Aqui no EITO andamos preocupados com a saúde dos transmontanos. De tal forma, que pensámos em fazer
uma série de reportagens sobre o tema genérico da saúde, quem sabe até dar um salto a Vilar de Perdizes
para ver se as medicinas alternativas e as mezinhas nos podem valer onde os médicos (que não temos) não nos
valem. Acontece, porém, que o subsídio para as deslocações tarda em chegar e, enfim, já sabem
como é: sem subsidiozinho, não há trabalhinho! Tivemos, pois, de mudar de estratégia e reformular
o projecto: em vez do trabalho árduo e sujo de calcorrear essas estradas à procura de médicos e milagreiros,
eis-nos mergulhados no sábio pó das hemerotecas, desenterrando dos periódicos os vestígios que ficaram,
sob a forma de publicidade, dos protagonistas da saúde (e da charlatanice) doutros tempos.1
Eram, realmente, outros tempos.
Era o tempo em que, pela falta de jornais de circulação nacional ou internacional, as lojas de
Paris e de Lisboa anunciavam em jornais de província os seus produtos.
Era o tempo (alguma vez deixou de o ser?) das beberragens e emplastros milagrosos, que «como por encanto» tudo
curavam: das frieiras à lepra, das sardas ao raquitismo, da tuberculose ao mal das «pessoas quebradas» — este último
garantidamente eficaz, a julgar pelo sucesso obtido em, exactamente, 36.549 pessoas que o experimentaram...
Era o tempo em que a sífilis era um mal comum, e em que se alguém tossia era porque assim o queria.
Era o tempo em que não ficava mal pôr um monge beneditino a anunciar o «único preservativo
contra as afecções dentárias» (e mais não queremos saber...).
Era o tempo em que, à semelhança dos velhos filmes do far west, o barbeiro acumulava cargos
e, no seu «atelier de cabeleireiro», limpava, chumbava e tirava dentes.
Era o tempo em que, quiçá para fazer face à concorrência dos barbeiros, os dentistas
anunciavam borlas aos pobres, evitavam a perigosa «chave de Garangcot» (usadas pelos oficiais da tesoura e do pente?), e colocavam
dentaduras que garantiam a «perfeita trituração dos alimentos», mesmo sem os modernos produtos fixadores.
E era o tempo em que, nas suas «novidades literárias» (à venda na casa do autor), António
Narciso Alves Correia nos previa o tempo, nos prometia a saúde das videiras, nos anunciava o fim do mundo com a devida
antecedência, nos levantava o moral ao revelar-nos o «modo de preservar, readquirir e vivificar a potência»... enfim,
nos proporcionava uma vida mais saudável e mais longa (apesar do fim do mundo). E tudo isto por apenas quatrocentos reis.
Eram, realmente, outros tempos.