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provocações [2]
TEXTO: rui ângelo araújo
ILUSTRAÇÃO: paulo araújo


ilustração de Paulo Araújo
ilustração de Paulo Araújo [d]


Higiene


Têm sido contestadas as «Provocações» que, por desfastio, vou publicando aqui no Eito Fora. Salvo raríssimas excepções, quem o faz fá-lo em surdina, como é bom e velho costume transmontano.

Por condescendência com os pobres, explico o «caldo» que torna inevitáveis as «Provocações»:

Um clima de afectividade, de sentimento de tribo, de superficialidade que tudo perdoa, tudo ignora, tudo estima. Quando não faz pior e tudo enleva e homenageia, mesmo que a propósito de nada. Um ambiente cultural pantanoso, uma acalmia esclerótica, uma névoa de indolência, uma brisa de tédio. A abundância da homenagem, do panegírico, dos paninhos quentes...

O silêncio, a apatia duma classe intelectual que desliza por salões em apresentações mútuas, que se faz notar somente a compor as salas dos autarcas, a aparecer nas vernissages, a perorar nos chá~s das tias, a fechar-se num academismo cinzento e ausente... Que nada comenta, nada diz, nada defende, nada farpeia, nunca intervém... Ou quando o faz é entre dois bocejos: levanta a caneta para logo a arrastar sonolentamente, pachorrentamente, pela folha já amarelecida. Ou, por um arroubo místico, telúrico, deixa cair os dedos pesadamente nas teclas e... desiste logo a seguir.

Por cá não há rasgo, não há originalidade, não há imaginação. E ninguém se zanga verdadeiramente. Sai um livro: todos aplaudem ou todos se calam para sempre. A crítica retira-se de mansinho para dar lugar à homenagem ao transmontano que, supremo esforço!, conseguiu escrever mais um livro. Todos vão à cerimónia buscar o seu exemplar para o guardar como quem guarda um ícone ou para o destinar ao «fundo local» da biblioteca lá de casa (o caixote do lixo, não raras vezes) — nunca para o ler e confirmar se valeram a pena as noites em branco do autor, o subsídio da Câmara, a celulose gasta... Um livro é mais uma pedra na construção do Grande Desígnio Transmontano, é mais um resíduo que se acumula em caixotes — não uma obra que se gosta ou rejeita.

A intelectualidade transmontana não discute literatura — aplaude publicamente o autor e inveja intimamente o subsídio; louva-lhe abertamente a persistência e critica em sussurros a pontuação; estima manifestamente o carácter telúrico da prosa e remete a sua leitura para as calendas; diz às claras da importância da obra e interioriza o rubor da vergonha; exalta para a sala a qualidade do papel e estranha, murmurando, o bigode do escritor...

— Mas não haverá elites em Trás-os-Montes? — perguntam-me um saudosista e um visionário.

Há! Movem-se pela calada da noite como párias temerosos; ou, de dia, colam-se nas sombras como marginais acossados. Vêem-se, por vezes, em inóspitos eremitérios, com grandes barbas enriçadas, alinhavando ideias que a posteridade há-de louvar — se a humidade do catre as não destruir antes.

— É tudo?

Não. Há aqueles a quem a Providência ofertou uma cátedra, mas, para estar na vanguarda, preferem o último modelo da Mercedes. E aqueles doutos que temem o proselitismo, que temem a conversão das massas e, por isso, se ficam pelo solilóquio ao espelho, pelo recato do lar. E as luminárias que se ofuscam com a própria luminescência. E os migrantes, que olham para o torrão natal com nostalgia literária, com paternalista bonomia, saudosa indulgência...

— E as boas obras?

São do domínio da arqueologia. Em Vila Real, cidade universitária, por exemplo, semanalmente desenterra-se um dinossauro putrefacto — A Voz de Trás-os-Montes. E, quinzenalmente, o sucedâneo Notícias de Vila Real brinda-nos com a sequela interminável do Parque Jurássico.

...Eis porque «provocar», que podia ser um cúmulo de excitação, é só um acto de higiene.

 


ruiaaraujo@periferica.org

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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