduro a escrever sobre Trás-os-Montes com carinho, com respeito, e em Português de lei.
Faço ainda objecção ao qualificativo de cosmopolita. No uso corrente a palavra tem um
cheirinho desagradável a snobismo. Para mim, o cosmopolita, sentindo-se à vontade em toda a parte, não
pertence de facto a parte nenhuma, observa tudo a partir da distante e indiferente altura em que se coloca. Ora comigo
dá-se o contrário. Eu intensamente pertenço. Ao Nordeste transmontano, ao Porto, a Gaia, a Amsterdam, enfim,
aos lugares onde sinto ser da casa.
Nos dois últimos livros publicados em Portugal, Ernestina e A Coca,
expõe-se de uma maneira de certo modo inquietante e, no caso do segundo, não isenta de perigo. O que o leva a
expor-se assim? Alguma espécie de catarse? E por que lhe é tão fácil expor-se desta maneira? A
ausência dos locais onde se desenrola a acção? Fá-lo-ia do mesmo modo se residisse em Portugal?
Por razões várias eu tinha uma necessidade interior de contar essas histórias. Uma dessas
razões, talvez a menor, era a de deixar aos meus netos um relato da sua ascendência. Mas com Ernestina o
motivo premente foi o de dar voz aos meus antepassados, sobretudo aos meus dois avós, e de deixar um retrato o mais fiel
possível de uma época e de um mundo que se perdeu.
Em obra assim a nudez e a crueza são inevitáveis, porque se em parte nenhuma a vida é uma
festa, no Trás-os-Montes desse tempo ela era tragédia permanente. Nessa tragédia participei eu, logo desde
a tomada de consciência. Mas nenhuma necessidade de catarse me leva a isso, sim o respeito que me merecem os que sofrem
sem se poderem defender, os humildes e os humilhados. Está longe de ser fácil mostrar-me a mim e aos meus numa
realidade tão crua, mas essa foi a que testemunhei e a que eles sofreram para que eu sofresse menos e me pudesse libertar.
A Coca é um caso diferente. Ao fazer o relato tão objectivo quanto possível de
certas andanças e amizades, coloco-me de fora e aí, sim, há uma certa distância. A acção
decorre com personagens reais e actuais, num mundo que conheço e continuo a observar, mas ao qual não pertenço.
E o perigo é muito limitado, para não dizer nulo, pois os grandes e pequenos traficantes da droga usam esparsamente
da violência, e se há coisa a que todos eles aspiram é à respeitabilidade burguesa.
O afastamento em que me encontro dos locais e das pessoas também não entrou em conta. Escrevi
assim, porque é assim que queria e que achei bem.
A queirosiana riqueza de pormenores nas suas obras vem-lhe da memória (já que de registos
memorialistas se trata) ou resulta do estilo que cultiva, e os pormenores são, portanto, ficcionados?
Há o tal arranjo de condimentos de que falei antes, mas no que você denomina riqueza de pormenores
entra pouca ficção. Para esses pormenores contribuiu muito a extraordinária oralidade das minhas avós.
O resto vem em linha recta da desgraçada memória que Deus me deu, a qual tem a cansativa capacidade de guardar tudo,
desde o que mais importa ao mínimo irrelevante.
A entrar agora na velhice eu esperava que a memória me desse descanso, mas deve ter havido algum
desarranjo, pois ela continua a funcionar da mesma maneira e, de facto, a consumir-me com detalhes e recordações
que eu preferiria descartar.
Já agora: Rentes de Carvalho, que também é jornalista e admirador de Eça
de Queirós, ao prefaciar a edição das obras do escritor português na Holanda reviu-se de algum modo
nas suas características estilísticas que certamente apresentou aos holandeses?
Há aqui o bom hábito de que o introdutor de uma obra não a prefacia, mas humildemente a
posfacia. Assim aconteceu.
Se, ao apresentá-lo, me revi nas características estilísticas de Eça de
Queirós? No sentido de ressentir qualquer influência queirosiana? Acho que não. Eça de Queirós
foi importante na minha formação e continuo a considerá-lo como um dos escritores portugueses mais modernos,
mas no que respeita a influência há um momento em que cada um de nós "mata o pai" e segue o seu caminho.
Quando em 68 publiquei Montedor, o meu primeiro romance, já há muito que Eça tinha
deixado de me influenciar. Nessa altura eram mais importantes para mim escritores como Céline e alguns autores ingleses e
americanos.
Mais em A Coca, mas também em Ernestina, a escrita e o olhar jornalístico
estão presentes. Em que medida crê que o jornalismo influencia a ficção?
São duas técnicas diferentes, com pontos de vista e objectivos diferentes. O que actualmente
têm de comum é o que talvez se possa chamar elemento fílmico. As artes visuais transformaram de maneira
decisiva a arte da narrativa, a qual devido a elas se tornou directa, apressada, permitindo saltos, atalhos e hipérboles
que não encontramos na ficção anterior à descoberta do cinema. Creio que é aí que a
literatura infalivelmente se aproxima do jornalismo.
Residindo no exterior e podendo, portanto, fixar um despreconceituado e severo monóculo nos
costumes deste país como Eça quis fazer, como vê a história recente de Portugal, nomeadamente nos
aspectos cultural e político?
Só porque agora as coisas vão visível e temporariamente menos mal do que antes, criou-se
o mito de que Portugal vai bem. Mas na realidade não vai. Pouco importa se olhamos de fora ou de dentro para realizarmos
que o suposto bem-estar actual é um bem-estar de pechisbeque. Com consequências muito desagradáveis para as
gerações futuras, a quem será apresentada a factura.
E não se podem ajuizar as condições de vida de um povo medindo-as pela quantidade de
jipes dos novos-ricos e dos quase-pobres. Para isso o ridículo de alguns actos governamentais, a corrupção
impune, os mendigos nas ruas e as filas de espera nos hospitais, são um índice mais seguro.
Portugal, sabem-no em demasia os políticos e os economistas, é um país endividado, a
viver de créditos e que, produzindo pouco e significando pouco, se regozija de num ou noutro ano ser menos pobre do que a
Grécia.
É um país que não investe na educação, mas nos todo-o-terreno, e onde os
bancos e os ricos conseguem o milagre de pagar uma percentagem de impostos inferior à do operário.
Vista daqui e analisada através do que dela relatam os meios de comunicação, a
situação económica de Portugal é má, e as perspectivas do seu futuro péssimas. Mas que
importa isso ao indígena? Ele berra que no mundo inteiro não há "noite" que se compare à de Lisboa,
ou que Portugal é na Europa, per capita, o maior consumidor de whisky.
O que me leva a recordar um cônsul de Portugal que funcionava em Amsterdam nos anos cinquenta, e que
quando um dia na minha presença uns holandeses lhe apontaram que o nosso país não tinha comércio nem
indústria que contasse, ele respondeu enfatuado: "Pode ser, mas em Portugal bebe-se a melhor xícara de café
do mundo! E nas nossas cidades os urinóis não são de cimento como aqui, são revestidos de
mármore!"
Sobre o ambiente cultural posso ser breve. A julgar pelo que conheço e pelo que leio nos jornais e
semanários portugueses, o país brilha em todos os campos. O cinema, a literatura, as artes plásticas, a
música, pelos jeitos tudo isso ferve, e quase não se passa semana sem o anúncio da aparição
de um génio. O mundo, infelizmente, parece não se aperceber de tanta genialidade.
Parte 2 da entrevista a J. Rentes de Carvalho