edição n.º 19 vai para a página do index da edição
 
opinião [1]
TEXTO: fernando gouveia


sacos de lixo amontoados à beira da estrada


Que farei com este lixo?


Farto de ler nestas páginas néscios ataques ao transmontano — provenientes, como sói nas histórias heróicas, de traidores infiltrados! —, eis que dou um passo em frente para apresentar a quem não se recusar a ver um entre muitos exemplos do dinamismo e da afirmação da vontade dos naturais de aquém-Marão. Refiro-me à sábia e pronta resposta do nosso povo à pérfida campanha de encerramento das lixeiras municipais que o Ministério do Ambiente vem promovendo.

De facto, num momento em que tanto se fala em descentralização (por oposição a "Regionalização", termo com baixa cotação desde o referendo de 1998), eis que o ministro José Sócrates se afirma como o paladino do centralismo detrítico, percorrendo o país de lés a lés a espalhar a Boa Nova dos aterros intermunicipais! A medida conta com alguma oposição popular, nomeadamente em Trás-os-Montes (o caso que nos interessa), mas, inexoravelmente, as velhas lixeiras municipais vão sendo seladas e substituídas pelos tais aterros. Na nossa região há já pelo menos um, o da Associação de Municípios do Vale do Douro Norte (que integra os sete concelhos do sul do distrito de Vila Real).

O que os técnicos do Ministério do Ambiente não levaram em linha de conta foi o apego das populações ao seu terrunho: não sabem, esses burocratas desenraizados, que só um imperativo de sobrevivência leva um transmontano a afastar-se, com uma chaga no coração, mais do que meia dúzia de quilómetros do espaço sagrado da sua aldeia e do rio que, poeticamente, por ela passa. Agora, com um aterro para sete municípios, despejar a caliça da reforma da cozinha pode significar afastar-se cinquenta quilómetros do sacro chão — e o telúrico transmontano sofre. Ou melhor: sofreria, porque, arguto como é, o nosso povo encontrou a solução para este problema.

Qual foi, então, a resposta que o homem comum de Trás-os-Montes encontrou para os ataques centralistas dos funcionários de Sócrates? Cicuta?, pergunta porventura alguém mais dado a devaneios históricos. Não, frio, frio — não é por aí. Enveredou o Povo (assim, com maiúscula) pela Revolução contra o jugo a que está sujeito?, adianta um outro, soprando o pó dos seus sonhos do PREC. Nem tão quente, nem tão quente. O quê, então?

A resposta — que é ela mesma uma prova de como souberam os transmontanos colher da globalização das ideias os seus melhores frutos — está em Gandhi. Isso mesmo, o grande ideólogo indiano que preconizou a resistência pacífica e a desobediência civil como o meio das populações oprimidas atingirem os seus fins. Com as devidas adaptações, as teorias do Alma Grande foram implementadas no terreno à questão dos lixos, estando já a apresentar os seus primeiros e visíveis resultados. Se não acreditam, percorram uma qualquer estrada municipal do sul do distrito de Vila Real — não importa qual, a aleatoriedade da escolha em nada alterará as conclusões — e comprovem com os vossos próprios olhos: um pouco por todo o lado o diligente cidadão foi, sem estardalhaços revolucionários, espalhando o entulho mais variado e, com ele, a voz da sua revolta contra as tentativas de o afastarem da sua vizinhança por razões tão comezinhas como seja o enterramento dos lixos.

Incauto Sócrates que, no seu êxtase aterrador (no sentido puramente escômbrico da palavra), não previu a resistência do comum mortal em submeter-se a um êxodo de dezenas de quilómetros até à Terra Prometida, e operou, involuntária mas biblicamente, a multiplicação das lixeiras: antes eram sete, agora serão setenta vezes sete, igualitariamente distribuídas pelas bermas da região!

 


fgouveia@periferica.org

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

vai para o topo da página vai para o texto seguinte vai para o texto anterior