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ilustração de Francisco Lameirão
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Outra vez a tradição*
O historiador Peter Burke relembrou há meses, num artigo de jornal, o impacte de uma conferência
sobre a "invenção da tradição" que decorreu em Londres vai para vinte anos. Hugh Trevor-Roper desvendava
aí como o afamado kilt em xadrez, símbolo "tradicional" da nacionalidade escocesa, fora de facto inventado em
1730 pelo proprietário de uma fábrica que tinha medo de que as túnicas usadas pelos operários ficassem
presas nas máquinas. Eric Hobsbawm, por sua vez, mostrava de que maneira, pela segunda metade do século XIX e
inícios do seguinte, numerosas "tradições", principalmente de natureza ritual e festiva, haviam sido criadas
pelos responsáveis das instituições como forma de valorizar o passado dos estados-nação e de
reforçar o poder de quem os dirigia. Em ambos os casos, demoliram-se ali ideias-feitas sobre realidades que jamais existiram.
Podem multiplicar-se exemplos como estes. Através deles percebemos que determinadas práticas,
tomadas em regra como muito antigas, imemoriais, "tradicionais", apareceram afinal há relativamente pouco tempo. A maior
parte da música folclórica portuguesa, por exemplo, ganhou a forma que hoje conhecemos também pelos finais de
Oitocentos, quando não muito depois. As danças da região da Nazaré, bem como as roupas usadas pelos seus
pescadores e varinas, foram assim, em grande parte, uma invenção patrocinada, nos tempos de Oliveira Salazar e de
António Ferro, pelos organismos de propaganda do regime. E o mesmo se pode observar em actividades tão caracteristicamente
nacionais como a arte de tourear "à portuguesa" ou o culto do fado. Num e noutro caso, uma abordagem cuidadosa da história
far-nos-á imediatamente ver de que forma são estes fenómenos alguma coisa de relativamente recente e a viver
um constante processo de mudança.
Tive há anos a experiência inesquecível de assistir pessoalmente à invenção
de uma "tradição". Numa olaria de S. Pedro do Corval, perto de Évora, vi serem acabadas as primeiras
gerações de matrioskas russas reconvertidas, por obra e graça dos barristas locais e das longínquas
influências da arte popular soviética, nas colecções de roliças ceifeiras alentejanas, encaixadas
umas nas outras consoante os tamanhos, que se vendem agora em qualquer loja de souvenirs. Questionado sobre se seriam aquelas
peças, de facto, uma tradição alentejana, respondeu o artesão que "sim senhor", uma vez que, declarou
com convicção, "já fazemos disto há mais de três meses". Sei também, aliás, de uma
universidade, daquelas novinhas em folha, cujos responsáveis contrataram um encenador e uma estilista muito conhecidos na
praça para desenharem, a lápis e esquadro, o ritual "tradicional" da imposição das insígnias
académicas aos seus doutores, e as farpelas com as quais em tão insigne ocasião estes se deveriam arriar.
A pressa com a qual se inventam e divulgam tradições mergulhou entretanto numa espiral alucinante
e até um pouco cómica. Dizia há tempos o esbaforido comentador televisivo de um jogo de futebol, decorridos
que estavam apenas vinte minutos de contenda em redor do esférico, que "os constantes remates do ataque do Boavista são
já, nesta partida, uma tradição". Outro cidadão, plenamente orgulhoso do seu modelo de vida, afirmava,
em inquérito de rua publicado por um jornal, que fazia já parte da "tradição" da sua família
o vai-vém dominical pelos corredores lotados de um qualquer shopping center. Bem mais dramático, dizia ainda
o atormentado director de uma prisão que "infelizmente, neste estabelecimento é já uma tradição
determinados detidos suicidarem-se". Acrescente-se, seguindo esta ordem de ideias, que constituirá também uma
"tradição" enraizada que cidadãos de minorias étnicas morram por via de lesões no baço
misteriosamente adquiridas em obscuras esquadras policiais lusitanas.
