edição n.º 19 vai para a página do index da edição
 
poesia [2]
troglodýtes trogloditikós
maria costa
Dispersão

1
movo as palavras
até que elas me fixem

2
é só um verso que me substitua
— mas de que dispersão fiel recusa?

3
desenha-te nas dunas transitórias
convoca o deus que sabes fugitivo

4
nós somos poetas
o rio é outra coisa
se tentamos ser água
logo os versos sufocam

5
falemos de bolas de sabão
até que o vento tenha dedos

6
somos sem vez
e nada substitui
o que é sem vez
a não ser o universo

7
faço covas na areia
preparo-me para morrer

8
guarda para ti
as flores capitosas
inventa para mim
um epitáfio novo

9
estarias mais longe
— se existisses

Troglodýtes Trogloditikós

1.

em fevereiro as figueiras esperam setembro
os rubicundos frutos que hão-de vir a seu tempo
uma jovem loira passa cantando uma toada
leve como uma seda triste

sob as rendadas folhas de uma figueira
espero numa véspera sem fim
espero o dia único que não chega nunca
e de que se pudesse faria a vida inteira


2.

o tempo roeu tamanho esplendor
e a poeira amortalhou o desejo
arrefecem as mãos por estas noites de inverno
perdido o aroma que enchia as tardes
de tonturas leves
já não ordenas o caos
ó meu ondulante dançarino

maria costa

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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