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máquina do tempo
TEXTO: fernando gouveia


«Tossis porque quereis!»

Aqui no EITO andamos preocupados com a saúde dos transmontanos. De tal forma, que pensámos em fazer uma série de reportagens sobre o tema genérico da saúde, quem sabe até dar um salto a Vilar de Perdizes para ver se as medicinas alternativas e as mezinhas nos podem valer onde os médicos (que não temos) não nos valem. Acontece, porém, que o subsídio para as deslocações tarda em chegar e, enfim, já sabem como é: sem subsidiozinho, não há trabalhinho! Tivemos, pois, de mudar de estratégia e reformular o projecto: em vez do trabalho árduo e sujo de calcorrear essas estradas à procura de médicos e milagreiros, eis-nos mergulhados no sábio pó das hemerotecas, desenterrando dos periódicos os vestígios que ficaram, sob a forma de publicidade, dos protagonistas da saúde (e da charlatanice) doutros tempos.1


Eram, realmente, outros tempos.

Era o tempo em que, pela falta de jornais de circulação nacional ou internacional, as lojas de Paris e de Lisboa anunciavam em jornais de província os seus produtos.

Era o tempo (alguma vez deixou de o ser?) das beberragens e emplastros milagrosos, que «como por encanto» tudo curavam: das frieiras à lepra, das sardas ao raquitismo, da tuberculose ao mal das «pessoas quebradas» — este último garantidamente eficaz, a julgar pelo sucesso obtido em, exactamente, 36.549 pessoas que o experimentaram...

Era o tempo em que a sífilis era um mal comum, e em que se alguém tossia era porque assim o queria.

Era o tempo em que não ficava mal pôr um monge beneditino a anunciar o «único preservativo contra as afecções dentárias» (e mais não queremos saber...).

Era o tempo em que, à semelhança dos velhos filmes do far west, o barbeiro acumulava cargos e, no seu «atelier de cabeleireiro», limpava, chumbava e tirava dentes.

Era o tempo em que, quiçá para fazer face à concorrência dos barbeiros, os dentistas anunciavam borlas aos pobres, evitavam a perigosa «chave de Garangcot» (usadas pelos oficiais da tesoura e do pente?), e colocavam dentaduras que garantiam a «perfeita trituração dos alimentos», mesmo sem os modernos produtos fixadores.

E era o tempo em que, nas suas «novidades literárias» (à venda na casa do autor), António Narciso Alves Correia nos previa o tempo, nos prometia a saúde das videiras, nos anunciava o fim do mundo com a devida antecedência, nos levantava o moral ao revelar-nos o «modo de preservar, readquirir e vivificar a potência»... enfim, nos proporcionava uma vida mais saudável e mais longa (apesar do fim do mundo). E tudo isto por apenas quatrocentos reis.

Eram, realmente, outros tempos.

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Nota:
1 Por questões de ordem prática, limitámos o nosso universo de pesquisa a alguns semanários publicados em Vila Real, grosso-modo, entre meados do último quartel do século XIX e os primeiros anos da I Guerra Mundial: A Juventude (21.12.1884), O Villarealense (05.02.1891) e, principalmente, O Povo do Norte (07.06.1891, 29.09.1895, 22.07.1900, 21.02.1904, 16.07.1911 e 07.02.1915).

 


fgouveia@periferica.org  

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EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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