As razões para este estado de coisas têm, uma vez mais, a ver com o uso e o abuso da expressão
por grande parte da comunicação social e por políticos de nível nacional ou local. Os primeiros,
pela busca do sensacionalismo que as chefias de redacção lhes exigem ou por falta de uma compreensão sustentada
do passado recente ou remoto, os segundos, por idêntica ausência de conhecimentos básicos ou por uma
estratégia consciente de sedução do eleitorado obtida a partir do estímulo das suas crenças
mais primárias. Em ambos os casos, não é porém o próprio conceito de tradição
que está em causa, mas sim a sua adulteração e decadência ao serviço de interesses imediatos,
de um controlo das pessoas e do alastramento do mais abjecto obscurantismo.
Claro que a tradição existe. Não é difícil percebermos como, nas diversas
sociedades, um conjunto de factos, de costumes ou de crenças se repete através dos anos, sobrevivendo à vida
de cada um de nós e à memória das sucessivas gerações. Os símbolos das famílias
da nobreza ou das nações, das empresas multinacionais ou dos clubes desportivos, das instituições
políticas ou das agremiações locais, determinadas cerimónias, certos hábitos e rituais, algumas
tarefas quotidianas ou divertimentos, podem manter traços de identidade e "repetir-se" durante muito tempo. A isso podemos,
de facto, chamar tradição. Mas não só essa permanência é muitas das vezes apenas aparente
— se observarmos a maioria desses fenómenos numa duração de tempo alargada verificaremos que, afinal, eles
vão-se alterando gradualmente — como ela não pode nem deve funcionar como factor destinado a bloquear a
evolução. Não será, decerto, pelo facto de constituírem experiências com muito tempo de
vida em numerosas sociedades que a inumana prática da escravatura ou esse hábito imundo de expelir saliva para o
chão devem deixar de ser banidos do nosso quotidiano.
Detecta-se pois um óbvio reaccionarismo nesta invocação da "tradição" que
nos enche os ouvidos. Ela é mencionada de forma respeitável sempre que se refere ao apreço por práticas
a preservar: histórias antigas, velhas receitas de cozinha, danças e cantares de outros tempos, pedras e papéis
que não se devem perder, pessoas e gestos que marcam a memória pessoal ou colectiva. Mas deve ser olhada sem respeito
algum sempre que sirva para justificar o imobilismo ou actos que contrariam a evolução das sociedades. Não
é por ser antigo, por ser tradicional, que um gesto tem necessariamente valor. Existem edifícios seculares que
devem ser demolidos, velhos muros que não servem já para nada, hábitos repetidos que o tempo tornou
estúpidos e que, por isso mesmo, devem acabar. Torturam-se toiros, humilham-se "caloiros", bebe-se uma garrafa de vinho
antes de conduzir só porque é essa a "tradição" da maioria dos cidadãos barranquenhos, dos
estudantes universitários ou dos condutores de camiões? Um passo mais e afirmar-se-á, sem qualquer complexo,
que judeus, negros, ciganos ou homossexuais precisam ver os seus direitos cívicos limitados, só porque esta atitude
constitui um hábito, uma "tradição", mantida ao longo de centenas de anos pelos sectores conservadores e mais
intolerantes da sociedade.
Apenas perturba que algumas tradições, bem mais verdadeiras e remotas, bem menos desumanas e
nefastas, não tenham a mesma projecção obsessiva nos telejornais, o mesmo lugar cativo nas
preocupações de ministros, governadores civis e presidentes de câmara. Tradições que vêm
do fundo dos tempos, como a do combate pelas liberdades e pelos direitos dos indivíduos, como a da demanda do bem-estar
social e do conhecimento, como a da busca da inovação, da descoberta e do belo. Reduzindo tudo isto a uma única
expressão, tradições como a da procura de uma qualidade de vida melhor e mais justa. Da felicidade possível.
Se, para afirmar esta tradição, for preciso atirar para o lixo com as outras, aquelas que só servem a
intolerância, a violência, a injustiça, se for preciso acabar com elas, matá-las, pois que seja agora.
Ou, como alguém escreveu, "o mais tardar amanhã de madrugada".
* Texto publicado também na revista online
NON! — Cultura e Intervenção, acessível
na net em www.zonanon.org.
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