1. O que mais gosto na Orquestra do Norte são aqueles momentos sublimes em que o
maestro Ferreira Lobo se volta com os olhos a faiscar para mandar calar o povaréu bruto e ignorante. São os
únicos instantes em que se vivem grandes emoções: o maestro, inchado de desprezo e frustração,
chispando; uma parte do público temerosa das censuras do senhor que cresce para ela do palco; a outra parte espumando
indignação pelo atrevimento e sobranceria do homem; e eu, divertidíssimo, aplaudindo aquele choque de culturas.
De resto, só vou aos espectáculos com essa secreta esperança. Para ouvir zarzuelas e sonatas
prefiro o Nokia lá de casa, mesmo com o exaustor do vizinho a abespinhar pela janela. Ouvir Mozart no meio da turba é
um exercício para que me sinto pouco inclinado (masoquista ma non troppo!) e aplaudir a orquestra mais por ritual do
que por sincera retribuição não vai comigo.
As nossas vilórias e cidades não foram feitas para as grandezas da cultura erudita, e mesmo o
popular teatro da Filandorra já viu melhores dias. No grande dilúvio pimba onde as massas fazem natação
não há lugar para a barca de Minerva e até as ninfas trazem a água pelos cabelos. Mas não foi
sempre assim?
No passado existia uma barreira cultural a separar o povo e as elites. E estas, que governavam a coisa
pública, raramente se preocupavam com a ilustração da populaça — antes tratavam de a manter a uma
distância higiénica. Com as revoluções sociais dos séculos XIX e XX e o alargamento do progresso,
as elites foram perdendo poder e a turba pôde meter a mão no que antes era reservado a uns poucos. Escusado será
dizer que cedo se enjoou e, de tudo o que invejava nas elites, apenas conservou o naco mais apetecido: o poder.
A novidade deste início de século, para felicidade de alguns ideólogos, é que o
poder é do povo e são as elites que vivem acossadas, com medo de sair à luz do dia. (Não se percebe que
haja gente de esquerda a queixar-se do estado das coisas. O slogan era O povo ao poder! e não O povo à
cultura!...) O povo entretanto teve acesso à escola, formou-se nas universidades, mudou a sua qualidade de vida — mas
manteve o genético ódio ao intelectual. Um engenheiro hoje não é o mesmo que há cinquenta anos:
tem o mesmo diploma, gosta igualmente de ser tratado por Senhor Engenheiro, de auferir o mesmo vencimento — mas abomina a
cultura erudita e vibra com os Anjos. Um médico, tal como dantes, é reverenciado, tem lugar reservado na
missa e no restaurante, é convidado para presidir a associações a esmo, compra o Expresso — mas
lê, emocionado, Paulo Coelho. Um advogado herda do pai a presidência das empresas e da Câmara; é, como
o avô, sócio honorário da Misericórdia, conduz bombas de alta cilindrada e tem na garagem um avoengo
Modelo T — mas, como o povo, aplaude excitado a senhora Mónica Sintra.
A sociedade está em perene estado de vingança. O povo, farto de séculos de
humilhações, de maus tratos, usa o poder que tem para escorraçar os últimos resquícios das
elites de outrora. Trata o intelectual como este tratava o servo da gleba: com escárnio e chibata. Faz cumprir a
justiça social.
Para que a vingança se cumpra de maneira absoluta, só falta que o povo, soberano, com requintes
de malícia, imite as elites opressoras: negue ao intelectual, como em tempos idos se negava ao servo da gleba, o direito
de expressão e o direito de voto.
2. Os mais estudados, quando não temem o povo remetendo-se a um profiláctico
silêncio, é porque estão com o povo no ódio ao intelectual. Não adianta procurar neles
recalcamentos das reguadas na escola, das lambadas de um pai avesso à preguiça ou dos sermões da exigente
explicadora de Inglês. Os recalcamentos estão lá, é claro, mas o que mais exulta neles é uma
excitação freudiana com o cheiro a boçalidade.
A indisponibilidade para o conhecimento e para o esforço intelectual é uma característica
normal no povo — e é uma medida de precaução naqueles que temem a sua vingança ou a sua justiça.
Antes que a sentença lhes caia sobre a cabeça, muitos irmanam-se com a multidão renegando os livros e a arte.
Não é preguiça, nem cobardia, nem mediocridade — é instinto de sobrevivência.
E não se diga daqueles que cultivam a simplicidade dos espíritos que o fazem com
maquiavélica inteligência para poderem reinar. É falso! Ninguém diz que os cornos do bode são
menos duros só porque é ele que reina no rebanho! No choque de culturas, como nas pastagens, a dureza dos cornos
pode ser fundamental para a vitória.
A mim, pobre assalariado, que me corre nas veias sangue de proletários e pastores, diverte-me a
vingança do povo sobre os intelectuais. Enquanto não me tirarem os livros para ler.