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poesia [3]
rui pires cabral
Cinco poemas

Pacto de Sangue

Não chegámos a fazer o nosso pacto
de sangue. Lembrei-me disso mais tarde,
em Holland Park, num passeio onde anoiteceu
de repente. A navalha, fetiche sentimental,
julgo que a deixámos esquecida no fundo de uma mala.
Nessa altura eu teria jurado não voltar a desencontrar-me
do Verão. Na verdade, esse foi o melhor de todos.
A luz vinha morder à tua mão.

Acreditas realmente que as coisas teriam sido
diferentes, que os dias, crescendo assim tão quietos,
jamais se deixariam corromper? Como seria desejável,
como gostarias que eu recitasse a tua pequena lição,
em Holland Park, no muro branco que escurecia
em teu redor. Afinal não chegámos a fazer
o nosso pacto de sangue, devolve-me sem culpa
ao meu lugar natural. Não me perdoes nada.


Abril

Eu disse: quem pôs aqui este rio?
Alguém tinha desenhado na paisagem
um cenário para a nossa história.
Manchas inteiras de urze, papoilas,
giestas. Até se disse em Terena
que Abril não vinha assim tão verde

há muito tempo. Sim, tinha chovido muito
nesse ano, mas nada esteve por acaso,
nem o céu de manhã cedo nos castelos
com a erva a crescer dentro e fora das muralhas,
nem sequer a nossa primeira noite, aquela

em que esperaram por mim noutro lugar.
Sozinho, sem outra defesa que não fosse
a minha própria solidão, eu estive onde tu
me pudesses encontrar. E depois subimos juntos
a rua molhada. E já chovia por Abril sem o sabermos.

São Pedro de Alcântara, 45

Peluches e retratos criavam uma nódoa
no ar à sua volta, o tempo chupava os olhos
das bonecas como açúcar.

Eu seguia aquelas ruas muito depois
das janelas, pelos toldos que se abriam
contra o volume da noite.

Era o silêncio enrolado na tinta por entre
as portas, uma espécie de estridência, vinha
do fundo dos tectos.

Não consigo explicar isto melhor.
Os carros faziam uma música
tão alegre nas esquinas.


Serrim

As árvores eram a nossa bandeira,
o nosso chão. Vinham das matas em volta,
nuas, decapitadas, antes que pudéssemos
separar o nome dos lugares onde as deitavam:
as achas a arder na cozinha, a tábua negra das pipas,

a portada das janelas na salinha resguardada
das visitas. Corríamos ao largo da serração
a estorvar o movimento, a pesagem dos troncos
por homens de boné e camisa arregaçada. E ninguém

nos queria ali, no lugar maior do dia,
escalando as montanhas do serrim
sob o retumbar das máquinas, caindo lá de cima
com as cócegas do salto na garganta, na barriga.


A Suíça

O sangue do teu irmão
não corre, encharca uma floresta
de clareiras desprezadas pelo fogo.
Trazes para a cama santos e dragões,
tantas mitologias misturadas. Estamos
entre a gente verdadeira num cercado:
os rebanhos bebem de uma água preta,
envenenada. E logo à tarde nos barcos
vou sentir-me mais avulso e mais perdido
do que tu. Ah, o Zürichsee, o prémio prometido
pelos meus piores versos. Os patos, as pontes.
Um amor guiado pelas distracções do desespero.


'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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