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Que farei com este lixo?
Farto de ler nestas páginas néscios ataques ao transmontano — provenientes, como sói nas
histórias heróicas, de traidores infiltrados! —, eis que dou um passo em frente para apresentar a quem não se
recusar a ver um entre muitos exemplos do dinamismo e da afirmação da vontade dos naturais de aquém-Marão.
Refiro-me à sábia e pronta resposta do nosso povo à pérfida campanha de encerramento das lixeiras
municipais que o Ministério do Ambiente vem promovendo.
De facto, num momento em que tanto se fala em descentralização (por oposição a
"Regionalização", termo com baixa cotação desde o referendo de 1998), eis que o ministro José
Sócrates se afirma como o paladino do centralismo detrítico, percorrendo o país de lés a lés a
espalhar a Boa Nova dos aterros intermunicipais! A medida conta com alguma oposição popular, nomeadamente em
Trás-os-Montes (o caso que nos interessa), mas, inexoravelmente, as velhas lixeiras municipais vão sendo seladas e
substituídas pelos tais aterros. Na nossa região há já pelo menos um, o da Associação de
Municípios do Vale do Douro Norte (que integra os sete concelhos do sul do distrito de Vila Real).
O que os técnicos do Ministério do Ambiente não levaram em linha de conta foi o apego das
populações ao seu terrunho: não sabem, esses burocratas desenraizados, que só um imperativo de
sobrevivência leva um transmontano a afastar-se, com uma chaga no coração, mais do que meia dúzia de
quilómetros do espaço sagrado da sua aldeia e do rio que, poeticamente, por ela passa. Agora, com um aterro para
sete municípios, despejar a caliça da reforma da cozinha pode significar afastar-se cinquenta quilómetros
do sacro chão — e o telúrico transmontano sofre. Ou melhor: sofreria, porque, arguto como é, o nosso povo
encontrou a solução para este problema.
Qual foi, então, a resposta que o homem comum de Trás-os-Montes encontrou para os ataques
centralistas dos funcionários de Sócrates? Cicuta?, pergunta porventura alguém mais dado a devaneios
históricos. Não, frio, frio — não é por aí. Enveredou o Povo (assim, com maiúscula)
pela Revolução contra o jugo a que está sujeito?, adianta um outro, soprando o pó dos seus sonhos do
PREC. Nem tão quente, nem tão quente. O quê, então?
A resposta — que é ela mesma uma prova de como souberam os transmontanos colher da
globalização das ideias os seus melhores frutos — está em Gandhi. Isso mesmo, o grande ideólogo
indiano que preconizou a resistência pacífica e a desobediência civil como o meio das populações
oprimidas atingirem os seus fins. Com as devidas adaptações, as teorias do Alma Grande foram implementadas no
terreno à questão dos lixos, estando já a apresentar os seus primeiros e visíveis resultados. Se
não acreditam, percorram uma qualquer estrada municipal do sul do distrito de Vila Real — não importa qual, a
aleatoriedade da escolha em nada alterará as conclusões — e comprovem com os vossos próprios olhos: um pouco
por todo o lado o diligente cidadão foi, sem estardalhaços revolucionários, espalhando o entulho mais
variado e, com ele, a voz da sua revolta contra as tentativas de o afastarem da sua vizinhança por razões
tão comezinhas como seja o enterramento dos lixos.
Incauto Sócrates que, no seu êxtase aterrador (no sentido puramente escômbrico da palavra),
não previu a resistência do comum mortal em submeter-se a um êxodo de dezenas de quilómetros até
à Terra Prometida, e operou, involuntária mas biblicamente, a multiplicação das lixeiras: antes eram
sete, agora serão setenta vezes sete, igualitariamente distribuídas pelas bermas da região!
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