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Deixo este fim de mundo e regresso ao mundo à beira do fim.
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Supondo haver uma razão para ser feliz
Supondo haver uma razão para ser feliz, entreguei-me à agricultura. As coisas correram mal desde
o princípio. E continuam correndo mal, poucos dias antes da primeira colheita. Enfim, não é que não
vingassem os melões que semeei. E também é verdade que os outros vegetais da horta têm cumprido o ciclo
natural das coisas granjeadas. Não é do insucesso das alfaces que me queixo. Entreguei-me à agricultura e,
pronto, é disso que me queixo, genericamente falando.
Aliás, não ter com quem falar é o que mais me entristece desde que mudei de vida. Nenhum
dos meus amigos, urbanos como a maior das avenidas, encontrou neurónios disponíveis na cabeça para encaixar
aí a simples ideia de vir comigo para o inverso da cidade. Bem sei que por vezes me visitam. Em todo o caso, quando tal
acontece aparecem à hora de regar, ou de mondar, ou de recolher o gado. Ora, mesmo quando os meus amigos aparecem à
hora de recolher o gado, e por mais que eu acelere esta última tarefa, ficam à espera que me lave, mude a roupa,
prepare alguma coisa para jantar. Janta-se tarde no campo. Neste campo em que me vi metido, solitário. Depois o sono logo
me carrega nas pálpebras, cansado como sempre fico no final de cada dia de trabalho. E todos os dias são de trabalho
para quem como eu amanha, amanhando-se sozinho.
Pois o que fisicamente me separa dos meus urbanos amigos é um troço de cento e oitenta e
três quilómetros de auto-estrada, mais quarenta e dois quilómetros de asfalto esburacado e, sobretudo isso, a
incontornável meia légua de veredas que finalmente alcança este fim de mundo, como eles dizem. O que a gente
não faz pelos amigos! — é com palavras assim que se despedem.
Compreendo-os. Fazer tudo isto por um velho amigo que subitamente deixou de ser urbano, fazer tudo isto para
encontrar duas pálpebras de chumbo, está bem de ver, não é futuro. O futuro, de resto, preocupa-me.
Mais ainda do que naquela tarde em que senti claramente que não suportava por mais tempo todas as merdas que as pessoas
espalhavam pela praia em frente à rua onde nasci. Foi nessa tarde que me decidi pelo campo, um campo distante e virgem.
Supondo haver uma razão para ser feliz, entreguei-me à agricultura. Sou afinal urbano eremita entristecido, cultivando
socalcos perdidos a meio de uma encosta perdida. Sou urbano eremita entristecido, cultivando memórias de amigos perdidos. As
coisas correram mal desde o princípio.
É por isso que, supondo haver uma razão para ser feliz, decido agora abandonar estes socalcos,
poucos dias antes da primeira colheita. Talvez exactamente com medo ao definitivo apego que me possa trazer uma colheita, arrisco
na cidade uma vez mais: a incontornável meia légua de veredas, os quarenta e dois quilómetros de asfalto
esburacado e, sobretudo isso, os cento e oitenta e três quilómetros de auto-estrada. Deixo este fim de mundo e
regresso ao mundo à beira do fim. O que a gente não faz pelos amigos!
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